História e colecionismo de Moedas no Brasil

As Primeiras Moedas

No início do período colonial, o meio circulante brasileiro foi sendo formado de modo aleatório, com as moedas trazidas pelos colonizadores, invasores e piratas que comercializavam na costa brasileira. Assim, ao lado das moedas portuguesas, circularam também moedas das mais diversas nacionalidades, cuja equivalência era estabelecida em função do seu valor intrínseco (conteúdo metálico).

A partir de 1580, com a formação da União Ibérica, verificou-se uma afluência muito grande de moedas de prata espanholas (reales), provenientes do Peru, graças ao florescente comércio que se desenvolveu através do Rio da Prata. Até o final do século XVII, os Reales espanhóis constituíram a parcela mais expressiva do dinheiro em circulação no Brasil.

As moedas portuguesas que aqui circulavam eram as mesmas da Metrópole, oriundas de diversos reinados. Cunhadas em ouro, prata e cobre, essas moedas tinham os seus valores estabelecidos em réis e possuíam às vezes denominações próprias, como Português, Cruzado, São Vicente, Tostão, Vintém. A moeda de 1 real, unidade do sistema monetário, era cunhada em cobre.

Moeda hispano-americana de 8 Reales de Philipe V de espanha – Casa da Moeda de Lima (ME).

Moeda hispano-americana de 8 Reales de Carolus IIII – Casa da Moeda do México (FM).

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Moedas Contramarcadas

A longa guerra mantida contra os espanhóis, após a restauração da independência de Portugal, custou elevadas somas à coroa portuguesa. Para conseguir os recursos necessários, D. João IV (1640-1656) e D. Afonso VI (1656-1667) recorreram a sucessivas alterações no padrão monetário, determinando reduções nos pesos das novas moedas fabricadas e procedendo a aumentos no valor das moedas em circulação. Posteriormente, durante o reinado de D. Pedro (1667-1706), também foram efetuados aumentos nos valores correntes das moedas.

Em algumas ocasiões esses aumentos foram praticados sem que fossem efetuadas alterações nas moedas; em outras, foram concretizados mediante a aposição de contramarcas (carimbos). Dessa forma, foram contramarcadas diversas moedas portuguesas de ouro e prata e Reales espanhóis de prata, em circulação no reino e nas províncias.

Para a aplicação desses carimbos foram instaladas, nas principais capitanias do Brasil, oficinas monetárias temporárias, que funcionavam apenas durante os processos de carimbagem.

Brasil / prata – Excepcional Carimbo S00 sobre 400 Réis Evora.

Marcas para Evitar o Cerceio

A adulteração das moedas de ouro e prata, pela prática ilegal de raspagem dos bordos para retirada do metal (cerceio), assumira proporções calamitosas em Portugal e nos seus domínios, levando D. Pedro II a adotar várias medidas para impedir a sua continuidade. Dentre essas medidas encontram-se a colocação de cordão (espécie de serrilha em forma de cordão) e de marca (esfera armilar coroada, aplicada junto à orla) e a cunhagem de novas orlas nas moedas de cunhos antigos.

Moedas-Mercadorias

Nos dois primeiros séculos após o descobrimento, face à inexistência de uma política monetária especial para a Colônia, a quantidade de moedas em circulação era insuficiente para atender às necessidades locais. Por esse motivo, diversas mercadorias foram utilizadas como dinheiro, inclusive pelo próprio governo, sendo comuns os pagamentos realizados em açúcar, algodão, fumo, ferro, cacau e cravo, entre outros.

Em algumas ocasiões, o uso de mercadorias como moeda obedeceu a determinações legais. Em 1614, por exemplo, o Governador do Rio de Janeiro estabeleceu que o açúcar corresse como moeda legal, ordenando que os comerciantes o aceitassem obrigatoriamente como pagamento. No Maranhão, que constituía um estado politicamente separado do Brasil e onde a principal moeda corrente era o algodão, foi legalmente estabelecida, em 1712, a circulação do açúcar, cacau, cravo e tabaco como moeda.

Os escravos africanos chegados ao Brasil utilizaram em suas trocas o zimbo, concha de um molusco encontrada nas praias brasileiras e que circulava como dinheiro no Congo e em Angola.

