Moedas de Alexandre – Introdução

Bom ! Hoje inicio o meu primeiro trabalho hercúleo nesse blog; um estudo particular e minucioso sobre as moedas de Alexandre III (Ἀλέξανδρος Γ’ ὁ Μακεδών – Aléxandros trίtos ho Makedόn), também conhecido como Alexandre o Grande ou Alexandre Magno, Rei da Macedônia a partir de 336 a.C.

Após anos e anos estudando, lendo e me dedicando à biografia do grande estrategista militar, concluí que muito de sua vida ainda está coberto de mistério, e que muitas de suas biografias (são inúmeros os autores), na verdade são obras de autores com excasso conhecimento específico sobre o tema. Durante anos procurei comparar o que considero um estudo sério realizado por historiadores do passado, com as atuais publicações. Confrontando-as, consegui filtrar o que realmente pode ser levado a sério, daquilo que não deveria nem estar exposto à venda, por tratar-se de literatura ruim, muitas vezes desonesta.

Não pretendo escrever obra completa sobre assunto exaustivamente tratado por competentes historiadores. Seria por demais pretensioso (e por que não dizer, arrogante?) caso acreditasse poder inovar sobre o tema; e ingênuo demais por achar que poderia expor tudo nas páginas de um blog.

Todavia reconheço a necessidade de não ser pueril e superficial ao tratar de assunto de interesse geral e que tanta emoção e paixão desperta naqueles que, como eu, amam a história universal, os seus grandes personagens e, no nosso caso particular, a numismática.

Antes de iniciar, gostaria de salientar aos iniciantes que porventura acompanhem esse blog, dizendo que o nosso hobby é antes de tudo uma paixão; requer paciência, sobriedade, dedicação e muitas horas de exaustivo estudo. Sendo assim, peço paciência a todos, já que irei escrever enquanto compilo minhas notas e tudo que já escrevi a respeito do assunto. Em outras palavras: não pretendo terminar assunto tão complexo em um único post, mas sim em vários que irão se prolongar por semanas até a conclusão final.

Como já disse, não pretendo aqui fazer exame superficial sobre o assunto. Mas reconheço que seria humanamente impossível esmiuçá-lo à perfeição; nem mesmo o mais perfeccionista entre os perfeccionistas estaria capacitado a tal tarefa. Basta para tanto citar as incontáveis cunhagens e as numerosas Casas que cunharam “moedas de Alexandre” que, mesmo “armado” do Muller e do Price, por si só, já seria uma tarefa tremenda.

Mas vamos ao que interessa! Tentarei ser o mais preciso e lógico na argumentação. Para tal – e não poderia deixar de ser (mesmo porque estaria sendo intelectualmente desonesto comigo mesmo) – não irei me furtar de escrever algo sobre a biografia do grande “condotiero”; pelo menos o que considero fundamental ao estudo da “moedagem” de Alexandre; e também para dar ao leitor algo que não trate somente das moedas, como acontece em alguns poucos catálogos especializados. Afinal, a biografia de Alexandre, por si só, já é obra que desperta um grande interesse do público, amplia nosso universo cultural e nos ajuda a entender o presente, investigando o passado.

Nesse ponto, antes de iniciar, gostaria de receber críticas sinceras de outros autores e estudiosos do assunto enquanto escrevo. Acredito que esta seja a melhor forma de se aprender: debatendo pontos de vista diversos, o que será um privilégio para mim, antecipo. Peço também que me dêem um “toque”, caso esteja me aprofundando demais na parte histórica ou ao esmiuçar os pormenores das moedas me detendo mais o que o necessário, já que o assunto me desperta tanta paixão.

Historiografia.

Sobre Alexandre (Pella, 6 ecatombeone* 356 a.C. – Babilonia, 30 targelione* 323 a.C.), o Grande “Condotiero”, muito se tem escrito. São inúmeras as fontes literárias que mantém viva a memória do jovem e intrépido general, amado por muitos e odiado por tantos outros.

Dos clássicos gregos aos estudos sérios de Arriano, Plutarco, Diodoro, Quintus Curtius Rufus e Justino; das manipulações erroneamente atribuídas a Callistene – contemporâneo de Alexandre e historiador oficial da expedição na Pérsia – às inumeráveis reelaborações fantasiosas dos romancistas atuais, muita verdade, mas também muitas inverdades, foram ditas sobre o excepcional estrategista e conquistador.

