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Moedas de Alexandre – Introdução

Bom ! Hoje inicio o meu primeiro trabalho hercúleo nesse blog; um estudo particular e minucioso sobre as moedas de Alexandre III (Ἀλέξανδρος Γ’ ὁ Μακεδών – Aléxandros trίtos ho Makedόn), também conhecido como Alexandre o Grande ou Alexandre Magno, Rei da Macedônia a partir de 336 a.C.

Após anos e anos estudando, lendo e me dedicando à biografia do grande estrategista militar, concluí que muito de sua vida ainda está coberto de mistério, e que muitas de suas biografias (são inúmeros os autores), na verdade são obras de autores com excasso conhecimento específico sobre o tema. Durante anos procurei comparar o que considero um estudo sério realizado por historiadores do passado, com as atuais publicações. Confrontando-as, consegui filtrar o que realmente pode ser levado a sério, daquilo que não deveria nem estar exposto à venda, por tratar-se de literatura ruim, muitas vezes desonesta.

Não pretendo escrever obra completa sobre assunto exaustivamente tratado por competentes historiadores. Seria por demais pretensioso (e por que não dizer, arrogante?) caso acreditasse poder inovar sobre o tema; e ingênuo demais por achar que poderia expor tudo nas páginas de um blog.

Todavia reconheço a necessidade de não ser pueril e superficial ao tratar de assunto de interesse geral e que tanta emoção e paixão desperta naqueles que, como eu, amam a história universal, os seus grandes personagens e, no nosso caso particular, a numismática.

Antes de iniciar, gostaria de salientar aos iniciantes que porventura acompanhem esse blog, dizendo que o nosso hobby é antes de tudo uma paixão; requer paciência, sobriedade, dedicação e muitas horas de exaustivo estudo. Sendo assim, peço paciência a todos, já que irei escrever enquanto compilo minhas notas e tudo que já escrevi a respeito do assunto. Em outras palavras: não pretendo terminar assunto tão complexo em um único post, mas sim em vários que irão se prolongar por semanas até a conclusão final.

Como já disse, não pretendo aqui fazer exame superficial sobre o assunto. Mas reconheço que seria humanamente impossível esmiuçá-lo à perfeição; nem mesmo o mais perfeccionista entre os perfeccionistas estaria capacitado a tal tarefa. Basta para tanto citar as incontáveis cunhagens e as numerosas Casas que cunharam “moedas de Alexandre” que, mesmo “armado” do Muller e do Price, por si só, já seria uma tarefa tremenda.

Mas vamos ao que interessa! Tentarei ser o mais preciso e lógico na argumentação. Para tal – e não poderia deixar de ser (mesmo porque estaria sendo intelectualmente desonesto comigo mesmo) – não irei me furtar de escrever algo sobre a biografia do grande “condotiero”; pelo menos o que considero fundamental ao estudo da “moedagem” de Alexandre; e também para dar ao leitor algo que não trate somente das moedas, como acontece em alguns poucos catálogos especializados. Afinal, a biografia de Alexandre, por si só, já é obra que desperta um grande interesse do público, amplia nosso universo cultural e nos ajuda a entender o presente, investigando o passado.

Nesse ponto, antes de iniciar, gostaria de receber críticas sinceras de outros autores e estudiosos do assunto enquanto escrevo. Acredito que esta seja a melhor forma de se aprender: debatendo pontos de vista diversos, o que será um privilégio para mim, antecipo. Peço também que me dêem um “toque”, caso esteja me aprofundando demais na parte histórica ou ao esmiuçar os pormenores das moedas me detendo mais o que o necessário, já que o assunto me desperta tanta paixão.

Historiografia.

Sobre Alexandre (Pella, 6 ecatombeone* 356 a.C. – Babilonia, 30 targelione* 323 a.C.), o Grande “Condotiero”, muito se tem escrito. São inúmeras as fontes literárias que mantém viva a memória do jovem e intrépido general, amado por muitos e odiado por tantos outros.

Dos clássicos gregos aos estudos sérios de Arriano, Plutarco, Diodoro, Quintus Curtius Rufus e Justino; das manipulações erroneamente atribuídas a Callistene – contemporâneo de Alexandre e historiador oficial da expedição na Pérsia – às inumeráveis reelaborações fantasiosas dos romancistas atuais, muita verdade, mas também muitas inverdades, foram ditas sobre o excepcional estrategista e conquistador.

O incauto leitor poderá se ver “entrapolado” por literaturas pueris e tendenciosas sobre o grande macedônico; muitas delas, lendas que falam de sua ascensão ao céu, do fascínio real e romântico de um personagem homossexual (é necessário entender o contexto da época, antes de levantar hipóteses fantasiosas que possam nos transportar ao conceito atual de homossexualidade) e de suas campanhas, além de dar vazão à sua pretensiosa divindade.
As fontes citadas, e que podemos usar como referência à vida de Alexandre não são contemporâneas à sua época. São, contudo, o resultado de pesquisas e consultas feitas por antigos historiadores que se basearam em obras hoje perdidas. O que temos hoje, na verdade, é o eco de um eco; e se muito nos leva a crer que sucedeu desta ou daquela forma, temos motivos mais do que justificáveis para excluir também muitas obras, principalmente aquelas de romancistas tendenciosos e desonestos com o público leitor.

Já admiti que não dispomos mais das obras de Callistene, de Ptolomeu Lágida, de Cristobulo, Nearco, Clitraco, Efippo e Onesicritus, o que dificulta bastante quem pretende empreender por essa estrada. Diante dos incontáveis estudos sobre a historiografia de Alexandre espalhados por diversas livrarias e fontes na internet, aconselho muita cautela. Os mistérios que ainda envolvem a vida e as campanhas de Alexandre exigem uma bibliografia específica. Dessa forma, para aqueles que desejam se aprofundar no tema, recomendo iniciar pela página dedicada às fontes fidedignas disponíveis sobre este grande personagem. O leitor poderá encontrá-la, como uma entre tantas sugestões, nas páginas do Birkbeck College, da Universidade de Londres, no seguinte endereço: Clique aqui para ter acesso ao Birkbeck College…pesquisando ou entrando em contato com o College, através de seu endereço e-mail. De qualquer forma, me comprometo em postar extensa bibliografia ao final do trabalho.

Boa leitura a todos !

Reis da Macedônia – Alexandre III ‘o Grande’ – 336-323 a.C. AV Stater (8,60 gr). Casa da Moeda de Byblos. Cunhada por volta no período de 330-320 a.C. Cabeça de Athena voltada à direita, portando elmo Ático decorado com serpente, pingente e colar / AΛEΞANΔPOY, Nike* (deusa grega da vitória) em pé, segurando coroa de flores na mão direita estendida; Monograma AP no campo à esquerda.

*Niké de Samotrácia (Νίκη em grego – deusa da vitória): A imponente estátua esculpida em mármore de Paro foi encontrada na Samotrácia, uma ilha no Mar Egeu, em 1863, sem braços e cabeça (uma das mãos só foi encontrada em 1950). A estátua representa a deusa alada, jovem filha de Zeus, que traz o anúncio de vitórias militares, enquanto posa na proa de um navio de guerra. Um fragmento de inscrição sob a base revelou que o monumento foi dedicado aos habitantes de Rodes. A estátua de 2,45m encontra-se hoje no Museu do Louvre. À esquerda, a privilegiada posição dada à estátua da deusa no Louvre, mostrando o fascínio que essa cultura ainda desperta nas pessoas nos dias atuais. À direita, um detalhe ampliado. Clique na foto para ampliar.

Nessa foto vê-se, nitidamente, o detalhe da proa de uma embarcação, onde Nike posava anunciando as vitórias em batalhas.

*obs: Todas as palavras que contém asterisco serão tratadas em glossário ou em pé de página.

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A Grécia e o Reino da Macedônia.


Tendo se livrado dos persas com as batalhas de Platéia* e Mycale (479 aC), os gregos começaram uma longa série de conflitos pela hegemonia da região, sem jamais esquecerem o insulto, o ultraje que lhes foi imposto por Xerxes, e a perda das cidades gregas da Jônia.

A tentativa espartana de intrometer-se na disputa entre Ataxerxes e Ciro Menor em 400 a.C. se concluiu com a derrota de Ciro e com a retirada dos gregos e seus aliados sob o comando de Xenofonte que narrou o cansativo retorno das tropas em sua obra maior , a “Anabasi”. A sucessiva expedição de Agesilau II (306 a.C.) na Ásia Menor se concluiu somente dois anos mais tarde com o retorno ao Peloponeso, onde outras cidades se moviam contra Esparta, aproveitando-se da ausência do Rei.

As cidades gregas continuaram seu combate pela hegemonia do território, até o momento em que surge a figura de Filipe III, Rei dos Macedônios que propôs a idéia de um ataque à Pérsia.

*A batalha de Platéia de 20 de agosto de 479 a.C., com a morte do comandante em chefe persa Mardônio e a derrota imposta ao seu exército diante das tropas elênicas sob o comando de Pausânia, estabelece o fim das invasões persas na Grécia.

Precedentemente à essa batalha, a sorte do conflito foi marcada pela breve e espetacular resistência das forças do rei espartano Leônidas nas costas das Termópolis (11 de agosto de 480 a.C.) e no mar, por duas batalhas navais, a de Campo Artemísio (agosto de 480 a.C.) e sobretudo a batalha de Salamina (setembro de 480 a.C).

*A Batalha de Mycale, foi uma das duas grandes batalhas que puseram fim à invasão dos persas na Grécia. A batalha ocorreu em torno a 27 de agosto de 479 a.C. nas encostas do Monte Mycale, no território da Jônia, em frente à ilha de Samos. Esta batalha levou à destruição da maioria das forças persas na Jônia, bem como da sua frota no Mediterrâneo.
Essa, mais a batalha de Platéia, praticamente no mesmo dia, no continente grego, decretaram a derrota das forças dos persas, que foram obrigados a se retirar, colocando um fim definitivo ao domínio persa na região.
O conhecimento dessas duas batalhas, com todos os seus pormenores, chegaram a nós graças às narrativas do historiador grego Heródoto de Halicarnasso.

A coalizão grega reuniu um exército de cerca 110.000 homens, consistindo de 38.700 Hóplitas e 71.300 de infantaria leve, acrescidos de 1.800 homens de Téspias. Segundo o relato de Heródoto, os hoplitas tinham origem em diversas cidades-estado.

Moderna reconstrução de uma falange*. Os Hóplitas, exceção feita àqueles espartanos, não formavam um grupo homogêneo. Cada soldado usava seus próprios ornamentos, decorando sua armadura com as suas próprias cores.

Figura: À esquerda, Hóplita grego (coríntio) e à direita, Hóplita espartano.

*A falange era uma antiga formação de combate, composta por infantaria pesada com soldados empunhando lanças, piques e escudos (ou armas semelhantes). A falange era típica do mundo grego e helenístico, mas também foi adotada por outros povos como os etruscos. Foi Filipe II, pai de Alexandre a introduzir as sarissas (lança muito longa, com até 7 metros de comprimento) em seu exército, criando as temidas “falanges macedônicas”

Falange macedônica, criada por Filipe II, em formação de combate.


Figura: Três visões do que poderia corresponder ao vulto de Filipe II da Macedônia, pai de Alexandre. A primeira à esquerda, é uma reconstrução feita pela Universidade de Manchester. A segunda (provavelmente a que mais se aproxima do verdadeiro semblante do Rei macedônio), é um achado arqueológico. De reduzidíssima dimensão, este pequeno busto em terracota é o que os arqueólogos de hoje consideram a imagem que mais se aproxima do verdadeiro vulto de Filipe II. Á época também encontraram um outro busto, de mesma dimensão, refigurando Alexandre, o que o leitor pode constatar na figura a seguir.

Pequenos bustos encontrados por arqueólogos, refigurando Filipe (à esquerda) e seu filho Alexandre (à direita). Estudiosos garantem que estas figuras são as que mais se aproximam do verdadeiro semblantes destes dois grandes personagens históricos.

Artefatos arqueológicos encontrados em ruínas na Macedônia, juntamente com os dois pequenos bustos que refiguram Alexandre e seu pai Flilipe II.

O verdadeiro vulto de Alexandre. Esse busto é a única imagem autêntica do que seria o rosto de Alexandre aos 19 anos, p0rovavelmente em torno à época em que seu pai foi assassinado em Vergina. Todas as outras imagens encontradas, são cópias e resultados de interpretações românticas do semblante do grande condotiero.

A mesma imagem, agora ampliada.

Anverso de medalhão com a provável efígie de Felipe II da Macedônia, pai de Alexandre, o Grande.

Reis da Macedônia – Filipe II – 359-336 a.C. AV Stater (8,62 g). Casa da Moeda de Pella. Cunhada em torno a  340/36-328 a.C. Cabeça de Apolo voltada à direita, usando coroa de louros / ΦIΛIΠΠOY, Biga em condução, voltada à direita, rédeas na mão esquerda. Extremely fine. Negociada em leilão. Valor final: US$ 4.500.

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História e colecionismo de Moedas no Brasil

As Primeiras Moedas

No início do período colonial, o meio circulante brasileiro foi sendo formado de modo aleatório, com as moedas trazidas pelos colonizadores, invasores e piratas que comercializavam na costa brasileira. Assim, ao lado das moedas portuguesas, circularam também moedas das mais diversas nacionalidades, cuja equivalência era estabelecida em função do seu valor intrínseco (conteúdo metálico).

A partir de 1580, com a formação da União Ibérica, verificou-se uma afluência muito grande de moedas de prata espanholas (reales), provenientes do Peru, graças ao florescente comércio que se desenvolveu através do Rio da Prata. Até o final do século XVII, os Reales espanhóis constituíram a parcela mais expressiva do dinheiro em circulação no Brasil.

As moedas portuguesas que aqui circulavam eram as mesmas da Metrópole, oriundas de diversos reinados. Cunhadas em ouro, prata e cobre, essas moedas tinham os seus valores estabelecidos em réis e possuíam às vezes denominações próprias, como Português, Cruzado, São Vicente, Tostão, Vintém. A moeda de 1 real, unidade do sistema monetário, era cunhada em cobre.

Moeda hispano-americana de 8 Reales de Philipe V de espanha – Casa da Moeda de Lima (ME).

Moeda hispano-americana de 8 Reales de Carolus IIII – Casa da Moeda do México (FM).

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Moedas Contramarcadas

A longa guerra mantida contra os espanhóis, após a restauração da independência de Portugal, custou elevadas somas à coroa portuguesa. Para conseguir os recursos necessários, D. João IV (1640-1656) e D. Afonso VI (1656-1667) recorreram a sucessivas alterações no padrão monetário, determinando reduções nos pesos das novas moedas fabricadas e procedendo a aumentos no valor das moedas em circulação. Posteriormente, durante o reinado de D. Pedro (1667-1706), também foram efetuados aumentos nos valores correntes das moedas.

Em algumas ocasiões esses aumentos foram praticados sem que fossem efetuadas alterações nas moedas; em outras, foram concretizados mediante a aposição de contramarcas (carimbos). Dessa forma, foram contramarcadas diversas moedas portuguesas de ouro e prata e Reales espanhóis de prata, em circulação no reino e nas províncias.

Para a aplicação desses carimbos foram instaladas, nas principais capitanias do Brasil, oficinas monetárias temporárias, que funcionavam apenas durante os processos de carimbagem.

Brasil / prata – Excepcional Carimbo S00 sobre 400 Réis Evora.

Marcas para Evitar o Cerceio

A adulteração das moedas de ouro e prata, pela prática ilegal de raspagem dos bordos para retirada do metal (cerceio), assumira proporções calamitosas em Portugal e nos seus domínios, levando D. Pedro II a adotar várias medidas para impedir a sua continuidade. Dentre essas medidas encontram-se a colocação de cordão (espécie de serrilha em forma de cordão) e de marca (esfera armilar coroada, aplicada junto à orla) e a cunhagem de novas orlas nas moedas de cunhos antigos.

Moedas-Mercadorias

Nos dois primeiros séculos após o descobrimento, face à inexistência de uma política monetária especial para a Colônia, a quantidade de moedas em circulação era insuficiente para atender às necessidades locais. Por esse motivo, diversas mercadorias foram utilizadas como dinheiro, inclusive pelo próprio governo, sendo comuns os pagamentos realizados em açúcar, algodão, fumo, ferro, cacau e cravo, entre outros.

Em algumas ocasiões, o uso de mercadorias como moeda obedeceu a determinações legais. Em 1614, por exemplo, o Governador do Rio de Janeiro estabeleceu que o açúcar corresse como moeda legal, ordenando que os comerciantes o aceitassem obrigatoriamente como pagamento. No Maranhão, que constituía um estado politicamente separado do Brasil e onde a principal moeda corrente era o algodão, foi legalmente estabelecida, em 1712, a circulação do açúcar, cacau, cravo e tabaco como moeda.

Os escravos africanos chegados ao Brasil utilizaram em suas trocas o zimbo, concha de um molusco encontrada nas praias brasileiras e que circulava como dinheiro no Congo e em Angola.

As Moedas Holandesas

Cercados pelos portugueses no litoral de Pernambuco e não dispondo de dinheiro para pagar seus soldados e fornecedores, os holandeses realizaram a primeira cunhagem de moedas em território brasileiro. Conhecidas como “moedas obsidionais” ou “moedas de cerco”, estas foram também as primeiras moedas a trazerem o nome do Brasil. Face à inexistência de ferramentas e materiais adequados, bem como à urgência do trabalho, as moedas foram feitas de forma bastante rudimentar.

Em 1645 e 1646 foram cunhadas moedas de ouro de III, VI e XII florins e em 1654, pouco antes da partida, moedas de prata, nos valores de XII, X, XX, XXX e XXXX soldos, havendo, entretanto, polêmica quanto à autenticidade dos quatro últimos valores. A inscrição G.W.C. corresponde às iniciais de “Companhia das Índias Ocidentais” (Geoctrooyerde Westindische Companie).

As Primeiras Casas da Moeda

Nas duas últimas décadas do século XVII agravou-se a situação de falta de moeda no Brasil, comprometendo o funcionamento da economia e provocando drástica redução nas rendas da Coroa. Inúmeras representações, pedindo solução para o problema, foram encaminhadas ao rei pelos governadores gerais e das capitanias, representantes das câmaras e membros da igreja e da nobreza. Em 1694, finalmente, D. Pedro II resolveu criar uma Casa da Moeda na Bahia, para a cunhagem de moeda provincial para o Brasil.

Todas as moedas de ouro e prata em circulação na colônia deveriam ser obrigatoriamente enviadas à Casa da Moeda, para serem transformadas em moedas provinciais. Essa medida acarretava problemas às demais capitanias, em função das dificuldades e riscos do transporte. Assim, para atender às necessidades da população, a Casa da Moeda foi transferida em 1699 para o Rio de Janeiro e no ano seguinte para Pernambuco, onde funcionou até 1702. Em 1703, por ordem de D. Pedro II, foi instalada novamente no Rio de Janeiro, não mais com a finalidade de cunhar moedas provinciais, mas para transformar o ouro em moedas para o reino.

Foram cunhadas moedas de ouro, nos valores de 4.000, 2.000 e 1.000 réis, e de prata, nos valores de 640, 320, 160, 80, 40 e 20 réis. O conjunto de moedas de prata é conhecido como série das patacas, em função da denominação “pataca” , atribuída ao valor de 320 réis.

Moedas de Cobre Angolanas

Como as casas da moeda não cunharam moedas de cobre, foi autorizada a circulação no Brasil de moedas destinadas a Angola, fabricadas na cidade do Porto, nos valores de 5, 10 e 20 réis. Essas moedas eram necessárias para as transações de pequeno valor.

O Ouro se Transforma em Moeda

Na primeira metade do século XVIII, a elevada produção de ouro possibilitou o funcionamento simultâneo de três casas da moeda e a cunhagem de grande quantidade de peças, cujos valores e beleza testemunham a opulência que caracterizou o período do reinado de D. João V (1706-1750).

Inicialmente foram cunhadas, nas casas da moeda do Rio de Janeiro (1703) e da Bahia (1714), moedas idênticas às do Reino: moeda, meia moeda e quartinho, com valores faciais de 4.000, 2.000 e 1.000 réis . Embora com as mesmas denominações das moedas provinciais, essas peças possuíam maior peso e seu valor de circulação era 20% superior ao valor facial.