As Moedas Holandesas

Cercados pelos portugueses no litoral de Pernambuco e não dispondo de dinheiro para pagar seus soldados e fornecedores, os holandeses realizaram a primeira cunhagem de moedas em território brasileiro. Conhecidas como “moedas obsidionais” ou “moedas de cerco”, estas foram também as primeiras moedas a trazerem o nome do Brasil. Face à inexistência de ferramentas e materiais adequados, bem como à urgência do trabalho, as moedas foram feitas de forma bastante rudimentar.

Em 1645 e 1646 foram cunhadas moedas de ouro de III, VI e XII florins e em 1654, pouco antes da partida, moedas de prata, nos valores de XII, X, XX, XXX e XXXX soldos, havendo, entretanto, polêmica quanto à autenticidade dos quatro últimos valores. A inscrição G.W.C. corresponde às iniciais de “Companhia das Índias Ocidentais” (Geoctrooyerde Westindische Companie).

As Primeiras Casas da Moeda

Nas duas últimas décadas do século XVII agravou-se a situação de falta de moeda no Brasil, comprometendo o funcionamento da economia e provocando drástica redução nas rendas da Coroa. Inúmeras representações, pedindo solução para o problema, foram encaminhadas ao rei pelos governadores gerais e das capitanias, representantes das câmaras e membros da igreja e da nobreza. Em 1694, finalmente, D. Pedro II resolveu criar uma Casa da Moeda na Bahia, para a cunhagem de moeda provincial para o Brasil.

Todas as moedas de ouro e prata em circulação na colônia deveriam ser obrigatoriamente enviadas à Casa da Moeda, para serem transformadas em moedas provinciais. Essa medida acarretava problemas às demais capitanias, em função das dificuldades e riscos do transporte. Assim, para atender às necessidades da população, a Casa da Moeda foi transferida em 1699 para o Rio de Janeiro e no ano seguinte para Pernambuco, onde funcionou até 1702. Em 1703, por ordem de D. Pedro II, foi instalada novamente no Rio de Janeiro, não mais com a finalidade de cunhar moedas provinciais, mas para transformar o ouro em moedas para o reino.

Foram cunhadas moedas de ouro, nos valores de 4.000, 2.000 e 1.000 réis, e de prata, nos valores de 640, 320, 160, 80, 40 e 20 réis. O conjunto de moedas de prata é conhecido como série das patacas, em função da denominação “pataca” , atribuída ao valor de 320 réis.

Moedas de Cobre Angolanas

Como as casas da moeda não cunharam moedas de cobre, foi autorizada a circulação no Brasil de moedas destinadas a Angola, fabricadas na cidade do Porto, nos valores de 5, 10 e 20 réis. Essas moedas eram necessárias para as transações de pequeno valor.

O Ouro se Transforma em Moeda

Na primeira metade do século XVIII, a elevada produção de ouro possibilitou o funcionamento simultâneo de três casas da moeda e a cunhagem de grande quantidade de peças, cujos valores e beleza testemunham a opulência que caracterizou o período do reinado de D. João V (1706-1750).

Inicialmente foram cunhadas, nas casas da moeda do Rio de Janeiro (1703) e da Bahia (1714), moedas idênticas às do Reino: moeda, meia moeda e quartinho, com valores faciais de 4.000, 2.000 e 1.000 réis . Embora com as mesmas denominações das moedas provinciais, essas peças possuíam maior peso e seu valor de circulação era 20% superior ao valor facial.

O estabelecimento de uma casa da moeda em Minas Gerais foi determinado em 1720, quando da proibição da circulação do ouro em pó dentro da capitania. Além de moedas iguais às cunhadas no Reino, no Rio e na Bahia, a nova casa da moeda deveria fabricar peças com valores nominais de 20.000 e 10.000 réis, as quais circulariam com os valores efetivos de 24.000 e 12.000 réis. Instalada em Vila Rica, a casa da moeda de Minas funcionou no período de 1724 a 1734.

Em 1722 D. João V alterou a forma e o valor das moedas de ouro portuguesas, criando a série dos escudos, com os valores de 12.800 réis (dobra de 8 escudos), 6.400 réis (dobra de 4 escudos), 3.200 réis (dobra de 2 escudos), 1.600 réis (escudo) e 800 réis (1/2 escudo). Cunhadas no Brasil a partir de 1727, essas moedas trazem no anverso a efígie do Rei. Dentro dessa série foi introduzida, em 1730, a peça de 400 réis (cruzadinho).

