Viscondessa de Cavalcanti. Uma dama entre os numismatas.

viscondessa[2]Recentemente adquiri, do amigo e numismata Alberto Paashaus, um raríssimo exemplar do “Catalogo das Medalhas Brazileiras e das Estrangeiras Referentes ao Brazil” de autoria da Viscondessa de Cavalcanti. Editado em Paris em 1910, esta raridade teve tiragem de apenas 100 exemplares numerados.

Infelizmente, na numismática brasileira, os colecionadores ainda não se habituaram a investir parte das economias que destinam ao seu hobby, em livros bons e raros (e são tantos dando “sopa” por aí).
Devido a este descaso, muitas raridades são encontradas em feiras ou com particulares, a preços bem reduzidos. Não que estas pessoas desconheçam o valor destas obras, mas sim devido ao desinteresse dos numismatas brasileiros em adquiri-los. Para se ter uma idéia, há pouco tempo, na casa de leilões Spink, existia um exemplar desta raridade (o catálogo de medalhas da Viscondessa) à venda por 1.600 libras, o equivalente a 2.500 dólares. Algum tempo depois, procurando por este exemplar, soube que havia sido vendido, mostrando que ainda são os estrangeiros a dar mais valor à nossa história do que nós mesmos.

Mas não seria “Visconde de Cavalcanti” ao invés de “Viscondessa”, o autor desta obra, alguns se perguntariam ?

Surpreendente, não ?

Uma mulher dedicar-se com amor e paixão a um hobby em que a esmagadora maioria são do sexo masculino é, no mínimo, de chamar a atenção.

Um equívoco ?

Certamente não ! E tem mais: Não imaginem que se tratasse de uma mulher de excassos dotes físicos ou uma senhora atordoada por uma desilusão amorosa. Muito pelo contrário, era belíssima, extremamente inteligente, altruísta e muito bem casada.

E é justamente o que poderemos constatar com o texto a seguir, extraído do site do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo, instituição da qual a própria Viscondessa foi membro ativo, prestando relevantes serviços à comunidade geográfica e histórica, bem como à ciência auxiliar da história, a numismática.

Viscondessa de Cavalcanti, 1852 – 1946

D.Amélia Machado de Coelho e Castro nasceu no Rio de Janeiro, filha do Dr. Constantino Machado Coelho de Castro e de D. Mariana Barbosa de Assis Machado. Foi a sexta mulher a ingressar no Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo, em 5 de agosto de 1905, após Marie Rennotte (1901), Mary Robinson Wright (1901) Júlia Lopes de Almeida (1902), Veridiana Valéria da Silva Prado (1902) e Ibrantina Cardona (1905).

Célebre por sua beleza e elegância, D. Amélia foi considerada uma das mais notáveis damas da corte no segundo reinado. Um fato pitoresco, que lhe diz respeito, envolveu o nome de Pedro Luiz Pereira de Sousa, poeta, jornalista e político de muito prestígio no Rio de Janeiro. Conta-se que, numa recepção no Palácio Isabel, Pedro Luiz valsava com Amélia, futura Viscondessa de Cavalcanti, quando, inesperadamente, entrou na Salão Nobre o Imperador D.Pedro II. Na vertigem da valsa e encantado com sua parceira, Pedro Luiz fingiu não ter visto D. Pedro II, tendo acenado à orquestra para que continuasse a tocar, fato que não passou despercebido ao Imperador. Meses depois, o nome do jornalista e político foi lembrado para ocupar importante cargo, tendo sido imediatamente vetado pelo monarca com esta frase irônica: “O Pedro Luiz é um homem que ainda valsa”. Pedro Luíz era parente de Washington Luíz, último presidente da República Velha.

Amélia casou-se com o senador Diogo Velho Cavalcanti de Albuquerque (1829 – 1899), filho de Diogo Velho Cavalcanti de Albuquerque e de Angela Sophia Cavalcanti Pessoa. Bacharel em Direito pela Faculdade de Direito de Olinda, Diogo Velho foi deputado provincial, deputado geral, Senador do Império pelo Rio Grande do Norte e Ministro de Estado, tendo sido agraciado com várias comendas. Pelos serviços prestados ao Império, D. Pedro II concedeu-lhe o título de “Visconde com honras de grandeza”, por decreto imperial de 30 de maio de 1888. Os Viscondes de Cavalcanti, Diogo e Amélia, foram co-proprietários do engenho Baixa Verde, Comarca de Nazaré da Mata, em Pernambuco, tendo vendido parte dessas terras a “The Great Western Co. of Brazil Ltda. “, necessária à construção da estrada de ferro Nazaré-Timbaúba.

