Viscondessa de Cavalcanti. Uma dama entre os numismatas.

viscondessa[2]Recentemente adquiri, do amigo e numismata Alberto Paashaus, um raríssimo exemplar do “Catalogo das Medalhas Brazileiras e das Estrangeiras Referentes ao Brazil” de autoria da Viscondessa de Cavalcanti. Editado em Paris em 1910, esta raridade teve tiragem de apenas 100 exemplares numerados.

Infelizmente, na numismática brasileira, os colecionadores ainda não se habituaram a investir parte das economias que destinam ao seu hobby, em livros bons e raros (e são tantos dando “sopa” por aí).
Devido a este descaso, muitas raridades são encontradas em feiras ou com particulares, a preços bem reduzidos. Não que estas pessoas desconheçam o valor destas obras, mas sim devido ao desinteresse dos numismatas brasileiros em adquiri-los. Para se ter uma idéia, há pouco tempo, na casa de leilões Spink, existia um exemplar desta raridade (o catálogo de medalhas da Viscondessa) à venda por 1.600 libras, o equivalente a 2.500 dólares. Algum tempo depois, procurando por este exemplar, soube que havia sido vendido, mostrando que ainda são os estrangeiros a dar mais valor à nossa história do que nós mesmos.

Mas não seria “Visconde de Cavalcanti” ao invés de “Viscondessa”, o autor desta obra, alguns se perguntariam ?

Surpreendente, não ?

Uma mulher dedicar-se com amor e paixão a um hobby em que a esmagadora maioria são do sexo masculino é, no mínimo, de chamar a atenção.

Um equívoco ?

Certamente não ! E tem mais: Não imaginem que se tratasse de uma mulher de excassos dotes físicos ou uma senhora atordoada por uma desilusão amorosa. Muito pelo contrário, era belíssima, extremamente inteligente, altruísta e muito bem casada.

E é justamente o que poderemos constatar com o texto a seguir, extraído do site do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo, instituição da qual a própria Viscondessa foi membro ativo, prestando relevantes serviços à comunidade geográfica e histórica, bem como à ciência auxiliar da história, a numismática.

Viscondessa de Cavalcanti, 1852 – 1946

D.Amélia Machado de Coelho e Castro nasceu no Rio de Janeiro, filha do Dr. Constantino Machado Coelho de Castro e de D. Mariana Barbosa de Assis Machado. Foi a sexta mulher a ingressar no Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo, em 5 de agosto de 1905, após Marie Rennotte (1901), Mary Robinson Wright (1901) Júlia Lopes de Almeida (1902), Veridiana Valéria da Silva Prado (1902) e Ibrantina Cardona (1905).

Célebre por sua beleza e elegância, D. Amélia foi considerada uma das mais notáveis damas da corte no segundo reinado. Um fato pitoresco, que lhe diz respeito, envolveu o nome de Pedro Luiz Pereira de Sousa, poeta, jornalista e político de muito prestígio no Rio de Janeiro. Conta-se que, numa recepção no Palácio Isabel, Pedro Luiz valsava com Amélia, futura Viscondessa de Cavalcanti, quando, inesperadamente, entrou na Salão Nobre o Imperador D.Pedro II. Na vertigem da valsa e encantado com sua parceira, Pedro Luiz fingiu não ter visto D. Pedro II, tendo acenado à orquestra para que continuasse a tocar, fato que não passou despercebido ao Imperador. Meses depois, o nome do jornalista e político foi lembrado para ocupar importante cargo, tendo sido imediatamente vetado pelo monarca com esta frase irônica: “O Pedro Luiz é um homem que ainda valsa”. Pedro Luíz era parente de Washington Luíz, último presidente da República Velha.

Amélia casou-se com o senador Diogo Velho Cavalcanti de Albuquerque (1829 – 1899), filho de Diogo Velho Cavalcanti de Albuquerque e de Angela Sophia Cavalcanti Pessoa. Bacharel em Direito pela Faculdade de Direito de Olinda, Diogo Velho foi deputado provincial, deputado geral, Senador do Império pelo Rio Grande do Norte e Ministro de Estado, tendo sido agraciado com várias comendas. Pelos serviços prestados ao Império, D. Pedro II concedeu-lhe o título de “Visconde com honras de grandeza”, por decreto imperial de 30 de maio de 1888. Os Viscondes de Cavalcanti, Diogo e Amélia, foram co-proprietários do engenho Baixa Verde, Comarca de Nazaré da Mata, em Pernambuco, tendo vendido parte dessas terras a “The Great Western Co. of Brazil Ltda. “, necessária à construção da estrada de ferro Nazaré-Timbaúba.

“Tudo ajudava àquele casal para o sucesso social que o assinalava, desde a inteligência do futuro Visconde às finas graças e formosura de D. Amélia Cavalcanti… O grande fulgor do Salão da Viscondessa de Cavalcanti durou de 1875 a 1878, período em que seu marido foi Ministro, mas, depois disso, continuou a ser um dos mais elegantes centros da alta sociedade do Rio, às quintas e aos domingos”.