Figura: Casa da Moeda de Vila Rica (Minas Gerais). Moeda de ouro do período colonial – D. João V, série dos dobrões – 20.000 Réis ouro 1726 MMMM. A moeda de ouro brasileira de maior peso (53,78 gr.)

Figura: Casa da Moeda de Vila Rica – Minas Gerais. Moeda de ouro do período colonial – D. João V, série das dobras – 12.800 Réis ouro 1731 M.

Moedas de Ouro de D. José I e D. Maria I

Nos reinados de D. José I (1750-1777) e de D. Maria I (1777-1805), continuou sendo cunhada a série dos escudos, com exceção da peça de 12.800 réis, cuja cunhagem havia sido suspensa por D. João V, em 1732. Voltaram também a ser fabricadas as moedas provinciais de ouro, nos valores de 4.000, 2.000 e 1.000 réis, que não eram cunhadas desde 1702.

Nos escudos de D. Maria, as efígies representam duas fases distintas de seu reinado. Na primeira ela aparece ao lado do marido, D. Pedro III. Após a morte deste, em 1786, é retratada sozinha, primeiro com um véu de viúva e depois com um toucado ornado com jóias e fitas.

Moedas da Série “J”

Em 1750 D. José proibiu a circulação de moedas de ouro nas regiões de mineração, considerando que as transações comerciais naquelas comarcas poderiam ser realizadas com barras de ouro marcadas e ouro em pó. Para atender às necessidades do comércio miúdo na região, mandou que as casas da moeda do Rio de Janeiro e da Bahia cunhassem moedas provinciais de prata e cobre.

Em 1752, entretanto, atendendo à sugestão do governador da capitania de Minas, determinou que fossem cunhadas também moedas de prata com os valores de 600, 300, 150 e 75 réis, tendo em vista que os preços nas regiões das minas eram estabelecidos em termos de oitavas e de seus submúltiplos, valendo a oitava de ouro não quintado 1.200 réis.

Para evitar confusão com as moedas provinciais de prata de 640, 320, 160 e 80 réis, em função da proximidade dos valores, nas novas moedas o escudo com as armas de Portugal foi substituído por um “J” com uma coroa em cima.

Moedas de Cobre no Século XVIII

Durante o reinado de D. João V, a Casa da Moeda de Lisboa fabricou moedas de cobre de 10 e 20 réis, especialmente destinadas ao Brasil. Moedas com esses mesmos valores foram cunhadas também pela Casa da Moeda da Bahia, que em 1729 realizou a primeira cunhagem de moedas de cobre no Brasil.

Em 1730 foram enviadas para Minas moedas de cobre cunhadas em Lisboa em 1722, nos valores de 20 e 40 réis, com pesos bastante reduzidos, as quais deveriam circular apenas naquela capitania.

No reinado de D. José I, entraram em circulação moedas provinciais de cobre nos valores de 5, 10, 20 e 40 réis, cunhadas em Lisboa e no Brasil.

Sob o reinado de D. Maria I, não houve cunhagem de cobre no Brasil. Todas as moedas foram fabricadas em Lisboa, mantendo inicialmente os mesmos pesos e valores do período anterior. Em 1799, entretanto, já sob a regência de D. João, as moedas de cobre tiveram seus pesos reduzidos em cerca de 50%.


Bilhetes da Extração – Primeira Moeda-Papel

A partir de 1772, a extração de diamantes na região do Tejuco do Serro Frio (atual Diamantina) passou a ser feita diretamente pela Coroa Portuguesa, que para isso criou a Real Extração dos Diamantes.

Quando havia insuficiência de recursos para o custeio das despesas, a Administração dos Diamantes emitia bilhetes que eram resgatados quando chegavam os suprimentos em moeda remetidos pela Fazenda Real. No início esses bilhetes tinham grande credibilidade, sendo aceitos em todas as transações comerciais da região.

Moedas para o Maranhão e Grão-Pará

Em 1748 D. João V determinou a cunhagem de moedas provinciais de ouro, prata e cobre para o Estado do Maranhão e Grão-Pará, no total de 80 contos de réis. Cunhadas em 1749, pela Casa da Moeda de Lisboa, essas moedas tinham as mesmas denominações e pesos das moedas provinciais brasileiras.

Segundo depoimentos da época, a introdução dessa moeda provocou grande confusão no Estado, uma vez que os preços dos salários e de todos os produtos estavam fixados em termos de algodão e especiarias.