O estabelecimento de uma casa da moeda em Minas Gerais foi determinado em 1720, quando da proibição da circulação do ouro em pó dentro da capitania. Além de moedas iguais às cunhadas no Reino, no Rio e na Bahia, a nova casa da moeda deveria fabricar peças com valores nominais de 20.000 e 10.000 réis, as quais circulariam com os valores efetivos de 24.000 e 12.000 réis. Instalada em Vila Rica, a casa da moeda de Minas funcionou no período de 1724 a 1734.

Em 1722 D. João V alterou a forma e o valor das moedas de ouro portuguesas, criando a série dos escudos, com os valores de 12.800 réis (dobra de 8 escudos), 6.400 réis (dobra de 4 escudos), 3.200 réis (dobra de 2 escudos), 1.600 réis (escudo) e 800 réis (1/2 escudo). Cunhadas no Brasil a partir de 1727, essas moedas trazem no anverso a efígie do Rei. Dentro dessa série foi introduzida, em 1730, a peça de 400 réis (cruzadinho).

Figura: Casa da Moeda de Vila Rica (Minas Gerais). Moeda de ouro do período colonial – D. João V, série dos dobrões – 20.000 Réis ouro 1726 MMMM. A moeda de ouro brasileira de maior peso (53,78 gr.)

Figura: Casa da Moeda de Vila Rica – Minas Gerais. Moeda de ouro do período colonial – D. João V, série das dobras – 12.800 Réis ouro 1731 M.

Moedas de Ouro de D. José I e D. Maria I

Nos reinados de D. José I (1750-1777) e de D. Maria I (1777-1805), continuou sendo cunhada a série dos escudos, com exceção da peça de 12.800 réis, cuja cunhagem havia sido suspensa por D. João V, em 1732. Voltaram também a ser fabricadas as moedas provinciais de ouro, nos valores de 4.000, 2.000 e 1.000 réis, que não eram cunhadas desde 1702.

Nos escudos de D. Maria, as efígies representam duas fases distintas de seu reinado. Na primeira ela aparece ao lado do marido, D. Pedro III. Após a morte deste, em 1786, é retratada sozinha, primeiro com um véu de viúva e depois com um toucado ornado com jóias e fitas.

Moedas da Série “J”

Em 1750 D. José proibiu a circulação de moedas de ouro nas regiões de mineração, considerando que as transações comerciais naquelas comarcas poderiam ser realizadas com barras de ouro marcadas e ouro em pó. Para atender às necessidades do comércio miúdo na região, mandou que as casas da moeda do Rio de Janeiro e da Bahia cunhassem moedas provinciais de prata e cobre.

Em 1752, entretanto, atendendo à sugestão do governador da capitania de Minas, determinou que fossem cunhadas também moedas de prata com os valores de 600, 300, 150 e 75 réis, tendo em vista que os preços nas regiões das minas eram estabelecidos em termos de oitavas e de seus submúltiplos, valendo a oitava de ouro não quintado 1.200 réis.

Para evitar confusão com as moedas provinciais de prata de 640, 320, 160 e 80 réis, em função da proximidade dos valores, nas novas moedas o escudo com as armas de Portugal foi substituído por um “J” com uma coroa em cima.

Moedas de Cobre no Século XVIII

Durante o reinado de D. João V, a Casa da Moeda de Lisboa fabricou moedas de cobre de 10 e 20 réis, especialmente destinadas ao Brasil. Moedas com esses mesmos valores foram cunhadas também pela Casa da Moeda da Bahia, que em 1729 realizou a primeira cunhagem de moedas de cobre no Brasil.

Em 1730 foram enviadas para Minas moedas de cobre cunhadas em Lisboa em 1722, nos valores de 20 e 40 réis, com pesos bastante reduzidos, as quais deveriam circular apenas naquela capitania.

No reinado de D. José I, entraram em circulação moedas provinciais de cobre nos valores de 5, 10, 20 e 40 réis, cunhadas em Lisboa e no Brasil.

Sob o reinado de D. Maria I, não houve cunhagem de cobre no Brasil. Todas as moedas foram fabricadas em Lisboa, mantendo inicialmente os mesmos pesos e valores do período anterior. Em 1799, entretanto, já sob a regência de D. João, as moedas de cobre tiveram seus pesos reduzidos em cerca de 50%.


Bilhetes da Extração – Primeira Moeda-Papel

A partir de 1772, a extração de diamantes na região do Tejuco do Serro Frio (atual Diamantina) passou a ser feita diretamente pela Coroa Portuguesa, que para isso criou a Real Extração dos Diamantes.

Quando havia insuficiência de recursos para o custeio das despesas, a Administração dos Diamantes emitia bilhetes que eram resgatados quando chegavam os suprimentos em moeda remetidos pela Fazenda Real. No início esses bilhetes tinham grande credibilidade, sendo aceitos em todas as transações comerciais da região.

Moedas para o Maranhão e Grão-Pará

Em 1748 D. João V determinou a cunhagem de moedas provinciais de ouro, prata e cobre para o Estado do Maranhão e Grão-Pará, no total de 80 contos de réis. Cunhadas em 1749, pela Casa da Moeda de Lisboa, essas moedas tinham as mesmas denominações e pesos das moedas provinciais brasileiras.

Segundo depoimentos da época, a introdução dessa moeda provocou grande confusão no Estado, uma vez que os preços dos salários e de todos os produtos estavam fixados em termos de algodão e especiarias.

Barras de Ouro e Certificados

Com o objetivo de garantir a cobrança do imposto do quinto, foram estabelecidas casas de fundição nas principais regiões auríferas do país, para as quais deveria ser levado todo o ouro extraído.

Depois de deduzida a quinta parte, o ouro era fundido e transformado em barras, nas quais eram registrados o ano, a marca oficial da casa de fundição, o número de ordem, o título e o peso do ouro. Assim legalizado, o ouro era devolvido a seu proprietário, acompanhado de um certificado.

Essas barras tiveram ampla circulação no Brasil, desempenhando a função de moeda, particularmente nas capitanias do interior.


Carimbos de Escudete

Para uniformizar o meio circulante brasileiro, onde moedas do mesmo metal e do mesmo peso tinham valores diferentes, D. João determinou, em 1809, a aposição de carimbo em forma de escudete nas moedas da série “J”, para equipará-las às da série das “patacas”, e nas moedas de cobre cunhadas antes de 1799, para duplicar seus valores.

D. João, Príncipe Regente e Rei

Embora D. João tenha assumido a regência em 1799, durante alguns anos as moedas continuaram sendo cunhadas com o nome de D. Maria I. As primeiras moedas de ouro cunhadas com a legenda “João Príncipe Regente” foram produzidas em 1805, antes de sua chegada ao Brasil.

A elevação do Brasil à condição de Reino Unido foi registrada nas peças em ouro, prata em cobre cunhadas em 1816, com a legenda “João, por Graça de Deus, Príncipe Regente de Portugal, Brasil e Algarves”.

Com a aclamação de D. João como D. João VI, em 1818, as moedas passaram a ter as armas do Reino Unido e a legenda “João VI, por Graça de Deus, Rei de Portugal, Brasil e Algarves”.

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A Moeda de 960 Réis

A mudança da família real e da Corte portuguesa para o Brasil foi conseqüência da situação européia no início do século XIX. Naquela época, a Europa estava inteiramente dominada pelo imperador dos franceses, Napoleão Bonaparte. Com sua política expansionista, ele submetera a maior parte dos países europeus à dominação francesa. O principal inimigo de Napoleão era a Inglaterra, cuja poderosa armada o imperador não pudera subjugar.

Em 1806, Napoleão decretou o Bloqueio Continental, obrigando todas as nações da Europa continental a fecharem seus portos ao comércio inglês. Com essa medida, Napoleão pretendia enfraquecer a Inglaterra, privando-a de seus mercados consumidores e de suas fontes de abastecimento. Nessa época, Portugal era governado pelo Príncipe Regente Dom João, pois sua mãe, a Rainha Dona Maria I, sofria das faculdades mentais.

Pressionado por Napoleão, que exigia o fechamento dos portos portugueses ao comércio inglês, e ao mesmo tempo pretendendo manter as relações com a Inglaterra, Dom João tentou adiar o mais que pôde uma decisão definitiva sobre o assunto.

Se aderisse ao Bloqueio Continental, Portugal ficaria em condições extremamente difíceis, porque a economia portuguesa dependia basicamente da Inglaterra. Os ingleses eram os maiores fornecedores dos produtos manufaturados consumidos em Portugal e também os maiores compradores das mercadorias portuguesas e brasileiras. A Inglaterra, por sua vez, também não queria perder seu velho aliado, principalmente porque o Brasil representava um excelente mercado consumidor de seus produtos.

Para resolver a situação de acordo com os interesses de seu país, o embaixador inglês em Lisboa, Lorde Percy Clinton Smith, Visconte de Strangford, conseguiu convencer Dom João a transferir-se com sua Corte para o Brasil. Desse modo, os ingleses garantiam o acesso ao mercado consumidor brasileiro.

A transferência da Corte era uma boa solução também para a família real, pois evitava a deposição da dinastia de Bragança pelas forças napoleônicas.

O Tratado de Fontainebleau, estabelecido entre a França e a Espanha em outubro de 1807, apressou a decisão do Príncipe Regente Dom João a abandonar a metrópole. Por aquele tratado, Portugal e suas colônias, inclusive o Brasil, seriam repartidos entre a França e a Espanha. No dia 29 de novembro, Dom João e sua família, acompanhados por um séquito de 15.000 pessoas, partiram para o Brasil. No dia seguinte, as tropas francesas do general Junot invadiram Lisboa.

Quatro navios britânicos escoltaram as embarcações portuguesas até o Brasil; parte da esquadra portuguesa aportou na Bahia e parte no Rio de Janeiro.

A chegada de Dom João à Bahia, onde ficou pouco mais de um mês, ocorreu em 22 de janeiro de 1808. Teve início, então, uma nova História do Brasil, pois a colônia foi a grande

beneficiada com a transferência da Corte. A presença da administração real criou, pouco a pouco, condições para a futura emancipação política da colônia. Da Bahia, Dom João seguiu para o Rio de Janeiro. Ali, o alojamento da numerosa comitiva do príncipe causou grandes problemas. As melhores residências da cidade foram requisitadas para os altos funcionários da Corte, não sendo poucas as pessoas despejadas de suas casas para hospedar os recém-chegados.

O Brasil ainda era uma colônia quando a Família Real desembarcou na Bahia, depois de quase 2 meses de exaustiva viagem. Esta chegada repentina de cerca 15.000 pessoas acostumadas com o luxo e o conforto da corte portuguesa, causou um aumento inesperado nas despesas da Colônia, agravando a já difícil situação em que se encontrava o Tesouro Real.

Nessa época circulavam livremente no Brasil, toda sorte de moedas estrangeiras, em sua grande maioria as Européias e as Hispano-Americanas de 8 reales que circulavam ao valor de 750 réis.

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O Surgimento da moeda de 960 Réis – O Carimbo de Minas

Quando D. João Príncipe Regente chegou ao Brail em 1808, circulavam legalmente no país, moedas de ouro, prata e cobre. Entre as moedas de prata oficiais, circulavam os 80, 160, 320 e 640 Réis(*¹). Também circulavam nessa época, uma grande variedade de moedas estrangeiras de prata. Essas moedas que circulavam livremente, eram originárias da Espanha e de suas colônias americanas (Bolívia, Peru, Chile, Argentina, México e Guatemala) e possuíam um diâmetro que variava de 37 a 42 mm. Pesavam em torno de 27 gramas e o seu teor de prata era, em geral, de 896 a 917 partes por 1000. Conhecidas como Pesos Espanhóis, as moedas hispano-americanas e metropolitanas de 8 Reales circulavam valendo de 320 Réis a princípio, a 750 Réis quando foi proibida a sua circulação pelo Alvará de 01 de Setembro de 1808 Réis(*²) . A partir desta data, a Coroa determinou que os 8 Reales fossem recolhidos e com o Aviso de 9 de novembro de 1808 ordenou que fossem enviados às 4 casas de fundição de MINAS GERAIS (Vila Rica, Sabará, Serro Frio e Rio das Mortes), 24 pares de cunhos com as Armas Reais para a carimbagem dos Pesos Espanhóis, divididos em 6 pares para cada uma das 4 casas de fundição. Foram enviados inicialmente (novembro de 1808) 70.137 pesos à Junta de Fazenda de Minas Gerais que depois de carimbados, deveriam ser empregados no resgate dos outros cuja circulação havia sido proibida. Em junho de 1809 houve autorização para compra de 100.000 pesos, ao preço unitário de 800 réis, para serem remetidos às províncias de Goiás, Mato Grosso e São Paulo para que nestes locais fossem aplicadas as determinações do Alvará de outubro de 1808, o que indica que, provavelmete, a carimbagem não se restringiu apenas à província de Minas Gerais. O “Carimbo de Minas” tinha o carater de moeda regional, devendo circular exclusivamente na Provincia de Minas Gerais e nao se sabe, com certeza, se houve remessa de pesos ou de cunhos para outras províncias.

Surgia assim (figura acima) a contramarca bifacial e circular, de aproximadamente 17mm de diâmetro, e limitada por uma cercadura de traços radiais, tendo no anverso o escudo português encimado pela Coroa Real arrematada por cruz latina singela, ladeado por dois ramos frutificados de louro que se cruzam na parte inferior onde, sob o cruzamento dos ramos, lê-se o valor 960 .

Em novembro de 1809 foi criada a moeda de “três patacas” ou “patacão” (960 réis), pondo-se fim à aplicação da contramarca nos pesos espanhóis.

Desta forma, podemos concluir que, desde a sua instituição em outubro de 1808 (partindo da remessa de cunhos em novembro do mesmo ano) até a criação da moeda de “ três patacas “, a aplicação da contramarca de 960 réis, mais conhecida como Carimbo de Minas, foi limitada ao período de novembro de 1808 a dezembro de 1809 (praticamente, um ano).

Carimbo de Minas: Esta é a forma inicial dos 960 réis.

(*1) – Os 20 e 40 réis de prata haviam sido extintos, prevalecendo as moedas de cobre com estes valores.

(*2) – Manoel Jacinto Nogueira da Gama, escrivão deputado da Junta da Fazenda e futuro Marquês de Baependi, em princípios de 1808, em ofício que dirigiu ao Ministro Dom Rodrigo de Souza Coutinho, Conde de Linhares, sugeriu a “… aplicação de um carimbo nos pesos espanhóis “, com o valor de 960 réis. A idéia foi bem aceita, tendo sido determinada a sua execução por Alvará de 1° de setembro de 1808.

Um novo Alvará, com data de 8 de outubro do mesmo ano, determinava que em Minas Gerais não circulassem mais os pesos espanhóis sem a contra-marca e que nem mesmo fossem negociados como gênero de comércio. A partir de então, os pesos marcados com o carimbo de 960 réis passaram a circular como moeda provincial.

(*3) – Pataca: Dizem alguns autores ser esta palavra derivada do árabe “ABUTACA”. Nesse idioma ela se apresenta como  “PATAC“. Como “PATARD ou PATAR”, foi pequena moeda de cobre tendo curso em Flandres e na França, onde se empregou como sinônimo de “óbulo” para designar uma moeda sem valor. Alguns numismatas franceses dizem que  PATAR  pode ser uma corrupção de Peter, forma alemã de Pedro, porque o PATAR de Flandres tem sobre uma das faces a imagem do santo desse nome. Hoffman no seu livro das moedas reais da França até Louis XVI, descreve dois interessantes “PATARDS” de Louis XI ( 1461-1583 ).

No Brasil, a palavra PATACA foi usada para caracterizar a moeda espanhola de 8 reales que a príncipio valia 320 réis. Ficou depois, no sistema provincial, como denominação da peça desse valor. ( Ensaios de Numismática e Ourivessaria – Mário Barata ).

Pataca: Moeda brasileira de prata com o valor circulatório de 320 réis ( Glossário Numismático – Kurt Prober )

Patacão: Moeda portuguesa de cobre ( 10 réis ) de D. João II. Nome popular e mesmo oficial dado no Brasil à moeda de prata de 960 réis. Equivale a 3 patacas. ( Glossário Numismático – Kurt Prober ).

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O carimbo

É bi-facial, circular, tendo aproximadamente 17 mm de diâmetro, limitado por uma cercadura de traços radiais. Era aplicado de modo a que ANVERSO e REVERSO do carimbo correspondessem ao ANVERSO e REVERSO da moeda espanhola. Vinha geralmente aplicado na metade inferior desta, permitindo, na grande maioria dos casos, a leitura da data primitiva da moeda que recebia o carimbo. Por haverem sido contramarcadas pela primeira vez nas casas de fundição de Minas Gerais, essas moedas são hoje conhecidas como “CARIMBOS DE MINAS”.

Moeda hispano-americana de 8 Reales Santiago sem contramarca de 960 Réis.

Moeda hispano-americana de 8 Reale Santiago com contramarca de 960 Réis.

Anverso do carimbo: Escudo português, encimado pela coroa real arrematada por cruz latina singela, ladeado por dois ramos frutificados de louro que se cruzam na parte inferior. No exergo, sob o cruzamento dos ramos, aparece o valor 960.


Reverso do carimbo: Esfera armilar encimada por cruz latina singela e arrematada por um “pé”. Em média o diâmetro da esfera é de 11,5 mm havendo, ao seu redor, um largo campo liso. Quanto à posição, podemos dizer que o REVERSO é intencionalmente “direito”, embora seja frequente encontrá-lo com pequena inclinação.

Tipos de Carimbos

Existem dois tipos de carimbos. Esta classificação é baseada no cunho de anverso do carimbo, basicamente caracterizado por um ponto ( ou a ausência deste ) no cruzamento das hastes dos ramos que se encontram logo acima do valor 960.

figura 5

1° TIPO: Com ponto no cruzamento das hastes. Os ramos de louro têm 11 x 11 folhas e 5 x 5 frutos.
Folhas: 5 externas; 5 internas e uma ao final do ramo
Frutos: 2 externos e 3 internos

figura 6

2º TIPO: SEM PONTO no cruzamento das hastes. Os ramos de louro têm 17 x 17 folhas e 7 x 7 frutos.
Folhas: 8 externas; 8 internas e uma ao final do ramo
Frutos: 3 externos e 4 internos

A identificação do carimbo, por tipo, deve ser feita sempre pelo anverso, bastando para tanto, verificar se existe ou não o ponto no cruzamento das hastes, entre o escudo e o valor 960. É muito difícil uma falha de cunho atingir o ponto, mas se isto acontecer, resta como alternativa recorrer ao número de folhas e de frutos.

1° Tipo: 11 x 11 folhas e 5 x 5 frutos

2° Tipo: 17 x 17 folhas e 7 x 7 frutos

Ainda é possível identificar os Carimbos de Minas por variantes. Esta classificação é feita através da combinação dos cunhos de reverso com os dois tipos de cunho de anverso e confirmada com a descrição completa dos carimbos.

O primeiro estudo sobre o assunto foi realizado pelo numismata Kurt Prober, em 1947 em seu trabalho intitulado “Carimbos de Minas”, onde a numeração que atribuiu aos carimbos com a finalidade de classificá-los por variantes, revela-nos uma minuciosa atenção aos detalhes particulares dos exemplares estudados. Com isso, conseguiu demonstrar, inclusive que os cunhos foram usados depois em barras de ouro, o que possibilitou a determinação do local de aplicação de grande parte dos carimbos.

Desta forma, Kurt Prober conseguiu associar às casas de fundição, diversas variantes de cunho, perfazendo um total de 20 cunhos de anverso e 19 cunhos de reverso. Sao estes:

· VILA RICA – 3 cunhos de anverso e 1 cunho de reverso

· SABARÁ – 1 cunho de anverso e 2 cunhos de reverso

· SERRO FRIO – 8 cunhos de anverso e 7 cunhos de reverso

· INDEFINIDOS – 8 cunhos de anverso e 9 cunhos de reverso

Como foram abertos 24 pares de cunhos, de acordo com o estudo realizado por Prober restavam desconhecidos 4 cunhos de anverso e 5 cunhos de reverso. Estranhamente, a conclusão nos conduz a 8 cunhos de anverso e 7 cunhos de reverso atribuídos a Serro Frio, quando na verdade a informação que temos é a de que cada casa de fundição deveria rceber 6 pares de cunho (anverso e reverso).