O incauto leitor poderá se ver “entrapolado” por literaturas pueris e tendenciosas sobre o grande macedônico; muitas delas, lendas que falam de sua ascensão ao céu, do fascínio real e romântico de um personagem homossexual (é necessário entender o contexto da época, antes de levantar hipóteses fantasiosas que possam nos transportar ao conceito atual de homossexualidade) e de suas campanhas, além de dar vazão à sua pretensiosa divindade.
As fontes citadas, e que podemos usar como referência à vida de Alexandre não são contemporâneas à sua época. São, contudo, o resultado de pesquisas e consultas feitas por antigos historiadores que se basearam em obras hoje perdidas. O que temos hoje, na verdade, é o eco de um eco; e se muito nos leva a crer que sucedeu desta ou daquela forma, temos motivos mais do que justificáveis para excluir também muitas obras, principalmente aquelas de romancistas tendenciosos e desonestos com o público leitor.

Já admiti que não dispomos mais das obras de Callistene, de Ptolomeu Lágida, de Cristobulo, Nearco, Clitraco, Efippo e Onesicritus, o que dificulta bastante quem pretende empreender por essa estrada. Diante dos incontáveis estudos sobre a historiografia de Alexandre espalhados por diversas livrarias e fontes na internet, aconselho muita cautela. Os mistérios que ainda envolvem a vida e as campanhas de Alexandre exigem uma bibliografia específica. Dessa forma, para aqueles que desejam se aprofundar no tema, recomendo iniciar pela página dedicada às fontes fidedignas disponíveis sobre este grande personagem. O leitor poderá encontrá-la, como uma entre tantas sugestões, nas páginas do Birkbeck College, da Universidade de Londres, no seguinte endereço: Clique aqui para ter acesso ao Birkbeck College…pesquisando ou entrando em contato com o College, através de seu endereço e-mail. De qualquer forma, me comprometo em postar extensa bibliografia ao final do trabalho.

Boa leitura a todos !

Reis da Macedônia – Alexandre III ‘o Grande’ – 336-323 a.C. AV Stater (8,60 gr). Casa da Moeda de Byblos. Cunhada por volta no período de 330-320 a.C. Cabeça de Athena voltada à direita, portando elmo Ático decorado com serpente, pingente e colar / AΛEΞANΔPOY, Nike* (deusa grega da vitória) em pé, segurando coroa de flores na mão direita estendida; Monograma AP no campo à esquerda.

*Niké de Samotrácia (Νίκη em grego – deusa da vitória): A imponente estátua esculpida em mármore de Paro foi encontrada na Samotrácia, uma ilha no Mar Egeu, em 1863, sem braços e cabeça (uma das mãos só foi encontrada em 1950). A estátua representa a deusa alada, jovem filha de Zeus, que traz o anúncio de vitórias militares, enquanto posa na proa de um navio de guerra. Um fragmento de inscrição sob a base revelou que o monumento foi dedicado aos habitantes de Rodes. A estátua de 2,45m encontra-se hoje no Museu do Louvre. À esquerda, a privilegiada posição dada à estátua da deusa no Louvre, mostrando o fascínio que essa cultura ainda desperta nas pessoas nos dias atuais. À direita, um detalhe ampliado. Clique na foto para ampliar.

Nessa foto vê-se, nitidamente, o detalhe da proa de uma embarcação, onde Nike posava anunciando as vitórias em batalhas.

*obs: Todas as palavras que contém asterisco serão tratadas em glossário ou em pé de página.

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A Grécia e o Reino da Macedônia.


Tendo se livrado dos persas com as batalhas de Platéia* e Mycale (479 aC), os gregos começaram uma longa série de conflitos pela hegemonia da região, sem jamais esquecerem o insulto, o ultraje que lhes foi imposto por Xerxes, e a perda das cidades gregas da Jônia.

A tentativa espartana de intrometer-se na disputa entre Ataxerxes e Ciro Menor em 400 a.C. se concluiu com a derrota de Ciro e com a retirada dos gregos e seus aliados sob o comando de Xenofonte que narrou o cansativo retorno das tropas em sua obra maior , a “Anabasi”. A sucessiva expedição de Agesilau II (306 a.C.) na Ásia Menor se concluiu somente dois anos mais tarde com o retorno ao Peloponeso, onde outras cidades se moviam contra Esparta, aproveitando-se da ausência do Rei.

As cidades gregas continuaram seu combate pela hegemonia do território, até o momento em que surge a figura de Filipe III, Rei dos Macedônios que propôs a idéia de um ataque à Pérsia.