Na fase final da Monarquia, em 1889, às vésperas da República, com o intuito de prestar homenagem à dedicação e lealdade de Diogo Velho, D. Pedro II nomeou-o Comissário do Brasil junto à Exposição Universal em Paris. Estabelecido o regime republicano, os Viscondes preferiram permanecer na França. O advento da República interrompeu, assim, a carreira de um homem de Estado que, aos cinqüenta anos, já havia ocupado os mais importantes cargos político – administrativos no Brasil, e que teve o comovente mérito de jamais abandonar seu amigo, o Imperador destronado.

Ao adoecer, com grave prognóstico, o Visconde expressou o desejo de regressar ao Brasil, tendo falecido em Juiz de Fora, Minas Gerais, em junho de 1899. Pouco se disse dele na época, apenas algumas sentidas orações fúnebres por parte daqueles que tiveram o privilégio de privar de sua intimidade. Convinha à conspiração republicana e aos adeptos do sistema vigente apagar a memória desse grande estadista da monarquia. Viúva, a Viscondessa decidiu voltar para a França, onde residiu durante 26 anos.

Catálogo de Medalhas

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Figura: O exemplar, em excelente estado de conservação (folhas duplas coladas, o que indica sem uso), que adquiri do amigo Paashaus (somente amigos te fazem bons preços por algo realmente bom)

Em 1889, a Viscondessa de Cavalcanti publicou no Rio de Janeiro, o “Catálogo das Medalhas Brasileiras e das Estrangeiras Referentes ao Brasil”, de sua coleção particular. Foram impressos 25 exemplares, 5 em papel Japão e 20 em papel de Holanda. Essa rara publicação descreve 115 medalhas, cujas datas vão de 1596 a 1888. Em 1910, uma segunda edição aumentada e ilustrada, com tiragem de 100 exemplares, foi publicada em Paris. Nela, descrevem-se 294 medalhas, com datas de 1596 a 1903, incluindo-se o período do Brasil República. Lê-se na segunda edição:

“Les médailles ne sont pas seulement des objects d’art, ce sont aussi des monuments historiques. Les événements y sont marqués plus sûrement que dans les livres, et leur témoignage, sans être irrécusable, est plus naif et plus authentique, plus sûr que celui de l’histoire parce qu’il ne faut qu’un instant et un trait de plume pour écrire une erreur ou un mensonge, tandis qu´íl en coûte tant de peines et de jours pour les modeler et les fondre, encore pour les graver! Chaque medaille est un abrégé de la petite histoire écrite en marge de la grande, et qui est celle des individualités marquantes dont les traits sont désormais transmis à la posterité par la main du sculpteur ou du graveur (Charles Blanc)”.

As medalhas estão descritas em termos dos seguintes períodos históricos: Brasil Colonial, Ocupação Holandesa; Brasil Colonial, Domínio Português; Brasil Império, Primeiro Reinado – D. Pedro I; Segundo Reinado – D. Pedro II; Brasil República, este incluído na segunda edição. Algumas classificações apresentam subtítulos temáticos.

As medalhas da coleção

É interessante mencionar as duas medalhas mais antigas da coleção da Viscondessa, referentes ao Brasil Colonial durante a ocupação holandesa, cunhadas no ano de 1596. Trata-se da “SIDERE PROFICIANT DEXTRO NEPTUNIA REGNA”, a qual diz respeito às expedições comerciais dos holandeses. Em guerra contra o rei da Espanha e Portugal, estes organizaram uma expedição marítima à América portuguesa para fazer um carregamento de pau brasil, com conivência de portugueses da Colonia, que desconsideraram as severas ordens do Reino. Nesse mesmo ano, a “NUNC SPE NUNC METU” comemorou a esquipação da primeira frota holandesa destinada ao Brasil.

A Viscondessa possuía, também, a primeira medalha referente ao Brasil Colonial, no domínio português. Trata-se da “RENÉ DUGUAY-TROUIN”, cujo nome relaciona-se à história do Brasil, pela expedição realizada ao Rio de Janeiro. Perpetua a memória de sete naus de guerra, oito fragatas e dos 5.684 homens que conquistaram a cidade em 1711.

As medalhas sobre Portugal começaram a surgir a partir do ano de 1800. Em nota de rodapé, no Catálogo, menciona-se o nome de Zeferino Ferrez, como a primeira pessoa a introduzir a gravura de medalhas no Brasil, em 1820.

A propósito dos valiosos catálogos publicados pela Viscondessa, no volume XV da Revista do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo, 1910, pág. 455, lê-se: “ A Exma. Sra. Viscondessa de Cavalcanti ofereceu sua obra em dois volumes sob o título Catálogo de Medalhas Brasileiras…” Infelizmente, os dois volumes oferecidos pela Viscondessa ao Instituto não foram encontrados.