O numismata Nogueira da Gama publicou, em 1961, um trabalho minucioso onde catalogou as variantes dos Carimbos de Minas, classificando-as segundo um critério ao qual chamou de “fórmulas”. Em seu minucioso trabalho encontramos explicações detalhadas de seu método para classificação dos Carimbos de Minas.

Quase 3 anos depois, publicou um aditamento a este estudo (setembro de 1963), onde revela o surgimento de novas variantes, chegando a catalogar 22 anversos e 22 reversos. Classificando as variantes segundo o critério “COM PONTO” e “SEM PONTO” no cruzamento das hastes, combinou estes 22 cunhos de anverso com os 22 de reverso, chegando a um total de 44 variantes. Em outras palavras :

Anverso “COM PONTO” – associado com 22 cunhos de reverso.

Anverso “SEM PONTO” – associado com 22 cunhos de reverso.

Total: 44 variantes

Caso a classificação fosse feita seguindo o critério de combinar 24 cunhos de anverso com 24 cunhos de reverso e admitindo a hipotese de que todos poderiam combinar entre si, teriamos 576 variantes. Por isso, o critério adotado é mais lógico. Mesmo porque a possibilidade de todos se combinarem é muito remota, pois os 24 pares de cunhos não foram enviados todos ao mesmo local, impossibilitando a combinação plena. Mesmo assim, levando em conta que estes foram remetidos a quatro províncias e em mesmo número, poderíamos ter 6 anversos, cada um deles combinando com 6 reversos, o que possibilitaria 36 combinações diversas em cada província, chegando a um total de 144 variantes. Adotando-se o método de combinar 2 variações de anverso (com e sem ponto) com as variações de reverso e considerando que cada província recebeu 6 cunhos, teríamos 12 variantes , em cada província, perfazendo um total de 48 variantes, sendo 24 de anverso “COM PONTO” e 24 de anverso “SEM PONTO”.

Continuo em breve !
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Introdução à Numismática

A numismática (do grego noúmisma, moeda) é a ciência que estuda e descreve as moedas, medalhas e similares, sob o ponto de vista histórico, artístico e econômico.

Numismática e História.

A numismática nos ajuda a compreender o mundo em que vivemos relatando, com o auxílio da geografia, mitologia, arqueologia, paleografia e heráldica, a história de uma civilização, de uma nação ou de uma era.

São documentos históricos e artísticos, as variações das ligas metálicas, a difusão territorial e a introdução de novos valores monetários. Sob o ponto de vista histórico, a moeda é um reflexo material da política e da ideologia da autoridade que a emite. Através das imagens que contém são, talvez, a única recordação de um evento.
A numismática nasceu devido ao interesse do humano pelo antigo (Petrarca recolhia e estudava moedas romanas) e adquire seu caráter de colecionismo pela primeira vez com as obras de G. Budé (1514) e A. Fulvio (1517) para depois se transformar em ciência, aprofundando-se na catalogação das várias séries e estudando o quadro histórico em que a moeda se expressa (soberanos, artistas, gravadores, etc).
Fundamental pelo rigor e abrangente é a obra Doctrina Nummorum Veterun (1792-1798) de J.H.Eckhel. A criar um laço mais estreito entre numismática e história foi Th. Mommsen com sua obra Numismática Romana (1860). Na numismática medieval italiana, destacam-se os estudos de A.L.Muratori (1738-1742). Outras obras sistemáticas são A Moeda na Antiguidade de F.Lenormant e o Tratado sobre as Moedas Gregas e Romanas (1900-1923) de E.Babelon.
Na numismática brasileira, destacam-se nomes como Julius Meili, Souza Lobo, Nogueira da Gama, Lupércio Goçalves, Renato Berbert de Castro e Kurt Prober, entre outros que deram significativas contribuições ao seu estudo.

Teorias sobre o nome moeda.

O nome “moeda”, em tempos antigos, era associado à uma divindade que remonta às origens da Itália, conhecida por “Giunone Moneta”, com um templo na Arx ou cidadela do Campidoglio. Em 345 a.C. o templo foi aumentado e em 269 a.C. neste local nasceu a casa da moeda que cunhou os primeiros denários de prata.

Figura: Denário de prata com a efígie do imperador Nero (AD 54-68), cunhado em Roma aproximadamente entre 67 e 68 d.C. Diâmetro: 17mm, Peso: 3.52 gr.

Essa casa da moeda foi edificada no local da casa de Manlio (*1) que em 396 a.C., acordado pelo rumor dos gansos que eram criados em honra da divindade, tinha dado o alarme da aproximação dos Gauleses invasores. A casa da moeda foi colocada sob a proteção da Deusa Moneta, porque era ali que se tinha em custódia o tesouro e tudo que os romanos haviam obtido na conquista de Taranto e da Itália meridional. Assim, o nome da Deusa passou, na linguagem popular, ao produto da casa da moeda, posta sob sua proteção.

Uma segunda teoria diz respeito a um adjetivo que deriva do púnico e que corresponde a machanat ou am machanat, palavra encontrada nos Tetradracmas púnicos que circulavam na Sicília nos séculos IV e V a.C. e que significa acampamento, exército. Desta forma, moeda, segundo esta teoria, resulta ser a redução latina através da forma grega da citada palavra semítica.

Figura: Reis da Macedônia – Alexandre III “o Grande” – 336-323 a.C. – AR Tetradrachm (24mm, 17.08 g). “Amphipolis” mint. Struck circa 323-320 BC. Head of Herakles right, wearing lion skin / Zeus Aëtophoros seated left; in left field, Athena standing right. Price 109; Troxell Studies, Group G2. Good VF.

(*1) Marco Manlio Capitolino, foi um “patrizio” da República romana. Foi cônsul em 390 a.C. Era amigo de Lucio Valerio Potito, e pertencia a “gens Manlia”.

Definição de moeda.

A moeda é um instrumento de troca que estabelece o valor dos objetos trocados, representando a equivalência destes mesmos objetos.


Das moedas de contagem às primeiras moedas metálicas.

A moeda representa o rompimento do vínculo com o processo de trocas que a antecedeu. A primitiva forma de vida social se baseava num sistema simples de trocas onde a mercadoria trocada devia ser pesada a cada vez que se verificasse a intenção de uma negociação comercial. Porém, bastava que aumentassem as espécies de mercadorias trocadas, para surgirem as dificuldades de gerir este processo. Se, por exemplo, estivessem em jogo 10 comerciantes, cada um com um tipo de mercadoria diferente, por um simples raciocínio combinatório, as pesagens (avaliações) deveriam chegar a 90, pois cada um dos produtos poderia ser trocado com os outros 9 e refazendo o processo por 10 vezes, teríamos 9 x 10 = 90.
Se chegassem a 20 mercadorias, as avaliações chegariam ao absurdo número de 380, igual a 20 x 19. Desta forma se fez extremamente necessária a introdução de um elemento capaz de representar todas as mercadorias, de forma que pudesse agilizar as trocas.
Uma outra dificuldade ficava por conta da falta de interesse em determinada mercadoria, onde seu proprietário necessitava efetuar a troca por víveres, por exemplo. Se ninguém se interessasse por su mercadoria, um problema sério se apresentava. Mas a criação de um elemento de interesse comum, criava a possibilidade real de uma troca, bastando para tal estar de posse deste elemento. Este poderia, por exemplo, negociar seu produto em outra região, trocando-o pelo novo elemento introduzido, que lhe daria a possibilidade de obter víveres quando e onde pretendesse, por exemplo.

A moeda, como hoje a conhecemos, é o resultado de uma longa evolução. No início não havia moeda. Praticava-se o “scambio”, simples troca de mercadoria por mercadoria.
Algumas mercadorias, pela sua utilidade, passaram a ser mais procuradas e aceitas do que outras, passando a assumir a função de moeda, circulando como elemento intermediário na troca por outros produtos e servindo para avaliar-lhes o valor. Eram as chamadas “moedas-mercadoria”.
O gado e o sal eram bem aceitos como instrumento de troca e acabaram por deixar registros em nosso vocabulário. Até hoje, empregamos palavras como pecúnia (dinheiro) e pecúlio (dinheiro acumulado), derivadas da palavra latina “pecus” (gado). A palavra capital (patrimônio) vem do latim “capita” (cabeça). A palavra salário (remuneração, normalmente em dinheiro, devida pelo empregador em face do serviço do empregado) tem como origem a utilização do sal que na antiga Roma servia como pagamento de serviços prestados.
Com o passar do tempo, tais mercadorias tornaram-se um inconveniente às transações comerciais, em virtude da oscilação de seu valor, mas principalmente pelo fato de não serem fracionáveis e também por serem facilmente perecíveis, não permitindo o acúmulo de riquezas.
Quando o homem descobriu o metal, logo passou a utilizá-lo para fabricar seus utensílios e armas, anteriormente feitos de pedra.
Por apresentar vantagens como a possibilidade de entesouramento, divisibilidade, raridade, facilidade de transporte e beleza, o metal impôs-se como principal padrão de valor. Era trocado sob as mais diversas formas. A princípio, em seu estado natural, depois sob a forma de barras e, ainda, sob a forma de objetos, como anéis, braceletes, etc.
Os utensílios de metal passaram a ser mercadorias muito apreciadas. Sua produção exigia, além do domínio das técnicas de fundição, o conhecimento dos locais onde o metal poderia ser encontrado. Essa produção, naturalmente, não estava ao pleno alcance de todos. A valorização, cada vez maior, dos utensílios, levou à sua utilização como moeda e ao aparecimento de réplicas de objetos metálicos, em pequenas dimensões, a circularem como dinheiro, como as moedas faca e chave, encontradas no Oriente, e do talento, moeda de cobre ou bronze, com o formato de pele de animal, encontradas na Grécia e em Chipre.
Foram os sumérios (habitantes da Mesopotâmia que em tempos remotos haviam inventado a escrita) que, com seus sacerdotes, se encarregaram de escolher o metal como o meio mais conveniente a servir de intermediário neste processo de troca. Os metais escolhidos foram o ouro (sagrado disco solar) e a prata (consagrada à lua). A relação entre os dois metais foi estabelecido de 1 a 13⅓, correspondendo, ao que parece, à relação astronômica entre o ano solar e os meses lunares.
Sendo os pioneiros no desenvolvimento da série infinita dos números, os sumérios adotaram como base de sua avaliação o número 12 – aparentemente menos cômodo que 10, que corresponde aos dedos das mãos – haja vista ser este divisível por 3 e 4. Além disso, a escopo de materializar o conceito abstrato do número, foi adotada como base a libra de prata que, em seguida foi chamada com o nome latinizado de “mina”. O seu múltiplo foi o “talento”, equivalente a 60 libras de prata. A “mina” foi dividida em 60 “ciclos” onde cada um correspondia a 180 gramas de trigo.
Os metais preciosos ficavam sob custódia dos templos onde os sacerdotes determinavam as importantes e delicadas operações que regulavam as trocas de mercadorias e aluguéis, recuperando inclusive a parte reservada às autoridades. Porém tal conceito de dinheiro tinha um caráter abstrato e aos “talentos”, às “minas” e aos “ciclos” não correspondiam as relativas moedas e portanto era lógico sensação de “falta de recursos próprios” que experimentavam os negociantes e a população em geral por não possuírem, materialmente, o valor do seu produto.

Os Fenícios efetuavam trocas com os índios da África ocidental, recorrendo a um sistema mais tangível e imediato. Colocavam na areia da praia aquilo que pretendiam oferecer e retiravam-se para os seus navios. Os indígenas observavam aquilo que lhes era oferecido e colocavam junto à cada tipo de mercadoria, a quantidade de ouro em pó que acreditavam ser adequado à troca e se retiravam. Se os Fenícios estivessem de acordo, pegavam o ouro e a troca era concluída, caso contrário a operação vinha repetida até quando esta resultasse de comum acordo.

A primeira solução a esta natural aspiração encontrou sua aplicação na Babilônia onde se faz referimento a pesos fixos de prata, substituídos depois por pesos de cobre e em seguida de bronze. Mas foi na Grécia que encontramos a primeira moeda, mesmo que esta ainda se concretizasse na estranha forma de “espetos de ferro” , longos mais de um metro e que eram dados inicialmente aos juízes, como forma de compensação pelos seus serviços prestados em juízo. Cada um destes “espetos” denominados “obelos” davam direito a retirar um pedaço de carne da vítima imolada. O mesmo compenso dizia respeito aos simples cidadãos quando estes “espetos” lhes era concedido por ocasiões de festas e cerimônias.

Foi com a finalidade de exercer a função de meio de troca comercial que, no século VII  a.C. nasce, na Lídia, a moeda. Entre 629 e 600 a.C. aparecem os primeiros discos metálicos de várias dimensões, sobre os quais o Rei havia ordenado que se colocasse o próprio sigilo. Estes discos eram de electron, isto é uma liga natural de ouro e prata que em pouco tempo foram substituídos por discos de ouro puro. Isto aconteceu no VI século a.C. sob o reinado de Creso (561 – 546 a.C.), famoso por sua imensa riqueza. Este fenômeno foi, certamente, o resultado de um processo que durou séculos e, seguramente, não se tratou de uma invenção casual. Com o advento da moeda como instrumento intermediador da troca, foram criadas as primeiras bases da moderna sociedade industrial, permitindo ao homem liberar-se do milenar comércio da simples troca e construir a economia como a conhecemos hoje.

Presume-se que há pelo menos 35 mil anos, instrumentos de caça e pesca e mesmo as rudimentares armas de guerra, deviam se prestar a objetos de troca e possuírem um “preço” estabelecido através de uma prática comercial que, apesar de primitiva aos nossos olhos, era eficiente para a sobrevivência dos grupos humanos que vagavam pelo planeta. O desenvolvimento da pecuária e da agricultura acabou por relegar as atividades de caça e pesca a uma função secundária e, desta forma, outros bens passaram a regular as trocas.
Entre os povos pastores, o objeto principal de referência de troca, não podia ser outro que a ovelha enquanto aqueles que se dedicavam a agricultura e à pecuária, usavam o boi como moeda. Era importante que estes animais possuíssem uma função de medida comparativa de valor, de forma a servir como instrumento de troca numa economia que era fundamentada essencialmente na atividade agrícola.

Com o lento progresso do comércio e do tráfico e também devido ao desenvolvimento social dos vários povos existentes sobre a Terra, desenvolveu-se paulatinamente um sistema de medidas que acabou por criar uma unidade de peso que passou a agir como “moeda”, intermediando trocas e passando a associar, aos bens materiais, um determinado valor.  Através de sucessivas transformações, diversos sistemas metrológicos foram criados sendo aquele duodecimal, por derivação sexagesimal, o mais usado e de clara origem religiosa, em uso na Babilônia.

O sistema sexagesimal ou babilônico que ao que tudo indica remonta a 3000 a.C., é considerado finito ou seja, completo e derivado de base científica como o nosso sistema métrico decimal. Os outros sistemas metrológicos que surgiram posteriormente e que se impuseram sobre os outros como aquele de Fidone, de Solone, dos egípcios e aquele dos romanos, faziam uso de grandezas que não derivavam umas das outras, mas sim dos aspectos da vida econômica.
O sistema babilônico se baseava na medida do tempo. O ano de 360 dias correspondia ao giro de 360 graus. Dois pontos distintos de uma circunferência e que delimitam um arco correspondente à sexta parte da circunferência, determinam uma corda igual ao raio, e a sexta parte do ano correspondia a 60 dias. Desta forma, os números 6 e 60 derivam da medida do tempo e da geometria. Mas 60 tambem é a medida de cada um dos três angulos do triângulo equilátero, construído com os raios da circunferência e a corda que subentende um arco de medida sexagesimal igual a 60. Além disso, uma hora é dividida em 60 minutos e um minuto, em 60 segundos. Com um círculo dividido em 24 partes, cada uma correspondendo a uma hora, temos um total de 1440 minutos que correspondem a 360 graus. Desta forma, um grau corresponde a 4 minutos. Enquanto o sistema decimal trabalha com múltiplos e submúltiplos de 10, aquele sexagesimal trabalha com múltiplos e submúltiplos de 60.

Porém se serviam também do sistema decimal que por diversos motivos não teve ampla e duradoura afirmação. Todavia, frequentemente vimos os dois sistemas sendo empregados contemporaneamente, um para os múltiplos e outro para os submúltiplos e ainda um para certo tipo de bens e outro para outros bens, deixando claro que também a conveniência e os aspectos da vida econômica influenciavam, como ainda o fazem, a determinação dos padrões de troca.

No sistema monetário do Brasil, os 960 réis atendem tanto ao sistema sexagesimal (múltiplo de 60) quanto àquele decimal (múltiplo de 10). Outros valores como 20, 40; 80; 160; 320 (uma pataca) e 640 réis, formam uma progressão geométrica de razão igual a 2, onde o primeiro termo é 10 (este servindo apenas de referência ao sistema decimal). Porém não pertencem ao sistema sexagesimal, pois não são múltiplos de 60. A um certo ponto do processo que deu origem a estas moedas, criou-se um valor (960) que, apesar de múltiplo de 10, interrompe a progressão para tornar-se também muúltiplo de 60 (sistema sexagesimal). Uma teoria plausível sobre esta mudança ,talvez tenha suas raízes nas razões religiosas que levaram os babilônicos a optarem por este sistema.
Mas também constatamos padrões e séries que não obedecem a um e, por vezes, a nenhum dos dois sistemas como é o caso dos 75 réis da série de moedas de prata (75; 150; 300 e 600 réis) cunhadas na Colônia, durante o reinado de D. José I e que ficou conhecida como série dos “J” por terem incisas em seu anverso esta letra fazendo clara referência ao soberano. Apesar dos valores 150; 300 e 600 atenderem perfeitamente aos dois sistemas, o valor 75, foge a este padrão Também as moedas cunhadas em cobre nos valores de 37½  e 75 durante o reinado de D. João VI, fogem a estes padrões metrológicos, mas como foi dito anteriormente, alguns padrões monetários não faziam uso destes sistemas ou de grandezas que  derivavam umas das outras, mas sim baseados nos aspectos da vida econômica.

No Brasil, em  1750, D. José proibiu a circulação de moedas de ouro nas regiões de mineração, considerando que as transações comerciais naquelas comarcas poderiam ser realizadas com barras de ouro marcadas e ouro em pó. Para atender as necessidades do comércio miúdo na região, ordenou que as Casas da Moeda do Rio de Janeiro e da Bahia cunhassem moedas provinciais de prata e cobre.
De 1752 a 1774, estas Casas da Moeda cunharam moedas de prata para Minas Gerais (Provisão de 13/03/1752) para facilitar a troca do ouro não “quintado”, tendo em vista que os preços nas regiões das minas eram estabelecidos em termos de oitavas e de seus submúltiplos, valendo a oitava de ouro (3,586 gr) não “quintado”, 1.200 réis. São as moedas de prata da série “J” (600, 300, 150 e 75) correspondentes a 16, 8, 4 e 2 vinténs de ouro. O vintém-de-ouro equivalia a 37½ réis.
Para evitar confusão com as moedas provinciais de 640, 320, 160 e 80 réis, em função da proximidade dos valores, nas novas moedas, o escudo com as marcas de Portugal foi substituído por um “J” encimado por uma coroa.
D. João VI através da Lei de 10/04/1809 equiparou o valor dessas moedas às de outras de igual peso, passando a valer 640, 320, 160 e 80 réis. A partir de 1818 a Casa da Moeda de Minas cunhou em cobre os valores 37½ e 75 réis para circulação local (Aviso de 16/06/1818).

Em 1752, entretanto, atendendo a sugestão do governador da capitania de Minas Gerais, determinou que fossem cunhadas também moedas de prata com os valores de 600, 300, 150 e 75 réis,
Mesmo assim, tais valores guardam entre si uma forte ligação com o sistema sexagesimal e o decimal, por estarem ligados aos divisores primos de 10 e de 60.

Em um determinado estágio, certamente muito remoto, do sistema metrológico, a determinação dos pesos se baseou em uma unidade menor e fornecida pela própria natureza como o grão de trigo na Europa ou a semente de liquirizia na India.
Nem sempre e não necessariamente, como dito, a troca entre vários bens devia acontecer usando materialmente aquele determinado bem que fazia as vezes de moeda e ao mesmo tempo de peso. Um determinado peso (quantidade) de grãos de trigo ou de qualquer outro cereal podia servir de intermediário na troca entre bens diferentes, servindo de mediador como forma de complementar um ou outro.