*A batalha de Platéia de 20 de agosto de 479 a.C., com a morte do comandante em chefe persa Mardônio e a derrota imposta ao seu exército diante das tropas elênicas sob o comando de Pausânia, estabelece o fim das invasões persas na Grécia.

Precedentemente à essa batalha, a sorte do conflito foi marcada pela breve e espetacular resistência das forças do rei espartano Leônidas nas costas das Termópolis (11 de agosto de 480 a.C.) e no mar, por duas batalhas navais, a de Campo Artemísio (agosto de 480 a.C.) e sobretudo a batalha de Salamina (setembro de 480 a.C).

*A Batalha de Mycale, foi uma das duas grandes batalhas que puseram fim à invasão dos persas na Grécia. A batalha ocorreu em torno a 27 de agosto de 479 a.C. nas encostas do Monte Mycale, no território da Jônia, em frente à ilha de Samos. Esta batalha levou à destruição da maioria das forças persas na Jônia, bem como da sua frota no Mediterrâneo.
Essa, mais a batalha de Platéia, praticamente no mesmo dia, no continente grego, decretaram a derrota das forças dos persas, que foram obrigados a se retirar, colocando um fim definitivo ao domínio persa na região.
O conhecimento dessas duas batalhas, com todos os seus pormenores, chegaram a nós graças às narrativas do historiador grego Heródoto de Halicarnasso.

A coalizão grega reuniu um exército de cerca 110.000 homens, consistindo de 38.700 Hóplitas e 71.300 de infantaria leve, acrescidos de 1.800 homens de Téspias. Segundo o relato de Heródoto, os hoplitas tinham origem em diversas cidades-estado.

Moderna reconstrução de uma falange*. Os Hóplitas, exceção feita àqueles espartanos, não formavam um grupo homogêneo. Cada soldado usava seus próprios ornamentos, decorando sua armadura com as suas próprias cores.

Figura: À esquerda, Hóplita grego (coríntio) e à direita, Hóplita espartano.

*A falange era uma antiga formação de combate, composta por infantaria pesada com soldados empunhando lanças, piques e escudos (ou armas semelhantes). A falange era típica do mundo grego e helenístico, mas também foi adotada por outros povos como os etruscos. Foi Filipe II, pai de Alexandre a introduzir as sarissas (lança muito longa, com até 7 metros de comprimento) em seu exército, criando as temidas “falanges macedônicas”

Falange macedônica, criada por Filipe II, em formação de combate.


Figura: Três visões do que poderia corresponder ao vulto de Filipe II da Macedônia, pai de Alexandre. A primeira à esquerda, é uma reconstrução feita pela Universidade de Manchester. A segunda (provavelmente a que mais se aproxima do verdadeiro semblante do Rei macedônio), é um achado arqueológico. De reduzidíssima dimensão, este pequeno busto em terracota é o que os arqueólogos de hoje consideram a imagem que mais se aproxima do verdadeiro vulto de Filipe II. Á época também encontraram um outro busto, de mesma dimensão, refigurando Alexandre, o que o leitor pode constatar na figura a seguir.

Pequenos bustos encontrados por arqueólogos, refigurando Filipe (à esquerda) e seu filho Alexandre (à direita). Estudiosos garantem que estas figuras são as que mais se aproximam do verdadeiro semblantes destes dois grandes personagens históricos.

Artefatos arqueológicos encontrados em ruínas na Macedônia, juntamente com os dois pequenos bustos que refiguram Alexandre e seu pai Flilipe II.

O verdadeiro vulto de Alexandre. Esse busto é a única imagem autêntica do que seria o rosto de Alexandre aos 19 anos, p0rovavelmente em torno à época em que seu pai foi assassinado em Vergina. Todas as outras imagens encontradas, são cópias e resultados de interpretações românticas do semblante do grande condotiero.

A mesma imagem, agora ampliada.

Anverso de medalhão com a provável efígie de Felipe II da Macedônia, pai de Alexandre, o Grande.

Reis da Macedônia – Filipe II – 359-336 a.C. AV Stater (8,62 g). Casa da Moeda de Pella. Cunhada em torno a  340/36-328 a.C. Cabeça de Apolo voltada à direita, usando coroa de louros / ΦIΛIΠΠOY, Biga em condução, voltada à direita, rédeas na mão esquerda. Extremely fine. Negociada em leilão. Valor final: US$ 4.500.

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