Barras de Ouro e Certificados

Com o objetivo de garantir a cobrança do imposto do quinto, foram estabelecidas casas de fundição nas principais regiões auríferas do país, para as quais deveria ser levado todo o ouro extraído.

Depois de deduzida a quinta parte, o ouro era fundido e transformado em barras, nas quais eram registrados o ano, a marca oficial da casa de fundição, o número de ordem, o título e o peso do ouro. Assim legalizado, o ouro era devolvido a seu proprietário, acompanhado de um certificado.

Essas barras tiveram ampla circulação no Brasil, desempenhando a função de moeda, particularmente nas capitanias do interior.


Carimbos de Escudete

Para uniformizar o meio circulante brasileiro, onde moedas do mesmo metal e do mesmo peso tinham valores diferentes, D. João determinou, em 1809, a aposição de carimbo em forma de escudete nas moedas da série “J”, para equipará-las às da série das “patacas”, e nas moedas de cobre cunhadas antes de 1799, para duplicar seus valores.

D. João, Príncipe Regente e Rei

Embora D. João tenha assumido a regência em 1799, durante alguns anos as moedas continuaram sendo cunhadas com o nome de D. Maria I. As primeiras moedas de ouro cunhadas com a legenda “João Príncipe Regente” foram produzidas em 1805, antes de sua chegada ao Brasil.

A elevação do Brasil à condição de Reino Unido foi registrada nas peças em ouro, prata em cobre cunhadas em 1816, com a legenda “João, por Graça de Deus, Príncipe Regente de Portugal, Brasil e Algarves”.

Com a aclamação de D. João como D. João VI, em 1818, as moedas passaram a ter as armas do Reino Unido e a legenda “João VI, por Graça de Deus, Rei de Portugal, Brasil e Algarves”.

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A Moeda de 960 Réis

A mudança da família real e da Corte portuguesa para o Brasil foi conseqüência da situação européia no início do século XIX. Naquela época, a Europa estava inteiramente dominada pelo imperador dos franceses, Napoleão Bonaparte. Com sua política expansionista, ele submetera a maior parte dos países europeus à dominação francesa. O principal inimigo de Napoleão era a Inglaterra, cuja poderosa armada o imperador não pudera subjugar.

Em 1806, Napoleão decretou o Bloqueio Continental, obrigando todas as nações da Europa continental a fecharem seus portos ao comércio inglês. Com essa medida, Napoleão pretendia enfraquecer a Inglaterra, privando-a de seus mercados consumidores e de suas fontes de abastecimento. Nessa época, Portugal era governado pelo Príncipe Regente Dom João, pois sua mãe, a Rainha Dona Maria I, sofria das faculdades mentais.

Pressionado por Napoleão, que exigia o fechamento dos portos portugueses ao comércio inglês, e ao mesmo tempo pretendendo manter as relações com a Inglaterra, Dom João tentou adiar o mais que pôde uma decisão definitiva sobre o assunto.

Se aderisse ao Bloqueio Continental, Portugal ficaria em condições extremamente difíceis, porque a economia portuguesa dependia basicamente da Inglaterra. Os ingleses eram os maiores fornecedores dos produtos manufaturados consumidos em Portugal e também os maiores compradores das mercadorias portuguesas e brasileiras. A Inglaterra, por sua vez, também não queria perder seu velho aliado, principalmente porque o Brasil representava um excelente mercado consumidor de seus produtos.

Para resolver a situação de acordo com os interesses de seu país, o embaixador inglês em Lisboa, Lorde Percy Clinton Smith, Visconte de Strangford, conseguiu convencer Dom João a transferir-se com sua Corte para o Brasil. Desse modo, os ingleses garantiam o acesso ao mercado consumidor brasileiro.

A transferência da Corte era uma boa solução também para a família real, pois evitava a deposição da dinastia de Bragança pelas forças napoleônicas.

O Tratado de Fontainebleau, estabelecido entre a França e a Espanha em outubro de 1807, apressou a decisão do Príncipe Regente Dom João a abandonar a metrópole. Por aquele tratado, Portugal e suas colônias, inclusive o Brasil, seriam repartidos entre a França e a Espanha. No dia 29 de novembro, Dom João e sua família, acompanhados por um séquito de 15.000 pessoas, partiram para o Brasil. No dia seguinte, as tropas francesas do general Junot invadiram Lisboa.