Em respeito a precedentes etapas da evolução da humanidade, foi relativamente fácil associar a moeda de “conto” com uma unidade de referência monetária, através das sucessivas trocas de bens que se podiam pesar. Neste estágio do desenvolvimento da moeda, algumas unidades de medida começaram a se impor; entre elas o talento que entre vários povos do Médio Oriente e depois na Grécia e suas colônias foi, de início, medida de peso e, também, moeda de “conto”. Servia, ao mesmo tempo, como peso e moeda de referência, e constituia-se como um meio prático, possibilitando que se fizesse uma comparação na hora da troca dos vários bens e, em seguida, para se poder determinar um valor para um determinado bem.
Um talento de grãos de trigo por 2 talentos de grãos de cevada ou alguns talentos de cevada por uma ovelha. Assim, com o tempo, talentos de bronze por um boi e a um certo ponto o metal passou a fazer parte das trocas entre os diversos bens , entrando definitivamente na vida dos homens.
Em seguida o talento passou a fazer referência também aos metais preciosos, ao ouro, à prata e ao electro.

Figura: Moeda de ouro da Ásia Menor – Lydia – Creso (561 – 546 a.C.)

Na Grécia, o nome da moeda base não varou muito daquele que indicava o primitivo “espeto”, onde “obelos” se transformou em “obolos”, sendo o “obolo de prata” a unidade monetária grega que, agrupada em um número de 6, dá origem ao dracma. Os pesos do dracma variam de acordo com a época, situando-se entre os valores 4,3 a 4,0 gr no I século a.C.. O dracma corresponde a centésima parte da “mina” dos sumérios.


A esta transformação dos processos de troca, correspondeu também a uma profunda transformação na vida social das civilizações. Uma fase inicial praticamente agrícola, se sucedeu uma vida comercial sempre mais intensa, fazendo com que as pessoas se transferissem dos campos para os aglomerados populacionais que se constituiam nas bases das futuras cidades. Se a civilização dos tempos de Homero evidenciava a importância de um homem de acordo com sua propriedade agrícola e através do número de bois que possuia, num futuro próximo o rebanho iria ceder seu posto de supremacia àquele meio que permitia a obtenção de tudo aquilo que se desejasse, a moeda, que permitiu aos comerciantes a troca de bens em regiões distantes entre si onde, de uma forma cômoda, podiam transportar o instrumento que passou a substituir a simples troca.

A título de curiosidade, nos tempos da Grécia antiga (600 a.C.), o valor de um escravo era fixado em 100 cabeças de gado, enquanto o preço de uma mulher podia variar entre 4 e 20 bois, segundo suas características pessoais. O correspondente a uma boa armadura girava em torno a 20 bois.
Hoje, é fácil imaginar como, naquela época, transportar uma grande quantidade de moedas era notavelmente incômodo e perigoso. Desta forma, com o tempo, difundiu-se a “carta de crédito”, onde o uso, por exemplo, poderia permitir a um pai mandar seu filho estudar em Atenas, fazendo-o acompanhar de um documento escrito onde se empenhava em reconhecer os débitos que o filho contrairia limitado a uma determinada soma.
Desta forma, a idéia abstrata de dinheiro dos Sumérios, passou através dos Babilônicos e da Lídia, até a realização efetiva da moeda.

Portugal e Espanha.

A Península Ibérica.

A Península Ibérica (*2) constitue a extremidade ocidental do sul do continente europeu, extendendo-se por 582.925 km², contando atualmente com cerca 55 milhões de habitantes. É ocupada por três estados, Portugal, Espanha e Andorra, e mais o território britânico de Gibraltar. Durante a época dos descobrimentos tornou-se a principal potência mundial, devido à supremacia de Portugal e Espanha em relação aos outros territórios.
Os confins da Peninsula Ibérica se constituem praticamente por 90% (cerca de 4.100 km) de costa maritima e os restantes 10% pela cadeia dos Pirineus.
Deve-se aos gregos o toponimo Ibéria, já citado por Heródoto no século V a.C. como indicativo de povos habitantes vizinhos ao rio Iber (talvez Ebro). Foram os romanos a latinizar o nome para Hiberia, todavia denominando suas provincias ibéricas com o nome Hispania, utilizando o toponimo cartagines Span ou Spania, talvez como significado de oculto para indicar um pais escondido ou remoto.
Formando quase um trapézio, a Península Ibérica liga-se ao continente europeu pelo ístmo constituído pela cordilheira dos Pireneus, sendo rodeada a norte, oeste e parte do sul pelo oceano Atlântico e ao restante da costa sul pelo mar Mediterrâneo.
Com uma altitude média bastante elevada, apresenta predomínio de planaltos que estão rodeados de cadeias de montanhas e que são atravessados pelos principais rios. Os mais importantes são o rio Tejo, o rio Douro e o rio Guadiana, que têm a parte terminal do seu curso em Portugal, desaguando, tal como o rio Guadalquivir no oceano Atlântico, e o rio Ebro, que, por sua vez, desagua no mar Mediterrâneo.
As elevações mais importantes são a Cordilheira Cantábrica, no Norte, a serra Nevada e a serra Morena, no Sul, e ainda a serra de Guadarrama, na Cordilheira Central, de que a serra da Estrela é o prolongamento ocidental. Densamente povoada no litoral, a Península Ibérica tem fraca densidade populacional nas regiões interiores.

(*2) Uma península, do latim paene (quase) e insula (ilha), é uma formação geográfica consistindo de uma extensão de terra de uma região maior que é cercada de água por quase todos os lados, com exceção do pedaço de terra que a liga com a região maior, chamado istmo.Por exemplo, diz-se Península Ibérica para designar a região constituída pela Espanha e por Portugal, ligada à Europa pelos Pireneus. Também podemos dizer que uma península é um braço de terra que avança pelo mar, ligando-se ao resto do continente pelo chamado istmo.

IBERIA: Nome grego para designar a região.

HISPANIA: Nome romano para designar a região.

Por volta de 10.000 a.C. a Península Ibérica era habitada por povos autóctones que vieram a ser conhecidos como Iberos . Entre eles encontravam-se os Tartessos.
Quatro mil anos depois, a região passou a ser habitada por um povo indo-europeu, os Celtas que coexistiram pacificamente com as tribos Iberas até ao ponto de se fundirem, dando origem aos Celtiberos que se subdividiram em vários povos, como os Lusitanos (considerados pelos historiadores como os antecessores dos portugueses), os Calaicos ou Gallaeci e os Cónios, entre outras menos significativas, tais como os Brácaros, Célticos, Coelernos, Equesos, Gróvios, Interamici, Leunos, Luancos, Límicos, Narbasos, Nemetatos, Pésures, Quaquernos, Seurbos, Tamagani, Taporos, Zoelas, Turodos. Influências menores tiveram os Gregos e os Fenícios-Cartagineses , com pequenas feitorias comerciais costeiras semi-permanentes.

Iberos – Habitaram a península Ibérica na antiguidade. A respeito da sua origem, há duas teorias:

  • Uma nos relata que os Iberos eram os habitantes originais da Europa ocidental e os criadores da grande cultura megalítica que teve início em Portugal, no fim do VI milénio a.C., e se espalhou pela península Ibérica, França, Inglaterra, Irlanda e Dinamarca, até meados do II milénio a. C. Essa teoria está apoiada em evidências arqueológicas, genéticas e linguísticas. A ser verdade esta teoria, os Iberos teriam sido o mesmo povo dominado pelos Celtas no primeiro milénio a.C., na Irlanda, Grã-Bretanha e em França. A própria Enciclopédia Britânica define os ingleses como descendentes dos Iberos e dos Celtas.

Alternativamente outra teoria sugere que eram originários do Norte da África, de onde emigraram provavelmente no século VI a.C. para a península Ibérica (à qual cederam o nome), onde ocuparam uma faixa de terra entre a Andaluzia e o Languedoc (na França). Foram parceiros comerciais dos Fenícios, os quais fundaram dentro do território dos Iberos várias colônias comerciais, como Cádiz, Eivíssia e Empúries. Foram assimilados pelos Celtas no século I a.C. formando o povo conhecido como Celtiberos.

Os Iberos eram um povo pré-histórico que vivia no Sul e no Este do território que mais tarde tomou o nome de Península Ibérica. As ondas de emigração de povos Célticos que desde o século VIII até ao século VI a. C. entraram em massa no noroeste e zona centro da actual Espanha, penetraram também em Portugal e Galiza, mas deixaram intactos os povos indígenas da Idade do Bronze Ibérica no Sul e Este da península.
Os geógrafos gregos deram o nome de Ibéria, provavelmente derivado do rio Ebro (Iberus), a todas as tribos instaladas na costa sueste, mas que no tempo do historiador grego Herodotus (500 a.C.), é aplicado a todos os povos entre os rios Ebro e Huelva, que estavam provavelmente ligados linguisticamente e cuja cultura era distinta dos povos do Norte e do Oeste. Havia no entanto áreas intermédias entre os povos Célticos e Iberos, como as tribos Celtiberas do noroeste da Meseta Central e na Catalunha e Aragão.

Das tribos Iberas mencionadas pelos autores clássicos, os Bastetanos eram territorialmente os mais importantes e ocupavam a região de Almeria e as zonas montanhosas da região de Granada. As tribos a Oeste dos Bastetanos eram usualmente agrupadas como “Tartessos”, derivado de Tartéssia que era o nome que os gregos davam à região.

Os Turdetanos do vale do rio Guadalquivir eram os mais poderosos deste grupo. Culturalmente as tribos do noroeste e da costa valenciana eram fortemente influenciadas pelas colónias gregas de Emporium ( a moderna Ampúrias ) e na região de Alicante a influência era das colónias fenícias de Malaca ( Malága ), Sexi ( Almuñeca ), e Abdera ( Adra ), que passaram depois para os cartagineses.

Na costa este as tribos Iberas parecem ter estado agrupadas em cidades-estado independentes. No sul houve monarquias, e o tesouro de El Carambolo, perto de Sevilha, parece ter estado na origem da lenda de Tartessos. Em santuários religiosos encontraram-se estatuetas de bronze e terra-cota, especialmente nas regiões montanhosas. Há uma grande variedade de cerâmica de distintos estilos ibéricos.
Foi encontrada cerâmica ibérica no sul da França, Sardenha, Sicília, e África e eram frequentes as importações gregas . A esplêndida Dama de Elche, um busto com características que mostram forte influência clássica grega. A economia Ibérica tinha uma agricultura rica , forte exploração mineira e uma metalurgia desenvolvida.

A língua Ibérica era uma língua não Indo-Europeia, e continuou a ser falada durante a ocupação romana. Ao longo da costa Este utilizou-se uma escrita Ibérica, um sistema de 28 sílabas e caracteres alfabéticos, alguns derivados dos sistemas fenício e grego, mas de origem desconhecida. Ainda sobrevivem muitas inscrições dessa escrita, mas poucas palavras são compreendidas, excepto alguns nomes de locais e cidades do III século, encontradas em moedas. Os Iberos conservaram a sua escrita durante a conquista romana, quando se começou a utilizar o alfabeto latino. Ainda que inicialmente se pensou que a língua Vasca era descendente do Ibero, hoje considera-se que eram línguas separadas.


Tartessos
– (Τάρτησσος) era o nome pelo qual os gregos conheciam a primeira civilização do Ocidente. Herdeira da cultura megalítica andaluza, que se desenvolveu no triângulo formado pelas actuais cidades de Huelva, Sevilha e São Fernando (Cádiz), pela costa sudoeste da Península Ibérica, teve por linha central o rio Tartessos, que os romanos chamaram logo de Baetis e os árabes Guadalquivir. Os tartessos desenvolveram uma língua e escrita distinta a dos povos vizinhos, e tiveram influências culturais de egípcios e fenícios.

Não é certo que tenha existido uma cidade com este nome, dado que ainda não se encontrou sua localização, ainda que estejam perfeitamente documentados outros povoados ao longo do vale do Guadalquivir, território de expansão da civilização dos Tartessos. A sua provável capital talvez fosse Turpa, no lugar que hoje ocupa o porto de Santa Maria, na desembocadura do Guadalete, de cuja raíz “tr” sairiam todas as formas de Tartessos. Provavelmente, a cidade e a civilização já existiam antes de 1000 a.C., dedicadas ao comércio, a metalurgia e a pesca. A posterior chegada dos fenícios e seu establecimento em Gadir (actual Cádiz), talvez tenha estimulado o seu imperialismo sobre as terras e cidades ao seu redor, a intensificação da exportação das minas de cobre e prata (Os Tartessos converteram-se nos principais provedores de bronze e prata do Mediterrâneo), assim como a navegação até às ilhas Casitérides (Ilhas Britânicas ou mais concretamente as ilhas de Scilly), de onde importaram o estanho necessário para a produção de bronze, ainda que também o obtivessem pela lavagem de areias que continham estanho.

A sua forma de governo era a monarquia, e possuiam leis escritas em tábuas de bronze. Heródoto fala de 6.000 anos.
No século VI a.C.,Tartessos desaparece abruptamente da História, seguramente varrida por Cartago que, depois da batalha de Alalia, a fez pagar assim sua aliança com os gregos. Outros dizem que foi refundada, sob condições pouco claras, com o nombre de Carpia. Os romanos chamaram à ampla Baia de Cádiz Tartessius Sinus, mas o reino já não existia mais.

Celtas – Eram um povo (ou grupo de povos) da família linguística indo-européia que se espalhou pela maior parte da Europa a partir do II milênio a.C., tendo maioria populacional no norte da Europa ocidental até o advento do Império Romano. As tribos célticas ocuparam a maior parte do continente europeu, desde a Península Ibérica até a Anatólia. A maior parte dos celtas foi conquistada, subjugada, e mais tarde integrada pelos Romanos.
Existiam diversos grupos celtas compostos de várias tribos, entre eles os Bretões, os Gauleses, os Escotos, os Eburões, os Batavos, os Belgas, os Gálatas, os Trinovantes, entre outros. Muitos destes grupos deram origem aos nomes das províncias romanas na Europa que mais tarde batizaram alguns dos estados-nações medievais e modernos da Europa.

Os celtas são considerados os introdutores da metalurgia do ferro (Idade do Ferro) na Europa (culturas de Hallstatt e La Tène), bem como das calças na indumentária masculina (embora essas sejam provavelmente originárias das estepes asiáticas). Do ponto de vista da independência política, grupos celtas perpetuaram-se até pelo menos o século XVII na Irlanda, o país em que melhor se preservaram as tradições de origem celta. Outras regiões européias que também se identificam com a cultura celta são o País de Gales (uma entidade subnacional do Reino Unido). A Cornualha (Reino Unido), a Bretanha (França), o norte de Portugal e a Galiza também são regiões onde resquícios das línguas e costumes celtas são encontrados até hoje.
A influência cultural celta jamais desapareceu, e tem até mesmo experimentado um ciclo de expansão em sua antiga zona de influência.

Celtiberos – São o povo que resultou, segundo alguns autores, da fusão das culturas do povo Céltico e a do povo Ibero, nativo da Península Ibérica. Habitavam a Península Ibérica, nas regiões montanhosas onde nascem os rios Douro, Tejo e Guadiana, desde o século VI a.C.. Não há, contudo, unanimidade quanto à origem destes povos entre os historiadores. Para outros autores, tratar-se-ia de um povo Celta que adoptou costumes e tradições iberas. Estavam organizados em gens, uma espécie de clã familiar que ligava as tribos, embora cada uma destas fosse autónoma, numa espécie de federação. Esta organização social e a sua natural belicosidade, permitiram a estes povos resistir tenazmente aos invasores Romanos até cerca de 133 a.C., com a Queda de Numância (antiga cidade da Península Ibérica, perto de Sória nas margens do Rio Douro. Fundada no início do século III a.C., foi destruída pelas tropas romanas de Cipião Emiliano em 133 a.C., após um cerco de 8 meses que pôs fim a uma feroz resistência de 20 anos aos invasores). Deste povo desenvolveram-se, na parte ocidental da Península, os Lusitanos, considerados pelos historiadores como os antecessores dos portugueses, que viriam ser subjugados ao Império Romano no século II a.C..

A invasão romana da Península Ibérica

A partir do final do século IV a.C. registrou-se a ascensão de uma nova potência no Mediterrâneo Ocidental: a República Romana. A partir de então, durante três séculos, Roma constituiu o seu poderio, inicialmente nos territórios da península Ibérica e, em seguida, pelo Mediterrâneo Oriental e Ocidental, no Norte da África, até alcançar a Europa Central e a do Leste.

Cartago versus Roma

A invasão romana da península Ibérica iniciou-se no contexto da Segunda Guerra Púnica (218-201 a.C.), quando as legiões romanas, sob o comando do cônsul Cneio Cornélio Cipião, foram conduzidas taticamente ao local , a fim de atacar pela retaguarda os domínios de Cartago na região.

De fato, a influência cartaginesa na península Ibérica possibilitava à Cartago um expressivo reforço, tanto de suprimentos quanto de homens. A estratégia do Senado romano visava, desse modo, o enfraquecimento das forças cartaginesas, afastando os seus exércitos da Península Itálica.

O primeiro combate importante entre Cartagineses e Romanos ocorreu em Cissa (218 a.C.), provavelmente próximo a Tarraco (Tarragona), embora os historiadores tenham tentado identificá-la com Guissona, na actual província de Lérida. Os Cartagineses, sob o comando de Hannon, foram derrotados pelas forças romanas sob o comando do próprio Cneio Cipião. O caudilho dos Ilergetes, Indíbil, que combatia aliado aos Cartagineses, teria sido então capturado. Não obstante, quando a vitória de Cneio parecia concretizada, Asdrúbal Barca veio em socorro dos cartagineses, com reforços que dispersaram os romanos sem, no entanto, os derrotar. Assim, as forças opostas regressaram às suas bases militares — os Cartagineses à Cartago Nova (actual Cartagena) e os Romanos à Tarraco — e somente no ano seguinte a frota de Cneio Cornélio Cipião vence Asdrúbal Barca na foz do rio Ebro. Pouco depois chegaram reforços da Itália conduzidos por Públio Cipião, permitindo o avanço dos Romanos em direcção a Sagunto.

Atribui-se a Cneio e Públio a fortificação de Tarraco e o estabelecimento de um porto militar. A muralha da cidade foi provavelmente construída sobre a anterior muralha ciclópica, já que nela se observam algumas marcas de trabalho da pedra tipicamente ibéricas.
Ainda no ano de 216 a.C. há registo de combates de Cneio e Públio contra os iberos, provavelmente oriundos de tribos ao Sul do Ebro, embora sem grandes consequências para Roma. Já no ano seguinte, os Cartagineses receberam reforços, encabeçados por Himilcão, dando-se novo combate nas margens rio Ebro, ao que tudo indica, próximo de Amposta ou Sant Carles, naquela que ficou conhecida como a batalha de Hibera, ou Ibera. Para prejuízo de Cartago, deste confronto saíram vencedores os Romanos.

A rebelião de Sifax (aliado de Roma) em 214 a.C. na Numídia (Argel e Orán) obrigou Asdrúbal a regressar à África com as suas melhores tropas, deixando o caminho livre para a progressão romana. Asdrúbal Barca, já em África, conseguiu o apoio de Gala (outro rei númida) senhor da região de Constantina e, com a ajuda deste e do seu filho (Masinisa), subjulgou Sifax. Regressou em 211 a.C. à península fazendo-se acompanhar de Masinisa e dos seus guerreiros númidas.

Entre 214 e 211 a.C., Cneio e Público regressaram ao Ebro. Sabe-se que em 211 a.C. os Cipiões incluíam no seu exército um forte contingente de milhares de mercenários celtiberos. Estes actuavam, frequentemente, como soldados de fortuna.