“Tudo ajudava àquele casal para o sucesso social que o assinalava, desde a inteligência do futuro Visconde às finas graças e formosura de D. Amélia Cavalcanti… O grande fulgor do Salão da Viscondessa de Cavalcanti durou de 1875 a 1878, período em que seu marido foi Ministro, mas, depois disso, continuou a ser um dos mais elegantes centros da alta sociedade do Rio, às quintas e aos domingos”.

Na fase final da Monarquia, em 1889, às vésperas da República, com o intuito de prestar homenagem à dedicação e lealdade de Diogo Velho, D. Pedro II nomeou-o Comissário do Brasil junto à Exposição Universal em Paris. Estabelecido o regime republicano, os Viscondes preferiram permanecer na França. O advento da República interrompeu, assim, a carreira de um homem de Estado que, aos cinqüenta anos, já havia ocupado os mais importantes cargos político – administrativos no Brasil, e que teve o comovente mérito de jamais abandonar seu amigo, o Imperador destronado.

Ao adoecer, com grave prognóstico, o Visconde expressou o desejo de regressar ao Brasil, tendo falecido em Juiz de Fora, Minas Gerais, em junho de 1899. Pouco se disse dele na época, apenas algumas sentidas orações fúnebres por parte daqueles que tiveram o privilégio de privar de sua intimidade. Convinha à conspiração republicana e aos adeptos do sistema vigente apagar a memória desse grande estadista da monarquia. Viúva, a Viscondessa decidiu voltar para a França, onde residiu durante 26 anos.

Catálogo de Medalhas

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Figura: O exemplar, em excelente estado de conservação (folhas duplas coladas, o que indica sem uso), que adquiri do amigo Paashaus (somente amigos te fazem bons preços por algo realmente bom)

Em 1889, a Viscondessa de Cavalcanti publicou no Rio de Janeiro, o “Catálogo das Medalhas Brasileiras e das Estrangeiras Referentes ao Brasil”, de sua coleção particular. Foram impressos 25 exemplares, 5 em papel Japão e 20 em papel de Holanda. Essa rara publicação descreve 115 medalhas, cujas datas vão de 1596 a 1888. Em 1910, uma segunda edição aumentada e ilustrada, com tiragem de 100 exemplares, foi publicada em Paris. Nela, descrevem-se 294 medalhas, com datas de 1596 a 1903, incluindo-se o período do Brasil República. Lê-se na segunda edição:

“Les médailles ne sont pas seulement des objects d’art, ce sont aussi des monuments historiques. Les événements y sont marqués plus sûrement que dans les livres, et leur témoignage, sans être irrécusable, est plus naif et plus authentique, plus sûr que celui de l’histoire parce qu’il ne faut qu’un instant et un trait de plume pour écrire une erreur ou un mensonge, tandis qu´íl en coûte tant de peines et de jours pour les modeler et les fondre, encore pour les graver! Chaque medaille est un abrégé de la petite histoire écrite en marge de la grande, et qui est celle des individualités marquantes dont les traits sont désormais transmis à la posterité par la main du sculpteur ou du graveur (Charles Blanc)”.

As medalhas estão descritas em termos dos seguintes períodos históricos: Brasil Colonial, Ocupação Holandesa; Brasil Colonial, Domínio Português; Brasil Império, Primeiro Reinado – D. Pedro I; Segundo Reinado – D. Pedro II; Brasil República, este incluído na segunda edição. Algumas classificações apresentam subtítulos temáticos.

As medalhas da coleção

É interessante mencionar as duas medalhas mais antigas da coleção da Viscondessa, referentes ao Brasil Colonial durante a ocupação holandesa, cunhadas no ano de 1596. Trata-se da “SIDERE PROFICIANT DEXTRO NEPTUNIA REGNA”, a qual diz respeito às expedições comerciais dos holandeses. Em guerra contra o rei da Espanha e Portugal, estes organizaram uma expedição marítima à América portuguesa para fazer um carregamento de pau brasil, com conivência de portugueses da Colonia, que desconsideraram as severas ordens do Reino. Nesse mesmo ano, a “NUNC SPE NUNC METU” comemorou a esquipação da primeira frota holandesa destinada ao Brasil.

A Viscondessa possuía, também, a primeira medalha referente ao Brasil Colonial, no domínio português. Trata-se da “RENÉ DUGUAY-TROUIN”, cujo nome relaciona-se à história do Brasil, pela expedição realizada ao Rio de Janeiro. Perpetua a memória de sete naus de guerra, oito fragatas e dos 5.684 homens que conquistaram a cidade em 1711.

As medalhas sobre Portugal começaram a surgir a partir do ano de 1800. Em nota de rodapé, no Catálogo, menciona-se o nome de Zeferino Ferrez, como a primeira pessoa a introduzir a gravura de medalhas no Brasil, em 1820.