Quatro navios britânicos escoltaram as embarcações portuguesas até o Brasil; parte da esquadra portuguesa aportou na Bahia e parte no Rio de Janeiro.

A chegada de Dom João à Bahia, onde ficou pouco mais de um mês, ocorreu em 22 de janeiro de 1808. Teve início, então, uma nova História do Brasil, pois a colônia foi a grande

beneficiada com a transferência da Corte. A presença da administração real criou, pouco a pouco, condições para a futura emancipação política da colônia. Da Bahia, Dom João seguiu para o Rio de Janeiro. Ali, o alojamento da numerosa comitiva do príncipe causou grandes problemas. As melhores residências da cidade foram requisitadas para os altos funcionários da Corte, não sendo poucas as pessoas despejadas de suas casas para hospedar os recém-chegados.

O Brasil ainda era uma colônia quando a Família Real desembarcou na Bahia, depois de quase 2 meses de exaustiva viagem. Esta chegada repentina de cerca 15.000 pessoas acostumadas com o luxo e o conforto da corte portuguesa, causou um aumento inesperado nas despesas da Colônia, agravando a já difícil situação em que se encontrava o Tesouro Real.

Nessa época circulavam livremente no Brasil, toda sorte de moedas estrangeiras, em sua grande maioria as Européias e as Hispano-Americanas de 8 reales que circulavam ao valor de 750 réis.

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O Surgimento da moeda de 960 Réis – O Carimbo de Minas

Quando D. João Príncipe Regente chegou ao Brail em 1808, circulavam legalmente no país, moedas de ouro, prata e cobre. Entre as moedas de prata oficiais, circulavam os 80, 160, 320 e 640 Réis(*¹). Também circulavam nessa época, uma grande variedade de moedas estrangeiras de prata. Essas moedas que circulavam livremente, eram originárias da Espanha e de suas colônias americanas (Bolívia, Peru, Chile, Argentina, México e Guatemala) e possuíam um diâmetro que variava de 37 a 42 mm. Pesavam em torno de 27 gramas e o seu teor de prata era, em geral, de 896 a 917 partes por 1000. Conhecidas como Pesos Espanhóis, as moedas hispano-americanas e metropolitanas de 8 Reales circulavam valendo de 320 Réis a princípio, a 750 Réis quando foi proibida a sua circulação pelo Alvará de 01 de Setembro de 1808 Réis(*²) . A partir desta data, a Coroa determinou que os 8 Reales fossem recolhidos e com o Aviso de 9 de novembro de 1808 ordenou que fossem enviados às 4 casas de fundição de MINAS GERAIS (Vila Rica, Sabará, Serro Frio e Rio das Mortes), 24 pares de cunhos com as Armas Reais para a carimbagem dos Pesos Espanhóis, divididos em 6 pares para cada uma das 4 casas de fundição. Foram enviados inicialmente (novembro de 1808) 70.137 pesos à Junta de Fazenda de Minas Gerais que depois de carimbados, deveriam ser empregados no resgate dos outros cuja circulação havia sido proibida. Em junho de 1809 houve autorização para compra de 100.000 pesos, ao preço unitário de 800 réis, para serem remetidos às províncias de Goiás, Mato Grosso e São Paulo para que nestes locais fossem aplicadas as determinações do Alvará de outubro de 1808, o que indica que, provavelmete, a carimbagem não se restringiu apenas à província de Minas Gerais. O “Carimbo de Minas” tinha o carater de moeda regional, devendo circular exclusivamente na Provincia de Minas Gerais e nao se sabe, com certeza, se houve remessa de pesos ou de cunhos para outras províncias.

Surgia assim (figura acima) a contramarca bifacial e circular, de aproximadamente 17mm de diâmetro, e limitada por uma cercadura de traços radiais, tendo no anverso o escudo português encimado pela Coroa Real arrematada por cruz latina singela, ladeado por dois ramos frutificados de louro que se cruzam na parte inferior onde, sob o cruzamento dos ramos, lê-se o valor 960 .

Em novembro de 1809 foi criada a moeda de “três patacas” ou “patacão” (960 réis), pondo-se fim à aplicação da contramarca nos pesos espanhóis.

Desta forma, podemos concluir que, desde a sua instituição em outubro de 1808 (partindo da remessa de cunhos em novembro do mesmo ano) até a criação da moeda de “ três patacas “, a aplicação da contramarca de 960 réis, mais conhecida como Carimbo de Minas, foi limitada ao período de novembro de 1808 a dezembro de 1809 (praticamente, um ano).