As forças cartaginesas estruturaram-se em três exércitos, comandados respectivamente pelos irmãos Barca (Asdrúbal e Magão) e ainda por outro Asdrúbal, filho do comandante cartaginês Aníbal Giscão, morto durante a Primeira Guerra Púnica. Do lado oposto, os romanos organizaram-se em três grupos, comandados por Cneio, Públio, e ainda por Tito Fonteio. Asdrúbal Giscão e Magão Barca, apoiados pelo númida Masinisa, conseguem derrotar Públio Cipião, matando-o. Cneio Cipião, em pleno combate a 211 a.C., assiste à deserção dos mercenários celtiberos — a quem Asdrúbal Barca ofereceu uma soma maior daquela paga por Roma — e é obrigado a retirar-se; morre durante a retirada, deixando os Cartagineses aptos a atravessar o rio Ebro, e só puderam ser contidos graças à intervenção de Gaio Márcio Séptimo, eleito general pelas tropas. O cenário destes combates é, porém, incerto, embora sabendo-se que Indíbil combatia novamente do lado dos cartagineses.
No ano seguinte, 210 a.C., é enviada uma expedição dirigida por Cláudio Nerão com vista à captura de Asdrúbal Barca; não obstante, Cláudio nao manteve a sua palavra e fugiu desonrosamente. O Senado insistiu, e enviou novo exército ao rio Ebro, para conter o avanço das tropas cartaginesas em direção à Itália. O líder desta nova força foi o célebre Cipião Africano, filho do general de mesmo nome, morto em combate em 211 a.C.. Cipião fazia-se acompanhar do pró-consul Marco Silano (que deveria suceder a Cláudio Nerão) e do conselheiro Caio Lelio, chefe de esquadra. À sua chegada, os exércitos cartagineses encontravam-se instalados da seguinte forma: aquele dirigido por Asdrúbal Barca encontrava-se próximo da nascente do rio Tejo; o exército de Asdrúbal Giscão na região da futura Lusitânia, próximo à atual cidade de Lisboa; o exército de Magão encontrava-se na zona do estreito de Gibraltar. Cipião, aparentemente desprezando a importância da região do Ebro, atacou directamente Cartago Nova por terra e por mar. A capital púnica peninsular, cuja guarnição insuficiente era dirigida por outro Magão, foi obrigada a ceder sendo ocupada pelos Romanos. Rapidamente, retorna Cipião a Tarraco antes que Asdrúbal atingisse as desguarnecidas linhas do Ebro.

Esta operação marcou o início da submissão de grande parte da Hispânia Ulterior. Cipião soube convencer vários caudilhos ibéricos, até então aliados de Cartago, como Edecão (em conflito com Cartago desde que a sua mulher e filhos foram tomados como reféns), Indíbel (pela mesma razão), e Mandónio (declarado inimigo por Asdrúbal Barca).

No Inverno de 209 a 208 a.C., Cipião avançou em direcção a Sul, chocando-se contra o exército de Asdrúbal Barca que por sua vez se deslocava para Norte, próximo a Santo Tomé (Jaén), na aldeia de Baecula, onde ocorreu a batalha de mesmo nome. Não obstante Cipião reclama-se para si a vitória, Asdrúbal Barca prosseguiu o avanço em direcção ao Norte com a maior parte das suas tropas, atingindo o sopé das montanhas dos Pirinéus. Sabe-se que, desta forma, Asdrúbal cruzou os Pirinéus passando pelo região basca, provavelmente na tentativa de conseguir uma aliança com estes, mesmo porque os bascos não dispunham de grandes meios de oposição à força cartaginesa. Asdrúbal acampou no Sul da Gália entrando na Itália em 209 a.C.. No ano seguinte Magão transladou as suas tropas para as Baleares e Asdrúbal Giscão manteve-se na Lusitânia.
Em 207 a.C., os cartagineses reorganizados e com novos reforços procedentes da África e dirigos por Hannon, conseguiram recuperar a maior parte do Sul da península. Após a submissão desta zona por Hannon, este uniu-se a Asdrúbal Giscão na região, e Magão regressou à península. Pouco depois, as forças de Hannon e Magão foram derrotadas pelo exército romano a mando de Marco Silano, de onde resultou a captura de Hannon e a retirada de Giscão e Magão para as principais praças-fortes até receberem novos reforços vindos da África (206 a.C.). Entretanto recrutaram contingenes de indígenas e confrontaram-se com os Romanos na batalha de Ilipa (na zona da atual Alcalá del Río), na província de Sevilha. Nesta batalha vence Cipião sem sombra de dúvida, obrigando nova retirada de Magão e Asdrúbal para Gades. Cipião tornara-se assim dono de todo o sul peninsular, e pôde cruzar a África onde se encontrou com o rei númida Sifax, que já o havia visitado na Hispânia.
Aproveitando-se de uma convalescença de Cipião, algumas unidades do exército amotinaram-se exigindo os salários em atraso; por sua vez, a oportunidade foi aproveitada pelos Ilergetes (a mando de Indíbil) e pelos Ausetanos (a mando de Mandónio) que iniciariam uma rebelião dirigida, sobretudo, aos pró-cônsules L. Lentulo e L. Manlio. Cipião soube conter o motim, colocando um ponto final na revolta dos ibéricos. Mandónio foi preso e executado (205 a.C.), mas Indíbil conseguiu escapar.

Magão e Asdrúbal abandonaram Gades com todos os seus barcos e tropas para acudir a Aníbal, já em Itália. Roma tornava-se assim senhora de todo o Sul da Hispânia, desde os Pirinéus ao Algarve, no seguimento da costa e, para o interior, de Huesca em direcção ao Sul até ao rio Ebro e para Este em direcção ao mar. A partir de então, iniciou-se a administração romana da península iberica, inicialmente com o caráter de ocupação militar, com o fim de manutenção da ordem e de exploração dos recursos naturais das regiões ocupadas, doravante integradas no território controlado pela República. Assim, a porção ocupada ficava desde já dividida em duas províncias: a Citerior, ao Norte, e Ulterior, ao Sul, com capital em Córdoba. A administração ficava incumbida a dois pretores em bienios que, de resto, nem sempre se cumpria.

Primeira Guerra Púnica – Foi um conflito travado entre 264 e 241 a.C. entre Cartago e a República de Roma, as maiores potências da região do Mediterrâneo da época. Foi a primeira de três guerras entre os dois povos, todas vencidas pelos romanos. As baixas e conseqüências econômicas do confronto foram muito altas para ambas as partes.

No meio do século III a.C., Roma já era uma força militar e dominava toda a península da Itália, seja por meio de guerras ou por alianças com outros grupos, entre estes as cidades gregas na península italiana, tendo Tarento como a mais importante. Estas após o fracasso da invasão de Pirro (comandante grego que tentou dominar a Itália e a Sicília entre 280 e 275 a.C.) se renderam a Roma.

Cartago era uma potência comercial e marítima no Mediterrâneo, com portos no norte da África, península Ibérica e na Sicília. Possuía uma inimizade histórica com Siracusa, cidade grega situada ao leste da Sicília, ambas com pretensões de dominar a ilha. Cartago e Roma eram aliados comerciais e tinham inclusive combatido juntas contra Pirro, pouco mais de uma década antes do inicio da Primeira Guerra Púnica.

Em 288 a.C., uma companhia de mercenários italianos que haviam lutado por Siracusa contra Cartago, os Mamertinos, atacou a cidade de Messina, até então em poder de Siracusa, matando todos os homens e fazendo das mulheres suas esposas. Os Mamertinos dominaram o Estreito de Messina que separa o sul da Itália da Sicilia, atrapalhando rotas importantes da região. O sucesso da ocupação incentivou uma rebelião semelhante na cidade romana de Rhegium do outro lado do Estreito de Messina que só foi controlada dez anos depois em 270 a.C..

Assumindo o poder de Siracusa em 270 a.C., Hiero II decidiu reconquistar Messina e sitiou a cidade. Acuados, os Mamertinos pediram ajuda simultaneamente à Roma e à Cartago. Esta ultima viu no pedido de ajuda uma oportunidade de prejudicar Siracusa e aumentar seu poder na Sicília e sendo assim respondeu enviando tropas.

Apesar dos Mamertinos serem italianos, os romanos ficaram relutantes em ajudá-los contra Siracusa, principalmente por terem sofrido em Rhegium um conflito semelhante contra mercenários, mas temiam um aumento do poder de Cartago em suas vizinhanças.

Quando Roma decidiu ajudar os Mamertinos, Cartago já comandava Messina, mas os mercenários preferiram entregar o poder para os Romanos. Enfurecida, Cartago se aliou a Hiero contra a nova ameaça ao seu poder na Sicília: os romanos.

A guerra antes envolvendo o controle de uma cidade nas mãos de mercenários, tornou-se um conflito entre as maiores forças da região do mediterrâneo.

Segunda guerra púnica – Ocorreu entre 218 a.C. e 204 a.C. como oposiçao da República de Roma à Cartago. Durante o decurso da guerra, o general cartaginês Aníbal e seu exército atravessaram os Alpes com elefantes de guerra e invadiram a Itália. Venceram os Romanos em várias batalhas, mas não marcharam sobre Roma. Isso possibilitou aos Romanos a conquista da Espanha, a destruição de sua base logística e o desembarque na África, levando a guerra ao solo cartaginês. Aníbal, obrigado a retornar à Cartago, foi derrotado por Cipião Africano, em 202 a.C., na batalha de Zama. A pena imposta à Cartago foi severa, tendo que pagar pesados impostos e também ficando proibida de fazer guerra a outros povos sem autorização do Senado Romano.

A Guerra começou em decorrência indireta da Primeira Guerra Púnica. Organizando-se rapidamente após a derrota, os cartagineses expandiram seus territórios na África e invadiram a península Ibérica, dominando todo o Sul e o Leste da região, sob o comando do General Amílcar Barca. Para capital da nova colônia, foi fundada a cidade de Nova Cartago, num dos melhores ancoradouros naturais do mundo.

A Península Ibérica era um dos territórios potencialmente mais ricos do Mediterrâneo, pois além de ótimas terras para a agricultura, possuía minas de prata e uma grande reserva de guerreiros Celtiberos, ideais para servirem nas fileiras do desfalcado exército cartaginês.

Todavia, morre o comandante Amílcar Barca, assasinado em batalha contra uma tribo local. Com isto, o comando das tropas passou a seu filho, Asdrúbal.

Preocupada com a impressionante recuperação da antiga inimiga, Roma pressionou por um tratado, conseguindo que os cartagineses concordassem em conter sua expansão na região na linha do rio Ebro.

Todavia, pouco depois é assassinado o próprio Asdrúbal e, com sua morte, assume o comando do exército outro filho de Amilcar, Aníbal Barca.

Este, tão logo assumiu o controle do exército, sitiou barbaramente a cidade de Sagunto, que ficava bem ao sul do Rio Ebro mas era aliada de Roma. Considerando o ataque um ultraje, Roma pediu que Aníbal Barca fosse preso e entregue para julgamento. O Senado cartaginês recusou-se e começou a Segunda Guerra Púnica.

Logo de início, Aníbal atacou diretamente a península Itálica, mas usando uma rota absolutamente inesperada: ao invés de ir por mar, seguiu com seu exército pelo sul da Gália, tentando invadir o território romano pelo Norte. Fez seu exército atravessar o rio Ródano em balsas e chegou ao sopé dos Alpes, velha rota usada pelos invasores celtas do Norte da Itália. Sem contar com o apoio destas tribos que dominavam as passagens da cordilheira, teve de lutar metro a metro para conquistar as escarpas das montanhas que dominavam os vales por onde guiava seus homens. Finalmente, conseguiram atravessar as montanhas e chegar ao vale do Pó, apenas para verem morrer os elefantes que traziam desde a Ibéria. Mas a competência militar de Aníbal e do seu exército compensava o seu cansaço e logo os africanos alcançaram uma impressionante série de vitórias no vale do Pó. Principalmente na batalha do Lago Trasimeno, onde Aníbal fez o seu exército fingir uma debandada para atrair os romanos para uma armadilha, quando o exército cartaginês saiu de vales e montanhas em volta para cercar os romanos, arrasá-los e destruí-los completamente.

Mas Aníbal não dispunha de máquinas de assédio para tomar Roma ou talvez não acreditasse que suas tropas pudessem realizar um ataque direto à capital inimiga. De qualquer forma, tentou uma campanha política para granjear o apoio das cidades italianas submetidas à Roma, esta não obtendo grande sucesso devido a grande necessidade de Aníbal determinar o saque de algumas cidades italianas para suprir seu exército, o que gerou um descontentamento na região.

Entrementes, irritava ao povo Romano a política desenvolvida pelo ditador Quinto Fábio Máximo de enfraquecer  aos poucos e periodicamente as tropas cartaginesas. Por isso, foram eleitos dois cônsules comprometidos politicamente com a idéia de um ataque puro e simples ao exército cartaginês. Para isto, Roma pôs em campo o maior exército de que até então dispusera, e dirigiu-se à Apúlia, no salto da bota italiana, para confrontar o exército de Aníbal, num local cujo nome designaria a batalha pra toda a etenidade: Cannae.

Mas o general cartaginês estudara os métodos romanos e os conhecia muito bem. Sabendo que o ataque seria direto e contra o centro de suas forças, Aníbal as dispôs com a infantaria mais fraca no meio de um pequeno vale, secundada por alas de lanceiros à direita e à esquerda, posicionadas nos declives das colinas. Além disso, colocou a sua excelente cavalaria Númida nos flancos mais extremos da formação. Quando os romanos atacaram, pareciam uma onda irressistível varrendo o exército cartaginês. Na verdade, estavam caindo numa excepcional armadilha: o centro cartaginês, sob pressão Romana, recuou progressivamente, enquanto os lanceiros fechavam o exército Romano pelos flancos e a cavalaria lhes atacava a retaguarda. O resultado foi um massacre. Dizia-se que os Romanos ficaram tão imprensados uns contra os outros que sequer podiam sacar as espadas. Esta tática, conhecida como duplo envolvimento, e que tem sido estudada até hoje, resultou na morte de cerca de 85 mil soldados Romanos e na completa destruição de suas melhores tropas.

Por alguma razão desconhecida, Aníbal recusou-se a marchar diretamente sobre Roma, descontentando seu comandante de cavalaria, Maharbal, que o censurou dizendo: “Sabes vencer Aníbal, o que não sabes é aproveitar a vitória“. Aníbal insistia na política de dissensão das cidades italianas, conseguindo o apoio de Cápua, a mais importante da Campânia, mas em geral falhando em seu objetivo político.

Neste meio tempo, como decorrência desta monumental derrota, os Romanos voltaram à estratégia de Quinto Fábio Máximo, desgastando o exército cartaginês com vários pequenos combates, enquanto reconstruíam suas tropas no norte da Península.

O irmão de Aníbal, Asdrúbal Barca, tentou enviar tropas de reforço através da rota ao sul da Gália, mas ao chegar a Itália seu exército foi inteiramente derrotado e ele próprio morto. Diz-se que sua cabeça foi atirada de uma trincheira romana para posições cartaginesas e que ao vê-la Aníbal teria dito que acabara a última esperança de uma vitória na guerra. Entretanto, os Romanos já estavam fortes e sob o comando de Cipião Africano reforçaram suas posições na própria Península Ibérica, tomando Nova Cartago.

Depois, ainda sob o comando de Cipião, invadiram o Norte da África, e Aníbal foi chamado a defender sua terra natal. Lá, ao invés de lhe dar combate direto, Cipião conseguiu atraí-lo para o combate em uma zona distante e onde os cartagineses não tinham água nem posições que os sustentassem em caso de derrota. Ali finalmente Cipião obteve sua vitória final, em Zama, onde o exército cartaginês foi totalmente derrotado.

Com as províncias ocupadas, seu próprio território sob ocupação inimiga e seu exército arrasado, o Senado Cartaginês, que anos antes se recusara a enviar reforços a Aníbal na Itália, foi obrigado a pedir a rendição.

Terminava assim a Segunda Guerra Púnica.

A derrota dos cartagineses, entretanto, não garantiu a ocupação pacífica da península. A partir de 194 a.C., registraram-se choques com tribos de nativos, denominados genericamente como Lusitanos, conflitos que se estenderam até 138 a.C., denominados por alguns autores como guerra lusitana. A disputa foi mais acesa pelos territórios mais prósperos, notadamente na região da atual Andaluzia.

Nesse contexto, destaca-se um grupo de Lusitanos liderados por Viriato, eleito por aclamação. Esse grupo inflingiu várias derrotas às tropas romanas na região da periferia andaluz, vindo a historiografia clássica a torná-lo um mito da resistência peninsular.

Ao se iniciar a fase imperial romana, a pacificação de Augusto também se fez sentir na península Ibérica: a partir de 19 a.C. as suas legiões ocuparam a região norte peninsular, mais inóspita, ocupada por povos cântabros e astures. Com esta ocupação, asseguravam-se as fronteiras naturais e pacificava-se essa região mais atrasada, de modo a que não constituísse ameaça para as populações do vale do rio Ebro e da chamada Meseta, já em plena fase de Romanização.


A influência Romana

Na península Ibérica a Romanização ocorreu concomitantemente com a conquista, tendo progredido desde a costa mediterrânica até ao interior e à costa do Oceano Atlântico. Para esse processo de aculturação foram determinantes a expansão do latim e a fundação de inúmeras cidades, tendo como agentes, a princípio, os legionários e os comerciantes.

Os primeiros, ao se miscigenarem com as populações nativas, constituiam famílias, fixando os seus usos e costumes, ao passo que os segundos iam condicionando a vida econômica, em termos de produção e consumo. Embora não se tenha constituído uma sociedade homogênea na península, durante os seis séculos de Romanização registraram-se momentos de desenvolvimento mais ou menos acentuado, atenuando, sem dúvida, as diferenças étnicas do primitivo povoamento.

A língua latina acabou por se impôr como língua oficial, funcionando como fator de ligação e de comunicação entre os vários povos. As povoações, até aí predominantemente nas montanhas, passaram a surgir nos vales ou planícies, habitando casas de tijolo cobertas com telha. Como exemplo de cidades que surgiram com os Romanos, temos Braga (Bracara Augusta), Beja (Pax Iulia), Conímbriga e Chaves (Aquae Flaviae).

A indústria desenvolveu-se, sobretudo a olaria, as minas, a tecelagem, as pedreiras, o que ajudou a desenvolver também o comércio, surgindo feiras e mercados, com a circulação da moeda e apoiado numa extensa rede viária (as famosas “calçadas romanas”, de que ainda há muitos vestígios no presente) que ligava os principais centros de todo o Império.

A influência Romana fez-se sentir também na religião e nas manifestações artísticas. Tratou-se, pois, de uma influência profunda, sobretudo a sul, zona primeiramente conquistada. Os principais agentes foram os mercenários que vieram para a Península, os grandes contingentes militares Romanos aqui acampados, a ação de alguns chefes militares, a imigração de Romanos para a Península, a concessão da cidadania Romana.

Finalizado o processo de conquista, a província foi integrada ao Império, dividida administrativamente em três partes:

  • Tarraconense, a Norte e Nordeste, até aos Pirineus;
  • Bética, a Sul; e
  • Lusitânia, com capital em Emerita Augusta (atual Mérida), estendia-se entre os rios Douro e Guadiana.

Registra-se neste período uma etapa de paz e prosperidade econômica, marcada pela construção de cidades e de uma rede de vias, talvez o elemento mais marcante da administração imperial Romana. A maioria das cidades na península adquiriu progressivamente a sua autonomia, vindo posteriormente a se constituir em sede de municípios.

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Aspectos culturais e econômicos

Assim como em diversas outras regiões do Império, também foram erguidas na península pontes, teatros, termas, templos, aquedutos e todo o tipo de edifícios públicos e privados, civis e militares.

No campo da religião, registra-se a sobrevivência de divindades primitivas ao lado de divindades Romanas, por vezes, também miscigenadas.

Durante a Romanização da península, a economia de subsistência das primitivas tribos foi paulatinamente substituída por grandes unidades de exploração agrícola em regime intensivo (as villae), produzindo azeite, cereais, vinho e pecuária, ao mesmo tempo em que o primitivo artesanato deu lugar a indústrias especializadas como as da cerâmica e da mineração. A atividade agro-pecuária localizava-se, particularmente, ao Sul do rio Tejo. Também houve desenvolvimento na atividade pesqueira, que por sua vez demandava o desenvolvimento da extração de sal e das atividades de construção naval.

No que diz respeito à exploração mineral, na qual a península era particularmente rica, todas as minas passaram a pertencer ao Senado de Roma, sendo exploradas por escravos. Entre elas destacava-se a região que se estende de Grândola a Alcoutim, de onde era extraído o cobre e a prata.