A propósito dos valiosos catálogos publicados pela Viscondessa, no volume XV da Revista do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo, 1910, pág. 455, lê-se: “ A Exma. Sra. Viscondessa de Cavalcanti ofereceu sua obra em dois volumes sob o título Catálogo de Medalhas Brasileiras…” Infelizmente, os dois volumes oferecidos pela Viscondessa ao Instituto não foram encontrados.


Museu Mariano Procópio

Sala Viscondessa de Cavalcanti

O Museu Mariano Procópio, em Juiz de Fora, o primeiro a ser criado em Minas Gerais, marco de pioneirismo da cidade, é obra de Alfredo Ferreira Lage (1865-1944). Primo de Amélia Cavalcanti, Alfredo era filho de Mariano Procópio Ferreira Lage, construtor da primeira estrada de rodagem macadamizada no Brasil, no período de 1856 a 1861, ligando Juiz de Fora a Petrópolis.

A Sala da Viscondessa de Cavalcanti, nesse Museu, possui 95 peças. Da coleção doada, fazem parte moedas greco-romanas com a efígie do imperador Júlio César e raros exemplares de medalhas cunhadas na Europa, referentes à ocupação holandesa na Bahia, em 1624, e em Pernambuco em 1631. Os principais acontecimentos no Brasil – com destaque para os períodos colonial e imperial – estão retratados em moedas e medalhas, cunhadas em ouro, prata e bronze, nessa magnífica coleção. São peças referentes à aclamação de Dom João VI, como rei de Portugal, Brasil e Algarves (1820), à chegada de Dona Leopoldina, arquiduquesa da Áustria, ao Brasil (1817), e à coroação de Dom Pedro II (1841).

Além das medalhas que pertenceram à Viscondessa, encontra – se nessa sala um curioso objeto pessoal. Trata-se de um leque, de madeira e papel, com 102 cm de abertura por 35 cm de raio, contendo 69 mensagens escritas por personalidades brasileiras e estrangeiras durante um período de 55 anos. O primeiro a assinar esse leque foi Dom Pedro II, em 1890. Nele se encontram mensagens da Princesa Isabel, de Tommaso Salvini, Carlos Gomes, Alberto Santos Dumond, Alexandre Dumas Filho, Machado de Assis, Eça de Queiroz, Getúlio Vargas e outros. A Viscondessa assinou seu leque em 1945, um ano antes de sua morte. Devidamente protegido, o leque permite observar as assinaturas em ambos os lados.


Museu Nacional de Belas Artes

O riquíssimo acervo do Museu Nacional de Belas Artes originou-se da pequena coleção de 54 telas, trazidas para o Brasil pela Missão Artística Francesa, em 1816, às quais logo se acrescentaram outras obras de propriedade do Dom João VI. A coleção compõem-se primordialmente de pinturas brasileiras do século XIX e início do século XX., muito embora haja, também, uma pequena, mas representativa, coleção de pintura estrangeira, com quadros da Escola Barroca italiana e telas de Eugène Boudin.

O conjunto de pintura brasileira reúne obras de Rodolfo Amoedo, Antonio da Silva Parreiras, Víctor Meireles, Henrique Bernardelli, Eliseu Visconti, Dario Vilares Barbosa, João Zeferino da Costa, Pedro Américo, Décio Vilares e Almeida Júnior. Aí se encontram obras-primas, como O Último Tamoio, de Amoedo, Primeira Missa no Brasil e Batalha de Guararapes, de Meireles, Maternidade, de Bernardelli, Gioventù, de Visconti, Óbulo da Viúva, de João Zeferino da Costa, e A Batalha do Avaí, de Pedro Américo.

Nesse Museu, encontra-se o retrato da Viscondessa de Cavalcanti, pintado por Léon Bonnat (1833-1922), em 1889, e doado no ano de 1926.

O Instituto Histórico e Geográfico Paraíbano possui retratos a óleo da Viscondessa de Cavalcanti e de seu marido, ambos da autoria de Labatut, os quais haviam pertencido anteriormente à D. Virgínia Cavalcanti de Albuquerque, irmã do Visconde.

Este breve relato mostra alguns fatos relevantes da vida de Amélia Machado de Coelho e Castro, cuja presença marcou profundamente a sociedade brasileira pelo seu vivíssimo talento, por sua beleza e generosidade. Estrela que não se apaga, a Viscondessa de Cavalcanti merece ser lembrada pelo muito que fez pela cultura de nosso País.

A Snra. Viscondessa de Cavalcanti não cedeu nunca
de seu império de distinção, elegância e formosura.
E, ainda hoje, é pena que apareça tão pouco,
porque reinaria ainda.

Wanderley Pinho, 1942

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2 respostas para Viscondessa de Cavalcanti. Uma dama entre os numismatas.

  1. enio garletti disse:

    Excelente artigo sob o aspecto historico.Sempre que houver artigo semelhante gostaria de receber para a formação de um compendio sobre pessoas e suas biografias de que se dedicaram á numismatica.

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