Carimbo de Minas: Esta é a forma inicial dos 960 réis.

(*1) – Os 20 e 40 réis de prata haviam sido extintos, prevalecendo as moedas de cobre com estes valores.

(*2) – Manoel Jacinto Nogueira da Gama, escrivão deputado da Junta da Fazenda e futuro Marquês de Baependi, em princípios de 1808, em ofício que dirigiu ao Ministro Dom Rodrigo de Souza Coutinho, Conde de Linhares, sugeriu a “… aplicação de um carimbo nos pesos espanhóis “, com o valor de 960 réis. A idéia foi bem aceita, tendo sido determinada a sua execução por Alvará de 1° de setembro de 1808.

Um novo Alvará, com data de 8 de outubro do mesmo ano, determinava que em Minas Gerais não circulassem mais os pesos espanhóis sem a contra-marca e que nem mesmo fossem negociados como gênero de comércio. A partir de então, os pesos marcados com o carimbo de 960 réis passaram a circular como moeda provincial.

(*3) – Pataca: Dizem alguns autores ser esta palavra derivada do árabe “ABUTACA”. Nesse idioma ela se apresenta como  “PATAC“. Como “PATARD ou PATAR”, foi pequena moeda de cobre tendo curso em Flandres e na França, onde se empregou como sinônimo de “óbulo” para designar uma moeda sem valor. Alguns numismatas franceses dizem que  PATAR  pode ser uma corrupção de Peter, forma alemã de Pedro, porque o PATAR de Flandres tem sobre uma das faces a imagem do santo desse nome. Hoffman no seu livro das moedas reais da França até Louis XVI, descreve dois interessantes “PATARDS” de Louis XI ( 1461-1583 ).

No Brasil, a palavra PATACA foi usada para caracterizar a moeda espanhola de 8 reales que a príncipio valia 320 réis. Ficou depois, no sistema provincial, como denominação da peça desse valor. ( Ensaios de Numismática e Ourivessaria – Mário Barata ).

Pataca: Moeda brasileira de prata com o valor circulatório de 320 réis ( Glossário Numismático – Kurt Prober )

Patacão: Moeda portuguesa de cobre ( 10 réis ) de D. João II. Nome popular e mesmo oficial dado no Brasil à moeda de prata de 960 réis. Equivale a 3 patacas. ( Glossário Numismático – Kurt Prober ).

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O carimbo

É bi-facial, circular, tendo aproximadamente 17 mm de diâmetro, limitado por uma cercadura de traços radiais. Era aplicado de modo a que ANVERSO e REVERSO do carimbo correspondessem ao ANVERSO e REVERSO da moeda espanhola. Vinha geralmente aplicado na metade inferior desta, permitindo, na grande maioria dos casos, a leitura da data primitiva da moeda que recebia o carimbo. Por haverem sido contramarcadas pela primeira vez nas casas de fundição de Minas Gerais, essas moedas são hoje conhecidas como “CARIMBOS DE MINAS”.

Moeda hispano-americana de 8 Reales Santiago sem contramarca de 960 Réis.

Moeda hispano-americana de 8 Reale Santiago com contramarca de 960 Réis.

Anverso do carimbo: Escudo português, encimado pela coroa real arrematada por cruz latina singela, ladeado por dois ramos frutificados de louro que se cruzam na parte inferior. No exergo, sob o cruzamento dos ramos, aparece o valor 960.


Reverso do carimbo: Esfera armilar encimada por cruz latina singela e arrematada por um “pé”. Em média o diâmetro da esfera é de 11,5 mm havendo, ao seu redor, um largo campo liso. Quanto à posição, podemos dizer que o REVERSO é intencionalmente “direito”, embora seja frequente encontrá-lo com pequena inclinação.