Para esse desenvolvimento, muito contribuiu a circulação da moeda romana.

A monetação provincial romana trata das moedas emitidas pelas colônias de Roma e por seus aliados.

Trata-se principalmente de moedas subsidiadas ou de moedas emitidas pelos Romanos, utilizando tipos que fossem melhor compreendidos pela populações locais.

As moedas provinciais foram emitidas em áreas conquistadas por Roma que, após a conquista, continuaram usando, pelo menos em parte, um sistema monetário diferente daquele do Império Romano. Estas moedas representavam uma continuação do sistema monetário original que existia nas regiões antes da chegada dos Romanos. As moedas provinciais foram prevalentemente usadas no Oriente e nas regiões adjacentes.

Inicialmente eram simplesmente a continuação das moedas originais de uma determinada área que naquele momento estivesse sob dominação Romana. É o caso da Cilicia, por exemplo (mas não só essa), onde foram concedidas pelo Imperador autorizações para a manutenção do padrão monetário (Assarion), com a efígie do Imperador.

Desta forma, nestas províncias circulavam moedas com padrão monetário romano (denários, sestércios, etc), porém usando legenda em uma língua franca, geralmente o grego, e moedas que conservavam o padrão monetário do povo sob dominação Romana.

A maior parte destas moedas eram cunhadas em bronze ou latão (mistura de cobre e zinco), e somente uma mínima parte em prata (jamais em ouro), devido ao fato que as cunhagens em prata eram controladas diretamente por Roma e o monopólio do “denário” (moeda de prata romana) era utilizado para controlar a economia destas áreas do Império.

Devido a longa distância do Império, as cunhagens destas regiões eram confiadas ao governador da província. Desta forma as cunhagens eram realizadas por autoridades cívicas que prestavam contas ao Império romano.

A autoridade que emitia podia ser uma cidade como Corinto ou Antióquia ou mesmo uma região como o Egito ou a Mésia.

Mésia (Moesia, em latim) era uma região geográfica limitada ao sul pelos Bálcãs e pelo monte Šar, ao oeste pelo rio Drina, ao norte pelo Danúbio e a leste pelo mar Euxino (atualmente conhecido como Mar Negro). A área era habitada principalmente por trácios e o seu nome origina-se de uma tribo trácia, os mesos ou mésios (moesi, em latim). Atualmente o território corresponde à Sérvia e à Bulgária.

Em 75 a.C., um exército romano, chefiado por Scribonio Curio, pro-cônsul da Macedônia, atingiu o Danúbio, derrotando os habitantes da região, os quais foram subjugados definitivamente por Marco Licínio Crasso, bisneto do triúnviro do mesmo nome e mais tarde também pro-cônsul da Macedônia (c. 29 a.C.). A área foi organizada como província Romana apenas no final do reinado de Augusto.

Inicialmente uma única província, sob um legado consular imperial (que provavelmente também controlava a Aquéia e a Macedônia), a Mésia foi posteriormente dividida por Domiciano em Mésia Superior (Moesia Superior, porção ocidental) e Mésia Inferior (Moesia Inferior), com o rio Cebrus como fronteira. Cada uma delas era governada por um legado consular imperial e um procurador. Sendo uma província de fronteira, a Mésia era protegida por postos e fortalezas erigidas ao longo da margem meridional do Danúbio; uma muralha foi construída de Axiópolis até Tomi (hoje a cidade de Constanţa, na Romênia).como proteção contra os citas e os sármatas.

Após a evacuação da Dácia ordenada por Aureliano, seus cidadãos foram realocados na parte central da Mésia, que passou a se chamar Dácia Aureliana (Dacia Aureliani, em latim), por sua vez dividida em Dácia Ripense (Dacia Ripensis) e Dácia Interior (Dacia Interior).

Após constantes incursões por godos e e outros bárbaros, os primeiros obtiveram a permissão do Imperador Valente para atravessar o Danúbio e instalar-se na província. Em seguida, Fritigerno, o chefe dos godos, derrotou Valente na Batalha de Adrianópolis (378 d.C.). No século VII, os búlgaros e os sérvios colonizaram a região e fundaram a Bulgária e a Sérvia.

As principais cidades da Mésia Superior eram Singidunum (hoje Belgrado), Viminacium (Kostolac), Bononia (Widdin, Vidin) e Ratiaria (Arčar). As da Mésia Inferior eram Oescus (ou colonia Ulpia, hoje Gigen), Novae (próximo a Sistova), Nicopolis ad Istrum (hoje Nikup), Odessus (Varna) e Tomi (Constanţa).

Figura: Mésia inferior

Figura: Mésia superior

Durante o principado de Trajano, Antióquia foi a principal Casa da Moeda para a emissão de dracmas e tetradracmas que foram cunhados inclusive em bilhão.

Figura: Antióquia numa estampa de 1865.

Figura: Solidus (ampliado) de Constantino cunhado na Casa da Moeda de Antióquia

Bilhão: Liga metálica de baixo teor de prata, empregada na Idade Antiga e na Idade Média para cunhar moedas. A palavra tem origem no latim medieval billia, “tronco de madeira”, através do francês bille, “lingote”, “peça de moeda”.

Nas moedas constam o nome de uma cidade ou de uma região ou são encontradas somente numa determinada área, facilitando o reconhecimento da Casa da Moeda onde foram cunhadas. Assim como levam a efígie do imperador e também possível identificar sob o domínio de quais príncipes foram emitidas, o que facilita muito uma datação precisa.

As moedas de bronze possuíam denominação um tanto incerta, mas algumas poderiam ser óbulos ou chalkus gregos, enquanto outras eram asses ou sestércios com legendas escritas em grego ou em latim segundo a área em que circulavam.

Chalkus: Do greco χαλκός (cobre), è uma antiga moeda de cobre da Ática. O valor do chalkus era equivalente a oitava parte do óbulo.

1 Talento = 60 Mine; 1 Mina = 100 Dracme; 1 Statere = 2 Dracme; 1 Dracma = 6 Óbulos

Talento: Antiga unidade de medida de massa. Os babilônicos e os Sumérios possuíam um sistema onde 60 shekel formavam uma mina e 60 minas formavam um talento.
O talento romano era formado por 100 libras que tinham massa inferior à mina.
Quando era usado como medida monetária, se entendia como “um talento de ouro”.
Durante a Guerra do Peloponeso na Grécia antiga o talento era a quantidade de prata necessária para pagar a tripulação de uma trireme (nave de guerra que usava a vela e remadores como sistema de propulsão) por um inteiro mês. Um talento ático corrispondia a 26,2 kg de prata.

Mina: Do grego μνα -mna-,latim mina, è una antiga moeda grega. Era inicialmente uma unidade de medida oriental.
Existiam a mina babilônica e a mina hebraica. Uma mina hebraica era constituída por 50 shekels. O talento era formado por 60 minas. O peso se situava entre 500 e 800 gramas. Com Ezequiel a mina passa a valer 60 shekels, igual aquela babilônica.

Shekel: Era uma antiga unidade de peso em uso no Oriente Médio e na Mesopotâmia. Na verdade era uma antiga unidade de peso hebraica. A palavra derivava do termo pesar. O valor variou muito no tempo e de acordo com os locais onde era adotado como medida.
Com o mesmo nome se indicavam moedas seja em prata que em ouro de peso 1 shekel. Na Mesopotâmia era avaliado em 1/16 de darico (7,5 óbulos áticos), isto è ½ grama de ouro.
O uso de unidades de peso como unidade monetária era comum no mundo antigo até a Idade Média, com traços inclusive nos nossos dias. Em inglês, a palavra pound indica tanto a libra peso quanto a esterlina, enquanto no italiano a palavra Lira e Libra derivam do latim libra no sentido de balança.
O peso do shekel hebraico podia variar entre 10 e 13 gramas. Um shekel valia 20 ghere e 20 shekels formavam uma mina. Um talento era o equivalente a 3000 shekels (entre 30 e 40 kg – Esodo 38,25-26).
Acredita-se que as “30 moedas de prata” de Judas fossem shekels de Tiro. Um shekel de prata era, naquela época, o salário diário de um trabalhador.
A atual unidade monetária de Israel é o sheckel.

Dracma: Era o nome de uma moeda da antiga Grécia. Foi retomada depois de 1832 para indicar o Dracma Grego que valeu no país até a entrada do Euro.
O nome dracma deriva do verbo δράττω (aferrar). Inicialmente um dracma era um punhado de 6 óbulos, espeto de metal utilizado como moeda até 1100 a.C..

Figura: Ática, Atenas. Cerca 449-404 d.C. AR Tetradracma (26mm, 17.17 g, 9h). Cabeça de Atena com elmo / Coruja em pé com cabeça voltada à direita; ramo de oliva e lua crescente atrás; tudo ao interno de um quadrado incuso. Kroll 8; SNG Copenhagen 31. EF.

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Na Antiga Grécia, o termo dracma indicava também uma unidade de peso. Era usada por todo o mundo grego e emitida pela maior parte das cidades. As primeiras emissões mostram imagens de animais, na maior parte das vezes, animais falantes e provém do VI século a.C..

Devido a técnica de cunhagem usada (martelo), os dracmas são, em sua maior parte, “achatados” no reverso e particularmente artísticas no anverso. Com o passar do tempo, a cunhagem atingiu um valor artístico elevado e extremamente refinado. Como consequência, a partir da Renascença, as moedas passaram, cada vez mais, a ter cunhagens de valor estético mais apurado.

Figura: Raro e belo exemplo de beleza e hamonia estética na cunhagem de moedas – Adriano, 117 – 138. Sestercio in oricalco atribuído ao “Mestre de Alfea”, Roma, 135 – 136 d.C., 25,53 gr. HADRIANUS – AVG COS III P P; busto de Adriano a direita / P-AX AUG / S-C/ A Paz de pé a esquerda mantendo na mão direita um ramo e naquela esquerda uma cornucópia. (…)A mais bela moeda Romana jamais cunhada. Um retrato de uma força e de uma expressão jamais igualada. Uma moeda perfeita, obra prima de equilibrio e de estética. Exemplar soberbo, com pátina esverdeada. Segundo P. V. Hill, The Undated Coins of Rome A.D. 98-117, 1970, 167, 568, teria sido cunhado em ocasião da “Vicennalia di Adriano”, e é obra de um incisor de alto gabarito. C. Seltman, Greek Sculpture and Some Festival Coins, Hesperia 17 (1948), p. 71 ss., reconheceu a mão deste artista em vários medalhões cunhados em honra de Antinoo, e o identificou como “Mestre de Alfea”. (…)Seltman não exitou em reconhecer neste o célebre escultor Antoniniano de Afrodisia. Os mais belos bronzes cunhados em 134 d.C. em Mantinea em honra de Antinoo, com efeito, parecem ser obra sua.(…)Três exemplares conhecidos.”

Depois da conquista de Alexandre o Grande, o nome “dracma” passou a ser usado em muitos dos reinos helenísticos no Oriente Médio, entre os quais o Reino Ptolomaico do Egito. O dracma foi também a primeira moeda de prata batida pela Antiga Roma no III século a.C.

A unidade monetária árabe conhecida como dirham e que remonta ao período pré-islâmico, deriva – através da Pérsia Sassanida – do antigo dracma e, como a moeda persa, também era de prata.

É difícil atribuir um valor a essa moeda que se possa comparar com os valores conhecidos atualmente, devido as profundas diferenças entre as diversas economias. Os históricos clássicos afirmam regularmente que próximo ao fim da República Romana e ao início do Império Romano, o salário de um operário era de 1 dracma.

O sistema monetário grego antigo era baseado no precedente sistema asiático que possuía como unidade de medida principal o talento, cujo peso era de 30,25 kg de prata, que era dividido em 60 minas.
Tais “valutas” jamais foram “batidas”, mas serviam de sistema de referência para a economia do estado.
Bem cedo, graças a expansão econômica de Atenas, o mundo Helênico adotou como sistema de referência para trocas aquele Ático, em prata.

1 Talento = 60 Mine = 26,2 kg de prata

1 Mina = 100 Dracme = 436 g de prata

1 Dracma = 6 Óbulos = 4,36 g de prata

1 Óbulo = 8 Chalkus = 0,73 g de prata

Além destas moedas, foi de grande importância o Estater (2 dracmas) com um peso de 8,7 gramas.

Estater: È o nome de diversos tipos de moedas da antiguidade. A moeda foi batida por várias cidades gregas nos diversos standards monetários, em prata, ouro e eletro.
O estater de prata era a moeda mais difusa na antiguidade grega. Era o mais alto valor nominal normalmente batido e valia, em geral, o dobro de um dracma.
Alguns dos estateres mais famosos são:

  • O estater de Atenas, que mostrava no anverso a cabeça da deusa Atena e no reverso a coruja – animal sagrado associado à deusa – pousado sobre um ramo de oliva.
  • O estater de Corinto que trazia Atena no anverso com elmo corinto e Pégaso no reverso.
  • O estater de Egina, com uma tartaruga.

Figura: Um estater de Corinto, 347 – 305 a.C.

Óbulo: Do grego ὀβολός era, na Antiga Grécia, uma pequena moeda divisional com valor igual a 8 chalkus.  Seis óbulos valiam 1 dracma e 6000 dracmas o equivalente a um talento Ático.
Inicialmente o óbulo era batido em prata e mais tarde em cobre. Existe uma moeda de “metaponto”, sobre a qual se lê ΟΒΟΛΟΣ.
Segundo Pultarco, os espartanos cunhavam um óbulo de ferro de valor igual a 4 chalkus.

O óbulo era uma antiga unidade de peso. Na Antiga Grécia era definido como um sexto do dracma, ou seja 0,5 gr. Na Antiga Roma valia 1/48 da onça romana, ou seja 0,57 gramas. Na Grécia moderna equivale ao decigramo.
O termo é conservado ainda hoje devido ao importante rolo que teve na Mitologia Grega. Essa pequena moeda era colocada embaixo da língua dos gregos mortos na antiguidade, antes que fossem sepultados. Servia para pagar o barqueiro Caronte, uma espécie de pedágio destinado a conduzir o morto através do rio Aqueronte e além dos rios Cocito e Stige, no reino dos mortos, o Ade. Todo grego tinha por obrigação dar esta moeda aos seus mortos para impedir que a sua alma vagasse sem paz no reino do além-túmulo.

Figura: Óbulo de Metaponto com a efígie da deusa Demetra no anverso e uma espiga de grãos no reverso.

Todavia ainda não temos certeza completa do nome das moedas. Na maiorira circulavam somente a nivel local, dato que o valor dfelas era muito baixo.

Casas de cunhagem de moedas provinciais romanas na Península Ibérica
Abdera
Acci
Bilbilis
Caesaraugusta
Callagurris
Carteia
Carthago Nova
Cascantum
Castulo
Celsa
Clunia
Corduba
Ebora
Emerita
Ercavica
Gades
Graccurris
Hispalis
Ilercavonia & Dertosa
Ilerda
Illici
Insula Minor
Irippo
Italica
Julia Traducta
Laelia
Oba
Osca
Osicerda
Osset
Pax Julia
Saguntum
Segobriga
Segivia
Tarraco
Turiaso
Urso

Obs: Estas moedas eram cunhadas para circularem exclusivamente nas províncias romanas, sendo vetada sua circulação em Roma.

Os Romanos deixaram um importante legado cultural naquilo que é hoje Portugal, nos costumes, na arte, na arquitetura, na rede viária e nas pontes, algumas das quais servem até aos nossos dias, como a de Trajano sobre o rio Tâmega em Chaves (Aquae Flaviae) ou a de Vila Formosa (Alter do Chão), mas pouco terão contribuido para a composição étnica portuguesa actual. Uma variante do Latim (Latim Vulgar) passou a ser o idioma dominante da região. Surgiram novas cidades e desenvolveram-se outras, segundo o modelo habitual de colonização Romana. No fim do século I a.C. o imperador Augusto criou a província da Lusitânia, que correspondia a grande parte do atual território português, embora não à sua totalidade, já que as terras a norte do rio Douro integravam a Tarraconense. Em 74 d.C. o imperador Vespasiano concedeu o “direito latino” (equiparação aos municípios da Itália) a grande parte dos municípios da Lusitânia, datando dessa época um importante surto urbano.

Difundiu-se também a cidadania romana, que viria a ser atribuída a todos os súditos (livres) do Império pela chamada Constituição Antoniniana, ou Édito de Caracala (212 d.C.). Em finais do século III d.C. o imperador Diocleciano subdividiu a Tarraconense em outras províncias, entre as quais se achava a Callaecia, que integrava o norte do actual Portugal, a Galiza e as Astúrias. Durante o Império Romano o Cristianismo difundiu-se em toda a Hispânia, pelo menos a partir do século III.

Figura: Ponte romana em Marvão, Portugal.

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*** Abi imis Fundamentis ***

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A incrível história de uma moeda que não deveria existir – 1ª Parte.

Imagine que seu avô tenha sido um colecionador de moedas de ouro ou que tenha andado lá pelos EUA na década de 30 e que em meio aos seus pertences você encontrasse uma única moeda de ouro, pesando pouco mais de 30 gramas (como a da foto a seguir). Se for assin, então dê uma boa olhada na data ! Se for 1924 ou 1927, você pode até faturar uma graninha, vendendo-a por US$ 900 dólares. Mas muita atenção, pois se a moeda for igual à da foto abaixo (20 dólares) e a data for 1933, você acabou de conquistar sua independência financeira. Por que? Saiba a seguir!

Agora você irá conhecer o primeiro de dois capítulos de uma história fantástica no mundo do colecionismo. Uma história de emoções, paixões, furtos, desilusão, decepções, ansiedade, corrupção, reis e altos funcionários do governo americano, numa trama digna de um filme.
Tomará conhecimento dos passos percorridos por uma fantástica moeda que, pela lei americana, jamais poderia existir mas que apesar disso, passou pelas mãos de funcionários da Casa da Moeda da Filadélfia, de um Rei, de pessoas comuns, de altos funcionários do governo americano, de agentes secretos, colecionadores e comerciantes de jóias e de moedas, até chegar à Stack’s e Sotheby’s e ser leiloada pela fantástica soma de 6,6 milhões de dólares, tendo seu comprador desembolsado quase 7,6 milhões devido às comissões das prestigiosas casas de leilão.
Irá tomar conhecimento das investigações e de como algumas destas moedas foram parar, inexplicavelmente, num cofre privado, onde seus herdeiros sequer sabiam o tesouro que continha.

Mas deixemos de lado as considerações e passemos diretamente a esta fantástica narrativa ! A incrível e verdadeira história de uma moeda que jamais deveria ter existido. Boa leitura a todos !

A fascinante história de uma raríssima moeda. O US Saint Gaudens Double Eagle de 1933.

O US Saint Gaudens Double Eagle de 1933 vendido no leilão de Stack’s e Sotheby’s em 30/07/2002.

O martelo do leiloeiro da venda sob ofertas organizada pela Stack’s e Sotheby’s em Nova York no dia 30 de julho de 2002 para vender uma única moeda – aparentemente a mais rara, e com certeza a mais disputada – parou no valor recorde de 6,6 milhões de dólares, uma soma nunca alcançada precedentemente, e que sobe a 7,59 milhões, se levarmos em conta também a comissão do leiloeiro. Mas o que levou um colecionador anônimo a desembolsar esta incrível soma, pagando “tanto” por uma única moeda de ouro de 20 dólares cunhada apenas 70 anos atrás. E, ainda, por qual razão uma moeda cunhada em quase meio milhão de exemplares se tornou tão rara e disputada?

Esta última pergunta já havia sido feita em 1944 por Ernest Kehr, jornalista responsável pela sessão de filatelia e numismática do New York Herald Tribune que, notando em uma lista de leilão o anúncio da venda de um extraordinário “double eagle de 1933”, pelo qual seu antigo proprietário havia pago um pouco mais de 2000 dólares (valor considerado altíssimo para a época em que foi adquirida), pensou que seria uma boa idéia dirigir-se à Casa da Moeda americana para saber quantos exemplares teriam sidos postos em circulação, e o que poderia justificar uma cotação do gênero.