Tipos de Carimbos

Existem dois tipos de carimbos. Esta classificação é baseada no cunho de anverso do carimbo, basicamente caracterizado por um ponto ( ou a ausência deste ) no cruzamento das hastes dos ramos que se encontram logo acima do valor 960.

figura 5

1° TIPO: Com ponto no cruzamento das hastes. Os ramos de louro têm 11 x 11 folhas e 5 x 5 frutos.
Folhas: 5 externas; 5 internas e uma ao final do ramo
Frutos: 2 externos e 3 internos

figura 6

2º TIPO: SEM PONTO no cruzamento das hastes. Os ramos de louro têm 17 x 17 folhas e 7 x 7 frutos.
Folhas: 8 externas; 8 internas e uma ao final do ramo
Frutos: 3 externos e 4 internos

A identificação do carimbo, por tipo, deve ser feita sempre pelo anverso, bastando para tanto, verificar se existe ou não o ponto no cruzamento das hastes, entre o escudo e o valor 960. É muito difícil uma falha de cunho atingir o ponto, mas se isto acontecer, resta como alternativa recorrer ao número de folhas e de frutos.

1° Tipo: 11 x 11 folhas e 5 x 5 frutos

2° Tipo: 17 x 17 folhas e 7 x 7 frutos

Ainda é possível identificar os Carimbos de Minas por variantes. Esta classificação é feita através da combinação dos cunhos de reverso com os dois tipos de cunho de anverso e confirmada com a descrição completa dos carimbos.

O primeiro estudo sobre o assunto foi realizado pelo numismata Kurt Prober, em 1947 em seu trabalho intitulado “Carimbos de Minas”, onde a numeração que atribuiu aos carimbos com a finalidade de classificá-los por variantes, revela-nos uma minuciosa atenção aos detalhes particulares dos exemplares estudados. Com isso, conseguiu demonstrar, inclusive que os cunhos foram usados depois em barras de ouro, o que possibilitou a determinação do local de aplicação de grande parte dos carimbos.

Desta forma, Kurt Prober conseguiu associar às casas de fundição, diversas variantes de cunho, perfazendo um total de 20 cunhos de anverso e 19 cunhos de reverso. Sao estes:

· VILA RICA – 3 cunhos de anverso e 1 cunho de reverso

· SABARÁ – 1 cunho de anverso e 2 cunhos de reverso

· SERRO FRIO – 8 cunhos de anverso e 7 cunhos de reverso

· INDEFINIDOS – 8 cunhos de anverso e 9 cunhos de reverso

Como foram abertos 24 pares de cunhos, de acordo com o estudo realizado por Prober restavam desconhecidos 4 cunhos de anverso e 5 cunhos de reverso. Estranhamente, a conclusão nos conduz a 8 cunhos de anverso e 7 cunhos de reverso atribuídos a Serro Frio, quando na verdade a informação que temos é a de que cada casa de fundição deveria rceber 6 pares de cunho (anverso e reverso).

O numismata Nogueira da Gama publicou, em 1961, um trabalho minucioso onde catalogou as variantes dos Carimbos de Minas, classificando-as segundo um critério ao qual chamou de “fórmulas”. Em seu minucioso trabalho encontramos explicações detalhadas de seu método para classificação dos Carimbos de Minas.

Quase 3 anos depois, publicou um aditamento a este estudo (setembro de 1963), onde revela o surgimento de novas variantes, chegando a catalogar 22 anversos e 22 reversos. Classificando as variantes segundo o critério “COM PONTO” e “SEM PONTO” no cruzamento das hastes, combinou estes 22 cunhos de anverso com os 22 de reverso, chegando a um total de 44 variantes. Em outras palavras :

Anverso “COM PONTO” – associado com 22 cunhos de reverso.

Anverso “SEM PONTO” – associado com 22 cunhos de reverso.

Total: 44 variantes

Caso a classificação fosse feita seguindo o critério de combinar 24 cunhos de anverso com 24 cunhos de reverso e admitindo a hipotese de que todos poderiam combinar entre si, teriamos 576 variantes. Por isso, o critério adotado é mais lógico. Mesmo porque a possibilidade de todos se combinarem é muito remota, pois os 24 pares de cunhos não foram enviados todos ao mesmo local, impossibilitando a combinação plena. Mesmo assim, levando em conta que estes foram remetidos a quatro províncias e em mesmo número, poderíamos ter 6 anversos, cada um deles combinando com 6 reversos, o que possibilitaria 36 combinações diversas em cada província, chegando a um total de 144 variantes. Adotando-se o método de combinar 2 variações de anverso (com e sem ponto) com as variações de reverso e considerando que cada província recebeu 6 cunhos, teríamos 12 variantes , em cada província, perfazendo um total de 48 variantes, sendo 24 de anverso “COM PONTO” e 24 de anverso “SEM PONTO”.

Continuo em breve !
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