Foi justamente a curiosidade de Kehr a dar início a uma das mais complexas aventuras numismáticas dos últimos tempos, rica de surpresas, decepções, euforia e desilusões. Uma história que depois de se perder nos anais do colecionismo por mais de 70 anos, ainda hoje não se concluiu definitivamente, e que teve como protagonistas colecionadores ricos e facultosos, comerciantes inescrupulosos, funcionários desonestos da casa da moeda de Filadélfia , agentes do serviço secreto americano, o rei Farouk do Egito , casas de leilão, e, por último, os herdeiros de um dos personagens originalmente envolvidos no “furto” e na venda de alguns exemplares desta moeda, mantidos entre seus bens herdados e trancados num cofre que continha 10 destas raríssimas e “proibidas” moedas. Mas procedamos com ordem.


O FIM DE UMA ÉPOCA

OS 445.500 exemplares do “Double Eagle de 1933” – última cunhagem em ouro das casas da moeda da Filadelfia, de San Francisco e de Denver que desde 1907, colocou em circulação mais de 70 milhões de moedas com desenhos do admirável escultor “Augustus Saint-Gaudens” (na foto ao lado, em seu atelier)– foram cunhadas em Filadélfia em 3 sessões, entre 15 de março e 19 de maio. O contingente tinha sido estabelecido pelo Tesouro Americano em base ao quantitativo de moedas de 20 dólares postas em circulação no ano anterior pelo Federal Reserve Bank, e a abertura dos cunhos se deu em Filadélfia, a partir de 18 de fevereiro.

Em teoria, a cunhagem dos 20 dólares com data 1933 sequer deveria ter sido processada. Logo após a sua eleição em 4 de março de 1933, de fato, o presidente “Franklin Delano Roosevelt” proibiu o uso do ouro (sob forma de moeda ou certificado) em pagamentos, na tentativa de por fim a grave hemorragia de metal amarelo que arriscava comprometer a credibilidade do sistema bancário americano (na semana ente o fim de fevereiro e início de março de 1933, companhias e privados tinham retirado dos bancos, para estocá-los ou transferi-los ao exterior, mais de 200 milhões de dólares em ouro, perfazendo um total – na cotação atual do ouro – cifra que supera os 6 bilhões de dólares).

Roosevelt anunciou a sua decisão (em vigor a partir do dia sucessivo) domingo, 5 de março, decretando ao mesmo tempo o fechamento de todos os bancos por quatro dias, enquanto o Secretário do Tesouro William H. Woodin (retratado na foto a seguir) telegrafava as casas da moeda de Denver, Filadelfia e San Francisco, ordenando que fossem suspensos quaisquer pagamentos em ouro. O Congresso, convocado urgentemente no dia 9 de março, aprovava no mesmo dia a decisão do presidente. A diretiva de Roosevelt proibia também o acumulo de ouro amoedado por parte dos privados e, mesmo que não especificasse qual fosse o limite quantitativo que fizesse com que um acúmulo chegasse a ser considerado um reato, sancionava a posse não autorizada de ouro em moedas ou certificados, com uma multa de até 10.000 dólares e uma pena de detenção de até 10 anos.

A provisão não impunha explicitamente aos cidadãos americanos de restituir o ouro amoedado, que estivesse em sua posse, ao Federal Reserve Bank, mas que este fosse o seu preciso objetivo, nao restava qualquer dúvida, tanto que o público, respondendo ao apelo do presidente, do Congresso e das autoridades monetárias, e uma única semana fez afluir aos bancos mais de 300 mihões de dólares em ouro. A adesão inicial bem cedo perdeu parte do seu vigor e no dia 5 de abril, um mês depois da divulgação da provisão, o ouro “restituído” ao Tesouro chgava a um total de apenas 633 milhões de dólares. Segundo a estimativa do governo, ao apelo presidencial faltavam, pelo menos, mais um outro bilhão de dólares.

Para acelerar o retorno do metal, que ainda estava circulando, aos cofres do Federal Reserve, no dia 5 de abril Roosevelt (foto ao lado) emanou uma nova diretiva que depois de ter precisado o teto cumulativo (100 dólares), impôs explicitamente aos privados a obrigação de restituir ao Tesouro Americano o ouro de que mantinham posse; uma exceção era consentida somente para as moedas de ouro “raras e inusuais” procuradas pelos colecionadores. As pressões pelo retorno do ouro nos cofres do Federal Reserve continuaram até que o Gold Reserve Act, aprovado pelo Congresso e assinado por Roosevelt no dia 30 de janeiro de 1934 estabelecesse definitivamente que todo o ouro amoedado (revalutado de 20,67 a 35 dólares a onça) pertencia ao governo dos E.U.A., que o transformaria em lingotes de peso e título estabelecidos pelo Secretário do Tesouro (refundindo portanto as moedas) destinando o produto final a ser estocado no novo depósito em construcão em Fort Knox.

Já depois do primeiro decreto de 5 de março de 1933, a Casa da Moeda de Filadélfia poderia ter suspendido a cunhagem das moedas de ouro, não mais admitidas como instrumento de pagamento. Como a burocracia, porém, tem seus próprios tempos e inércias, um primeiro quantitativo de double eagles de 1933 foi cunhado entre 15 e 24 de março, seguidos por mais 200.000 entre 7 e 27 de abril e pelos últimos 145.500 entre 8 e 19 de maio. A inteira cunhagem, embalada em sacos de 250 moedas, cada um pesando cerca 8,4 quilos, foi trancada no cofre F da Casa da Moeda, de onde nunca mais sairia se não 3 anos depois para a refusão. A única exceção foram dois sacos contendo 500 peças ao todo de onde deveriam ser retirados os exemplares destinados ao laboratório da Casa da Moeda e à Comissão de análise para que fossem verificados o peso e o título do metal, tendo sido confiados aos cuidados do tesoureiro e fechados na sua caixa-forte.

Monumento de Augustus Saint Gaudens ao general William T. Sherman.


ESPERANDO PELA FUSÃO

É sobre as 500 peças que ficaram sob o controle direto do tesoureiro-caixa – cargo que, depois da aposentadoria de Harry Powell no fim de 1933 e a saída de cena de seu sucessor designado Hibberd Ott, por motivos de saúde, foi assumido no dia 20 de março de 1934 por George McCann, figura chave nos acontecimentos sucessivos – que devemos voltar a atenção para entender como, quando e quantos “double eagles de 1933” tenham saído ilegalmente da Casa da Moeda de Filadélfia e alcançado o mercado, sempre à espera de oportunidades, por novidades e, com estas, as chances de lucro.

Como resulta da documentação do arquivo da casa da moeda de Filadélfia, 20 das 500 moedas foram enviadas a Washington, mais especificamente ao laboratório da casa da moeda dos EUA para o controle do título, exigência para a qual fossem todas refusas. Das que sobraram, 446 foram mantidas à disposição da Comissão de Análises, convocada na metade de fevereiro de 1934, enquanto outras 34 foram pegas por Edward McKernan, responsável pela câmara de segurança, em 2 de fevereiro. Nao ficou claro se estas moedas foram depositadas novamente nos cofres junto com o grosso do contingente ou se (hipótese mais provável, levando em consideração o reduzido quantitativo e as verificações ainda em curso), se tenham unido as outras em contemporânea custódia do caixa.

A Comissão de Análise, reunida no dia 14 de fevereiro de 1934, destruiu 9 moedas para determinar o peso e o título, resultados ambos regulares segundo quanto o certificado do dia 15 de fevereiro, e no dia 20 as outras 437 foram restituídas a Hibberd Ott, caixa em função e que as repôs na própria caixa-forte junto aos 34 exemplares recebidos em precedência por McKernan (para um total de 471 peças).

A reserva federal de ouro de Fort Knox.

O processo posto em movimento pelo Gold Reserve Act, enquanto isso continuava avançando inexoravelmente. No dia 4 de agosto de 1934 Nellie Tailoe Ross , diretora da Casa da Moeda dos EUA , telegrafou aos diretores dos estabelecimentos de Denver, Filadélfia e São Francisco para dar início à fusão de todo o estoque nacional de moedas de ouro, com a finalidade de tranformar o produto da fusão em lingotes de ouro 900‰ (mesmo teor das moedas, para “não perder temp e nem dinheiro”); uma missão que, devido aos consistência dos recursos e a capacidade das instalações, levaria mais de 2 anos, com uma previsão de conclusão que somente se daria em julho de 1937, com a chegada ao Fort Knox das cargas de lingotes escoltados pelas guardas armadas da Casa da Moeda.

Baseado na documentação oficial, entre 6 de fevereiro e 18 de março de 1937, na Casa da Moeda de Filadélfia foram fundidas e transformadas em lingotes, precedidas por milhares de outras moedas de ouro de 2,5; 5; 10 e 20 dólares, 445.000 “double eagles” de 1933, que nunca saíram do cofre F, mais as 471 em posse do caixa. Das 471 moedas qu erestaram das análises e testes, se devem subtrair os dois exemplares que em 2 de outubro de 1934 George McCann enviou, sob a disposição da diretora Nellie Tayloe Ross, ao Smithsonian Museum, para serem inseridas na coleção numismática do referido museu. A conta, formalmente, estaria correta: das 445.500 moedas cunhadas, 29 foram hipoteticamente destruídas em testes, duas foram doadas ao Smithsonian (fato comprovado), e as outras 445.469 foram fundidas (?). Mais nenhum exemplar do double eagle de 1933 – nunca posto em circulação pela Casa da Moeda Americana – deveria ou poderia ter “sobrevivido”. Mesmo assim…..


COMEÇA A CAÇA AO TESOURO

Os primeiros indícios que mostravam que as coisas não tinham ocorrido em conformidade com os documentos oficiais afloraram a partir de abril de 1937, quando um periódico numismático declarou, indicando rumores dos ambientes do colecionismo, que alguns exemplares teriam escapado à fusão, e os que terminaram nas mãos de colecionadores e comerciantes vinham sendo tratados a preço “de afeição”. A notícia não suscitou particular estupor, nem reações por parte das autoridades monetárias. O mundo do colecionismo e do comércio numismático nao era tido sob particular consideração e nem mesmo quem havia desenrolado um papel importante durante a subtração das moedas destinadas à fusao, fazendo-as sair ilegalmente da casa da moeda teria qualquer interesse em “colocar lenha na fogueira”.

Um outro periódico reportou que, sempre em abril de 1937, o conhecido colecionador Fred Boyd teria mostrado algumas semanas antes, na reunião do New York Numismatic Club, um exemplar de double eagle de 1933 em sua posse. O próprio Boyd voltou a expor a moeda em 1938 em Columbus e no ano seguinte em Nova York. Nas revistas numismáticas começaram a aparecer os primeiros anúncios alusivos a quem gostaria de adquirir o último dos double eagles cunhados, e no número de fevereiro de 1941 de “Numismatist” apareceu a primeira proposta de venda; Smith & Son, comerciantes de Chicago, ofereciam (com várias fotos ilustrativas) um double eagle de 1933, “a mais rara da série – exceto pelo exemplar de 1849 – e um dos únicos 3 exemplares conhecidos até hoje. O preço só seria fornecido a pedido dos adquirintes interessados”.

Na época o anúncio não suscitou particular interesse (talvez por causa do preço pedido), tanto que a oferta foi repetida em março e em junho, quando finalmente apareceu um comprador. Nenhuma reação porém, mais uma vez, partiu das autoridades monetárias. Para que isso se verificasse, foram necessários que se passassem outros três anos. De fato, em 18 de março de 1944, Enest Kehr, folheando o catálogo da Casa de Leiloes Stack’s – a ser realizado no dia 25 do mesmo mês – foi pego pela curiosidade de saber o que fazia do lote 1681 (double eagle 1933) uma raridade, e teve a idéia de se dirigir ao escritório do diretor da Casa da Moeda para um esclarecimento. Em 20 de março a questão chegou aos ouvidos da diretora Ross, que pediu a Filadélfia uma resposta. Esta chegou no dia 22 sob forma de um relatório detalhado de 10 páginas, nas quais resultavam os números de moedas cunhadas, destruídas nos testes e refusas, além obviamente das duas entregues ao museu Smithsonian. Nenhuma moeda tinha sido entregue ao Tesouro (e deste aos bancos) para ser distribuída, portanto nenhuma podia, oficialmente se encontrar em circulação. Se isto estava acontecendo, se supunha que o lote oferecido por Stack’s era de uma moeda “falsa” ou “roubada”.

Nellie Tayloe Ross, a primeira mulher americana a ser eleita ao cargo de governador (Wyoming em 1922) e primeira mulher a ser nomeada, pelo presidente Franklin Delano Roosevelt, diretora da Casa da Moeda, cargo que ocupou de 1933 a 1953.

Neste ponto, a Casa da Moeda colocou a questão aos cuidados do serviço secreto, competente nesta matéria por ser o responsável pela repressão à violação ao Gold Reserve Act. Do caso se ocupou pessoalmente o diretor do serviço, Frank J. Wilson, que confiou as investigações aos agentes especiais Harry w. Strang e James Haley. Como estavam efetivamente em presença de um reato, era necessária uma medida veloz, pois ao leilão Stack’s faltavam somente dois dias. No dia 24 os dois agentes foram a Nova York para encontrar o jornalista cuja iniciativa tinha dado início ao caso. Mas Kehr não conseguiu fornecer nenhum outro elemento que pudesse auxiliar nas investigações. Tudo o que sabia, já havia sido relatado. Os agentes então se dirigiram à sede da Stack’s para interrogar os titulares.

Considerados totalmente estranhos a qualquer comportamento ilícito, os irmãos Joseph e Morton Stack não tiveram dificuldades em exibir a moeda em sua posse; além disso confirmaram que no catalogo do referido leilão havia um erro; diferentemente de quanto indicado, o precedente proprietário (o coronel Flanagan) não havia pago 2200 dolares pela moeda, mas sim 1250, como vieram a saber uma semana antes. Os irmãos Stack disseram também aos agentes que um outro exemplar da mesma moeda estava notoriamente em posse de Max Berenstein, um joalheiro cuja loja se encontrava a alguns quarteirões dali.

As atuais instalações da Casa da Moeda de Filadélfia.

A este ponto o agente Strang explicou que, de acordo com as documentações do Tesouro, a moeda nunca teria sido posta em circulação, e portanto se tratava presumivelmente de um exemplar falso ou “roubado”, que o serviço secreto teria que sequestrar diante da expectativa de desenvolvimentos posteriores. Durante a tarde, após entregarem aos irmãos Stack, como seu álibi regular, uma fatura pelo double eagle de 1933, os dois agentes saíram da casa de leiloes dos irmãos para se dirigirem à joalheria de Berenstein. A caça ao tesouro ilegalmente “roubado” tinha começado.


UMA INCRÍVEL COINCIDÊNCIA

Aqui é oportuno dar alguns passos atrás. Exatamente um mês antes, dia 25 de fevereiro de 1944 (o que ainda não era do conhecimento dos investigadores), um funcionário da embaixada egípcia em Washington tinha ido ao escritório da Casa da Moeda, no Ministério do Tesouro, para pedir a permissão de exportação de uma moeda que o seu soberano, o rei Farouk (foto ao lado), havia comprado dois dias antes, de um comerciante de Fort Worth, Texas, pagando 1575 dólares; tratava-se de um double eagle de 1933. Baseado no Gold Reserve Act, a exportação de moedas de ouro dos EUA era permitida somente se se tratava de exemplares de interesse especial para os colecionadores, “status” delegado pelo referido escritório da Casa da Moeda.

Depois de um funcionário compilar o pedido e receber o double eagle de 1933, o escritório da Casa da Moeda entrou em contato com Theodore Belote, curador da coleção numismática do Smithsonian que, recordando, possuía os dois únicos exemplares “legais” do s20 dólares de 1933, entregues a este pela Casa da Moeda de Filadélfia. Isto a fim de obter um parecer necessário aos procedimentos formais, o que foi ultimado, sem dificuldades, como favorável à exportação.
Completadas as formalidades burocráticas, em 29 de fevereiro a licença de exportação estava pronta e em 11 de março de 1944, o funcionário da embaixada do Egito retornou ao escritório da Casa da Moeda, a fim de retirar a moeda, acompanhada da referida licença.

Devido a uma fortuita e incrível coincidência temporal, a moeda adquirida pelo rei Farouk obtinha, desta forma, a permissão necessária para deixar legalmente o território dos EUA sendo que duas semanas mais tarde, tal procedimento teria sido certamente impossível.

Em 24 de março de 1944, depois de terem deixado a sede da Stack’s, o sagentes do serviço secreto providenciaram o sequestro da moeda que estava na posse de Berenstein e depois de uma primeira perícia realizada na Assay Office de Nova York, as duas moedas foram confirmadas como autênticas e, coisa ainda mais importante, obtiveram do joalheiro os elementos necessários para iniciarem a reconstruir um quadro detalhado de toda situação; quantos eram os exemplares conhecidos no mercado, quem os possuía pelas mãos de quem haviam passado.
Nas três semanas sucessivas, assistidos por alguns colegas, Strang e Haley interrogaram colecionadores, numismatas, comerciantes e funcionários da Casa da Moeda em diferentes localidades dos EUA, e em 14 de abril já estavam prontos para apresentar ao seu superior um primeiro balanço das investigações; um elenco dos 10 primeiros exemplares dos 20 dólares de 1933 já haviam aparecido no mercado até aquele momento (três dos quais haviam sido sequestrados pelos agentes no decurso das investigações e um exemplar levado ao Egito com regular licença de exportação) e mais uma concreta série de indícios que conduziam a Israel “Izzy” Switt, um grande joalheiro da Filadélfia, como sendo a fonte comum de todas as moedas.

Fim da 1ª Parte.

NOTA: No post a seguir, você encontra a 2ª e última parte desta fascinante história que reserva momentos de emoção e surpresa em seu desfecho dramático e conclusivo, onde as pessoas envolvidas tramam, conspiram e elaboram estratégias para escaparem ao controle do governo federal dos EUA. Você vai conhecer a surpreendente história de um comerciante que pagou uma fantástica soma por esta moeda e viajou para fora do país, esperando que algum colecionador o contatasse, para tentar vendê-la pelo triplo do que havia pago. Os agentes secretos do tesouro americano irão armar uma estratégia digna de um filme de espionagem para botar suas mãos nesta moeda. Será que irão conseguir ?

Não deixe de ler a segunda e última parte desta surpreendente e verídica história. Nela você ira conhecer o desenrolar final de “A incrível história de uma moeda que não deveria existir”. Tome fôlego, corra no baú do seu avô e quem sabe vc tira a sorte grande. Mas cuidado ! Não a mostre a qualquer um ! Caso voce seja daqueles que nasceu “virado prá lua”, escreva-me e por uam comisão de 15% te levo direto ao comprador na Europa que irá te pagar em dinheiro vivo. Mas não fale sobre o assunto a ninguém, pois o FBI ainda está à caça dos últioms exemplares que restam dessa raríssima moeda americana. Bom final de leitura na parte 2, a seguir !

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A incrível história de uma moeda que não deveria existir – 2ª Parte.

…continuando…

A colocar os agentes na pista justa foi James Macallister, um numismata de Filadélfia que afirmou ter adquirido o primeiro exemplar de “double eagle de 1933” (moeda que nunca tinha aparecido em precedência no mercado). Comprou-o de Switt, no dia 15 de fevereiro de 1937 por 500 dólares, revendendo-o logo em seguida a Max Berenstein por 1600 dólares. Assim, quatro dias depois, em 19 de fevereiro, Macallister voltou à loja de Switt e comprou um segundo exemplar por 500 dolares, também este em seguida revendido (por 1100 dólares). Uma terceira moeda, sempre por 500 dólares, foi adquirida no início de julho de 1937, seguido por outros dois (um em julho e outro em dezembro) pelo qual a quantia a ser paga tinha subido a 550 dólares. Depois ele parou – disse Macallister aos agentes – não porque a fonte se tivesse exaurido, mas porque se convenceu que existiam muitos exemplares no mercado para se dizer que era uma moeda de extrema raridade.

Switt foi interrogado pelo serviço secreto em 30 de março, mas mesmo assumindo a venda de 9 double eagles de 1933 no passado, declarou não se lembrar onde as adquiriu e de não ter conservado nenhuma documentação que pudesse ajudá-lo a identificar quando, de quem tivesse comprado, a quem tivesse vendido e por qual valor as tivesse adquirido. Mesmo sob pressão dos agentes, negou sempre de ter mantido contato com o pessoal da casa da moeda da Filadélfia, além do necessário requerido pela sua profissão (venda de restos de ouro para fundição), e declarou sob juramento que não possuia outros exemplares da moeda incriminada.
Nas semanas sucessivas os investigadores examinaram as escrituras contábeis de Switt, sem porém concluir nada de útil para suas investigações que, sem descartar possíveis alternativas, se dirigiam agora a um objetivo bem preciso: a investigação de uma ligacão entre Switt e alguém que tivesse tido acesso às moedas saídas ilegalmente do estabelecimento onde foram produzidas.
Na lista de suspeitos incluiu-se, em particular, o ex-caixa da Casa da Moeda de Filadélfia George McCann: um personagem que, além de ter sob sua custódia – por vários anos e na própria caixa-forte – centenas de exemplares do double eagle incriminado, tinha precedentes discutíveis, tendo sido preso em 1940 sob acusação de ter “roubado” do caixa 339,90 dólares em “trocados” retirados de circulação, levados à Casa da Moeda por privados e comerciantes para serem substituídos por moedas novas do cunho. Mccann se assumiu culpado, e foi condenado a um ano e um dia de prisão, mais uma multa de 500 dólares.
Mesmo não conseguindo provar um contato direto entre McCann e Switt, os agentes descobriram que quase seguramente existia um entre McCann e Edward Silver, cunhado e sócio de Switt cuja assinatura aparecia, entre outros, nos cheques girados por Macallister para pagar as moedas compradas pelo primeiro. Novamente interrogado, Macallister adicionou novos particulares ao caso: em ocasião de cada compra, Switt pretendia que o preço fosse primeiro aprovado por Silver e em num certo momento disse, a propósito dos double eagles de 1933, que “seu sócio Ed(ward Silver) poderia arrumar quantas quisesse”, já que tinha comprado 25 e revendido até então somente 14.

Outras confirmações aos suspeitos vieram da análise da situação financeira de McCann, que entre fevereiro e junho de 1936 tinha registrado, sem uma justificativa aparente, entradas de mais de 9.800 dólares, uma soma equivalente a mais do triplo do seu salário anual, e quase coincidente com quanto retirado no mesmo período por Edward Silver de uma conta bancária sua. McCann, segundo a teoria desenvolvida pelos agentes do serviço secreto teve, por um longo tempo, acesso às moedas que provavelmente conseguiu fazer sair da Casa da Moeda, de pouco em pouco (na época não existiam detectores de metal), substituindo os double eagles de 33 com outros de data comum, para que pesos e números resultassem sempre regular no caso de um eventual controle; tinha mantido contato com Silver; tinha registrado em 1936 uma entrada conspícua e não justificada, contemporaneamente a uma equivalente saída de dinheiro da conta de Silver: os indícios era mais do que consistentes, mesmo se em ausência de uma confissão por parte dos suspeitos.
No final de 1944 o trabalho dos investigadores já havia terminado, e os agentes tiveram uma conferência com o chefe dos Serviços Secretos, Frank Wilson, confiantes de poder começar a fase do plano que levaria os suspeitos para a cadeia. Em dezembro, Wilson mandou a própria relação ao Procurador Federal com o pedido de proceder, mas a resposta, que chegou em janeiro de 1945, foi negativa: os indícios eram sólidos, mas a decorrência dos termos punha os suspeitos ao reparo de qualquer tipo de incriminação.

Medalha prêmio realizada por Augustus Saint Gaudens e Barber para a Exposição Colombiana de 1892-1893.

A impossibilidade de perseguir os culpados pela subtração das moedas não mudava todavia uma coisa: os double eagles de 1933 em circulação nunca tinham sido emitidos, por isso eram propriedade do governo, do qual foram roubadas; o governo tinha portanto o direito de exigir a restituição e, caso o atual proprietário se negasse em fazê-lo, o governo poderia confiscá-las.
Nem sempre os colecionadores – que para terem a moeda tinham desembolsado os “olhos da cara” – estavam dispostos a aceitar tal imposição. Entre junho de 1944 e agosto de 1952 o serviço secreto conseguiu todavia sequestrar , ou receber por “livre e espontânea restituição”, outros seis doubles eagles de 1933 que se encontravam na posse de cidadãos americanos: o único exemplar conhecido em circulação permanecia a tal ponto a moeda adquirida em 1944 pelo rei Farouk do Egito, transferida ao Cairo.
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A MOEDA QUE FALTAVA

Enquanto internamente os pedidos de restituição das moedas sequestradas, encaminhados pelos colecionadores ao governo, eram negados, o Governo americano decidiu colocar as coisas em dia com o governo egipcio, onde o rei Farouk tinha perdido o trono no dia 23 de julho de 1952 depois de um golpe de estado. O novo governo fez saber imediatamente que tinha intenção de leiloar os bens do ex-soberano, e que o lucro deveria ser utilizado em benefício do povo. Entre tais bens constava a coleçao numismatica do ex-soberano, composta de mais de 8.800 moedas de ouro, sendo que entre as raridades estava o “double eagle de 1933”. A responsabilidade de cuidar do leilão, executado no dia 24 de fevereiro de 1954, foi dada a casa inglesa Sotheby’s, cujo catálogo denominado “Palace Collections of Egypt” (o nome do rei tinha sido retirado em consideração ao novo governo), reportava no lote número 185, junto com outros 16 double eagles, o exemplar “único” de 1933.

Página do catálogo da coleção Farouk, onde se vê o lote 185. Sublinhado em vermelho a data 1933, correspondente ao cobiòado Double Eagle Saint Gaudens .

Uma cópia do catálogo acabou nas mãos do serviço secreto americano, que através do Departamento de Estado fez intervir a Embaixada do Cairo para retirar a moeda de venda. Somente 36 horas antes da realização do leilão a Embaixada conseguiu confirmar que o presidente egípcio Naguib tinha acolhido o pedido, se resevando todavia o direito de decidir sobre a sorte da moeda. Em 25 de fevereiro o lote 185, reduzido de 17 a 16 moedas, foi regularmente vendido por 2.800 libras; mas enquanto nos EUA a Casa da Moeda da Filadélfia começava a refundir, em agosto de 1956, em base as disposições do Gold Reserve Act, as nove moedas sequestradas pelo serviço secreto, a peça que pertenceu a Farouk desaparecia no nada.
Todas as pistas seguras do double eagle que faltava (aparentemente permanecia no Egito, com quem tinha acesso aos bens sequestrados de Farouk pelo governo nacionalista de Naguib e de seu sucessor Nasser), se perderam por quase quarenta anos, até 1994, quando André de Clermont, um ex-funcionário da Casa de Leilões inglesa Spink’s e por época já trabalhando pro conta própria, comentou com seu novo sócio Stephen Fenton, dono de uma loja numismática em Duke Street, de uma supreendente oportunidade: uma sua fonte egípcia (da qual já tivera a oportunidade de adquirir muitas moedas raras, algumas das quais certamente proveniente da coleção de Farouk), tinha mencionado a possibilidade de dispor também do 20 dólares de 1933.

A negociação – iniciada com um pedido do interlocutor egípcio de 325.000 dólares – começou a “esquentar” no tardo verão de 1995, e no dia 3 de outubro a negociação chegava ao seu clímax. Fenton transferiu para a conta do egípcio – um joalheiro do Cairo – 220.000 dólares, e, depois de 41 anos, entrou em posse da moeda retirada do leilão em 1954 (deste fato não se tem certeza absoluta, dado que a licença de exportação concedida em favor de Farouk não era acompanhada por uma documentação fotográfica, e nem no catálogo do leilão Sotheby’s de 1954 aparecia uma imagem da moeda; mas todas as circunstâncias levam a crer que a moeda nas mãos de Fenton fosse efetivamente a que pertenceu ao soberano egipcio).
Quando a adquiriu, o comerciante britânico tinha passado por um grande risco, ligado tanto a quantia paga, quanto ao “estado” ilegal da moeda (pelo menos, assim era, aos olhos do governo americano). O problema agora era encontrar um comprador, de preferência nos Estados Unidos, que pudesse garantir a ele e ao seu sócio De Clermont um lucro adequado.
Para resolver essa situação Fenton se dirigiu a um amigo na Alemanha que, depois de algumas tentativas em vão, obteve uma resposta interessada da parte de Jasper Parrino, titular de uma loja especializada em moedas raras em Kansas City, que acreditava haver um potencial cliente para a moeda na pessoa de Jack Moore, um mediador sempre a procura de moedas de ouro para um facultoso industrial em Oklahoma. No fim de 1995, Fenton começou a discutir com Parrino sobre a venda do double eagle em sua posse, pelo qual pretendia pedir 750.000 dólares. Parrino pediu a Moore o dobro, mas o caminho pelo qual se desenrolava o negócio conduzia na verdade a uma perigosa armadilha.

Moore, em parte incentivado por motivos de “vingança” (dizia que tinha sido enganado no passado por Parrino, com relação a algumas comissões de venda), se dirigiu a um agente do FBI informando-o que um comerciante estrangeiro estava oferecendo na praça um double eagle de 1933 por 1.500.000 dólares. O FBI o colocou prontamente em contato com o Serviço Secreto, que decidiu montar uma isca com o objetivo de sequestrar a moeda. Moore teria que fazer uma contra-oferta a Parrino, para ganhar tempo, mas sobretudo tinha que pedir que a transação ocorresse nos EUA onde o comprador poderia verificar a autenticidade da peça (na verdade, para o serviço secreto se apropriar da moeda).
Depois de um vai-e-vém de contatos e negociações, Fenton – que havia firmado o preço em 750.000 dolares – concordou em encontrar Parrino e o cliente final em 8 de fevereiro de 1996, em Nova York, em um apartamento do hotel Waldorf Astória que, a esta altura, já havia sido posto sob total vigilância pelo serviço secreto, com videocâmeras e registradores, com agentes que ocupavam um apartamento adjacente.
Uma vez acertado que Fenton tinha efetivamente consigo a preciosa moeda, os agentes irromperam no apartamento onde a negociação estava em curso, e prenderam o numismata inglês, caído na armadilha sem haver levantado a menor suspeita, tanto é que, no início, temeu de ser vítima de um roubo.
Enquanto os agentes sequestravam o double eagle, Fenton foi algemado como um criminoso comum e levado ao subsolo do hotel, onde um automóvel o aguardava para conduzi-lo ao escritório do serviço secreto de Nova York, situado em uma das torres do World Trade Center. Fenton, convocado a se apresentar diante do juiz com a acusa de ter tentado vender uma propriedade roubada ao Governo dos EUA, foi solto graças ao intervento do advogado, e no fim de um dia alucinante, saiu das dependências do Serviço Secreto profundamente abalado com o acontecido, tendo em seu bolso uma fatura de um “artigo de contrabando” sequestrado pelo governo dos EUA, o double eagle no qual tinha investido 220.000 dolares (e com o qual esperava ganhar muito mais).

A disputa aberta entre Fenton (determinado a fazer prevalecer a propria boa fé e seus direitos) e a Casa da Moeda americana (também decidida a reentrar em posse da moeda roubada sessenta anos antes) se fechou somente cinco anos mais tarde, em 15 de janeiro de 2001, com um acordo extra-judicial em base ao qual Fenton cedia a moeda à Casa da Moeda e que essa se empenhava em colocá-la em venda, sendo o lucro relativo a esta venda dividido em partes iguais. A Casa da Moeda insistiu em inserir uma cláusula na qual se especificava que o compromisso feito com Fenton não teria se constituído num precedente para outro exemplar, eventualmente existente, do “20 dolares de 1933”. Caso aparecessem outros, seriam efetivamente sequestrados.

O Federal Reserv Bank de Nova York.

Enquanto a moeda estava sendo temporaneamente transferida por seguranças ao Fort Knox, ocorreu uma outra singular e trágica coincidência: se tivesse permanecido por alguns meses mais no escritório do serviço secreto em Nova York, a moeda se teria perdido seguramente devido ao atentado terrorista de 11 de setembro que destruiu as Twin Towers).

Sotheby’s e Stack’s estavam sendo selecionadas para organizar o leilão onde, segundo as estimativas, a peça poderia chegar a um valor entre 4 e 6 milhões de dólares. O leilão público teve início às seis da tarde de 30 de julho de 2002 partindo de um preÇo inicial de 2,5 milhões de dólares. Exatos 6 minutos mais tarde, um colecionador anônimo arrematava a moeda mais disputada da história por 7.590.020 dólares.
Aos 6,6 milhoes do preço de compra tinham que ser adicionados outros 990.000 dólares de direitos e outros 20 dólares devidos ao departamento do tesouro para “monetizar”, pela primeira e única vez, o double eagle de 1933.

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FIM DA HISTÓRIA?

Nem por sonho!

Prova disso é o novo “golpe de cena”, ocorrido em setembro de 2004. Pouco mais de dois anos depois do leilão que parecia ter posto um fim a longa e aventurosa história desta fantástica e bela moeda, se começava a desenrolar um novo (e imprevisto) capítulo. As declarações feitas por Switt a Macallister, e por este, em 1944, referida ao agente Strang, sobre o número total de double eagles de 1933 saídos ilegalmente da Casa da Moeda, deram uma tardia mas sensacional confirmação quando a casa da moeda reentrou em posse, de uma única vez, de outros 10 exemplares da mítica moeda. Isso mesmo ! Dez exemplares de uma só vez, encontrados apenas dois anos após do leilão milionário.

A se mostrar viva as autoridades foi Joan Switt Langbord, filha e herdeira do joalheiro Israel Switt (morto em 1990 com 95 anos), que através de seu advogado Barry H. Berke (o mesmo que tinha defendido os interesses de Fenton durante a longa disputa com a Casa da Moeda entre 1996 e 2001), informou ao governo e à Casa da Moeda americana do achado de 10 moedas entre os bens do pai, acreditando desta forma poder fazer o que bem quisesse e entendesse com os 10 exemplares. Os representantes da Casa da Moeda solicitaram então que a senhora Langbord entregasse as moedas com a desculpa de poder controlar a autenticidade das mesmas; um pedido que a senhora Langbord prontamente aceitou, em acordo realizado através de seu advogado, em troca de um documento no qual a Casa da Moeda se empenhava em reconhecer todos os direitos que Joan Switt Langbord e seus familiares poderiam ter sobre as moedas.
Depois de te-las tranferidas a Washington em junho de 2005 para garantir a autenticidade, confirmada tanto pelas provas de laboratório quanto pela comparação com os exemplares do Smithsonian Institute, a Casa da Moeda anunciou publicamente em 11 de agosto, com grande tristeza para a senhora Joan Switt Langbord, a “recuperação” das moedas (retendo-as como propriedade do governo – a Casa da Moeda decidiu, obviamente, não usar os termos “sequestro” ou “requisição”), que foram mais tarde tranferidas ao Fort Knox, devendo ali permanecer, aguardando uma decisão sobre seus destinos. Três coisas são, de qualquer modo, certas:

1) Que as moedas não serao destruídas (o Gold Reserve Act foi abrogado por Nixon em 1971);
2) Que não serão monetizadas (portanto o double eagle de 1933 vendido em leilão em 2002 será o único legal em posse de um cidadão privado);
3) Que nao serão restituidos aos herdeiros de Switt.

Se por um lado a Casa da Moeda pensa em valorizar os double eagles de 1933 recentemente recuperados como “manufatos históricos” em ocasião de mostras ou exposições, ou consignado-os a um certo número de museus, por outro lado o advogado da senhora Langbord proclama batalha; uma batalha que se mostra toda em subida, tendo em vista os precedentes invariavelmente a favor do governo (mesmo se o valor das moedas disputadas, estimável em muitos milhões de dolares, é tal que não justifica uma desistência incondicionada por parte dos Switt).

O presidente americano Richard Nixon.

Esperando para conhecer qual será o destino das 10 peças depositadas em Fort Knox, um outro interrogativo espera uma resposta:

Afinal, quantos são os double eagles de 1933 em circulação?

Até 2004 eram conhecidos somente 3 exemplares: os dois do Smithsonian, e o vendido em 2002 em leilão. Com o “achado” de 2004 o total sobe para 13, mas Israel Switt afirmou, na época das investigações, que teve à disposiçao 25 moedas, um número que hoje é impossível de se verificar, mas em conformidade com os 9.800 dólares embolsados pelo caixa Mc Cann em 1936 (mesmo sendo possivel que parte desta cifra tenha servido para pagar outros “favores” feitos ao dueto Switt-Silver).
Levando a sério as afirmações de Switt, e levando em conta que das 25 moedas passadas, segundo ele, pelas suas mãos, se devem subtrair nove fusas em 1956, uma vendida em leilão em 2002, e dez encontradas em 2004; isto significa que existem, em posse de um ou mais cidadãos, ainda desconhecidos graças a “prudência” ou simplesmente a sorte, outros 5 double eagles “proibidos”. Uma “presa” que permanece, em todos os casos, sob mira dos agentes do serviço secreto americano , prontos a confiscá-las assim que elas surjam da neblina que a sorte as circundou até hoje.

Da próxima vez que você for a uma numismática e verificar que existe um Double Eagle Saint-Gaudens à venda, certifique-se de que não seja o de data 1933. Afinal, ainda existem no mínimo 5 destes exemplares “perdidos” por aí. Talvez sejam bem mais do que apenas cinco.

FIM

Bibliografia:

Livros:

Don Taxay: The Us Mint and Conaige, Arco Publishing Co., New York 1966.

David Tripp: Illegal Tender – Gold, Greed, and the Mistery of the lost 1933 Double Eagle, Free Press, New York 2004.

Allison Frankel: The epic story of the world’s most valuable coin, W.W. Norton, New York 2006.

Revistas:

Leon Worden: Barry Barke: 1933 double “legal”, in COINage Magazine, gennaio 2006.

Catálogos de leilões:

Sotheby’s: Palac Collection of Egypt, O Cairo, 25 de fevereiro de 1954.

Sotheby’s New York, Stack’s: The 1933 Double Eagle, – July 30, 2002.

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DOIS MILHÕES DE FRANCOS PARA ADRIANO

No mundo do colecionismo, o inesperado surgimento em leilão de moedas raras e raríssimas, e em perfeito estado de conservação, desperta a atenção e o interesse de numerosos apaixonados a disputarem os lotes que se sucedem num ambiente que, apesar de magnífico (haja vista toda beleza dos lotes e das acirradas disputas por esta ou aquela moeda), deixa transparecer a ânsia e a tensão dos envolvidos diretamente na disputa. Foi o que aconteceu este ano no Leilão da Numismática Genevensis na Suiça. Apoiado em um belíssimo catálogo elaborado com gosto e perfeição, o leilão deixou bem claro que o setor não conhece crise, fato comprovado pelas ofertas que chegaram a superar em até 5 vezes o lance inicial.

É o caso deste magnífico exemplar de um Sestércio de Adriano (foto a seguir,o mais belo que se conhece), oferecido por 400.000 francos suiços e adquirido pela fabulosa cifra de 2 milhões de francos, o equivalente a aproximadamente US$ 1.750.000,00 (hum milhão e setecentos e cinquenta mil dólares).

Segue a descrição do catálogo:

“Adriano, 117 – 138. Sestercio in oricalco atribuído ao “Mestre de Alfea”, Roma, 135 – 136 d.C., 25,53 gr. HADRIANUS – AVG COS III P P; busto de Adriano a direita / P-AX AUG / S-C/ A Paz de pé a esquerda mantendo na mão direita um ramo e naquela esquerda uma cornucópia. (…)A mais bela moeda Romana jamais cunhada. Um retrato de uma força e de uma expressão jamais igualada. Uma moeda perfeita, obra prima de equilibrio e de estética. Exemplar soberbo, com pátina esverdeada.400.000.(…)Toynbee p. 32, nota 43 e pl. I, 4, associou este sestércio a um medalhão. Segundo P. V. Hill, The Undated Coins of Rome A.D. 98-117, 1970, 167, 568, teria sido cunhado em ocasião da “Vicennalia di Adriano”, e é obra de um incisor de alto gabarito. C. Seltman, Greek Sculpture and Some Festival Coins, Hesperia 17 (1948), p. 71 ss., reconheceu a mão deste artista em vários medalhões cunhados em honra de Antinoo, e o identificou como “Mestre de Alfea”. (…)Seltman não exitou em reconhecer neste o célebre escultor Antoniniano de Afrodisia. Os mais belos bronzes cunhados em 134 d.C. em Mantinea em honra de Antinoo, com efeito, parecem ser obra sua.(…)Três exemplares conhecidos.”

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