Museu Mariano Procópio

Sala Viscondessa de Cavalcanti

O Museu Mariano Procópio, em Juiz de Fora, o primeiro a ser criado em Minas Gerais, marco de pioneirismo da cidade, é obra de Alfredo Ferreira Lage (1865-1944). Primo de Amélia Cavalcanti, Alfredo era filho de Mariano Procópio Ferreira Lage, construtor da primeira estrada de rodagem macadamizada no Brasil, no período de 1856 a 1861, ligando Juiz de Fora a Petrópolis.

A Sala da Viscondessa de Cavalcanti, nesse Museu, possui 95 peças. Da coleção doada, fazem parte moedas greco-romanas com a efígie do imperador Júlio César e raros exemplares de medalhas cunhadas na Europa, referentes à ocupação holandesa na Bahia, em 1624, e em Pernambuco em 1631. Os principais acontecimentos no Brasil – com destaque para os períodos colonial e imperial – estão retratados em moedas e medalhas, cunhadas em ouro, prata e bronze, nessa magnífica coleção. São peças referentes à aclamação de Dom João VI, como rei de Portugal, Brasil e Algarves (1820), à chegada de Dona Leopoldina, arquiduquesa da Áustria, ao Brasil (1817), e à coroação de Dom Pedro II (1841).

Além das medalhas que pertenceram à Viscondessa, encontra – se nessa sala um curioso objeto pessoal. Trata-se de um leque, de madeira e papel, com 102 cm de abertura por 35 cm de raio, contendo 69 mensagens escritas por personalidades brasileiras e estrangeiras durante um período de 55 anos. O primeiro a assinar esse leque foi Dom Pedro II, em 1890. Nele se encontram mensagens da Princesa Isabel, de Tommaso Salvini, Carlos Gomes, Alberto Santos Dumond, Alexandre Dumas Filho, Machado de Assis, Eça de Queiroz, Getúlio Vargas e outros. A Viscondessa assinou seu leque em 1945, um ano antes de sua morte. Devidamente protegido, o leque permite observar as assinaturas em ambos os lados.


Museu Nacional de Belas Artes

O riquíssimo acervo do Museu Nacional de Belas Artes originou-se da pequena coleção de 54 telas, trazidas para o Brasil pela Missão Artística Francesa, em 1816, às quais logo se acrescentaram outras obras de propriedade do Dom João VI. A coleção compõem-se primordialmente de pinturas brasileiras do século XIX e início do século XX., muito embora haja, também, uma pequena, mas representativa, coleção de pintura estrangeira, com quadros da Escola Barroca italiana e telas de Eugène Boudin.

O conjunto de pintura brasileira reúne obras de Rodolfo Amoedo, Antonio da Silva Parreiras, Víctor Meireles, Henrique Bernardelli, Eliseu Visconti, Dario Vilares Barbosa, João Zeferino da Costa, Pedro Américo, Décio Vilares e Almeida Júnior. Aí se encontram obras-primas, como O Último Tamoio, de Amoedo, Primeira Missa no Brasil e Batalha de Guararapes, de Meireles, Maternidade, de Bernardelli, Gioventù, de Visconti, Óbulo da Viúva, de João Zeferino da Costa, e A Batalha do Avaí, de Pedro Américo.

Nesse Museu, encontra-se o retrato da Viscondessa de Cavalcanti, pintado por Léon Bonnat (1833-1922), em 1889, e doado no ano de 1926.

O Instituto Histórico e Geográfico Paraíbano possui retratos a óleo da Viscondessa de Cavalcanti e de seu marido, ambos da autoria de Labatut, os quais haviam pertencido anteriormente à D. Virgínia Cavalcanti de Albuquerque, irmã do Visconde.

Este breve relato mostra alguns fatos relevantes da vida de Amélia Machado de Coelho e Castro, cuja presença marcou profundamente a sociedade brasileira pelo seu vivíssimo talento, por sua beleza e generosidade. Estrela que não se apaga, a Viscondessa de Cavalcanti merece ser lembrada pelo muito que fez pela cultura de nosso País.

A Snra. Viscondessa de Cavalcanti não cedeu nunca
de seu império de distinção, elegância e formosura.
E, ainda hoje, é pena que apareça tão pouco,
porque reinaria ainda.

Wanderley Pinho, 1942

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As contramarcas de 960 Réis

A mudança da família real e da Corte portuguesa para o Brasil foi conseqüência da situação européia no início do século XIX. Naquela época, a Europa estava inteiramente dominada pelo imperador dos franceses, Napoleão Bonaparte. Com sua política expansionista, ele submetera a maior parte dos países europeus à dominação francesa. O principal inimigo de Napoleão era a Inglaterra, cuja poderosa armada o imperador não pudera subjugar.

Em 1806, Napoleão decretou o Bloqueio Continental, obrigando todas as nações da Europa continental a fecharem seus portos ao comércio inglês. Com essa medida, Napoleão pretendia enfraquecer a Inglaterra, privando-a de seus mercados consumidores e de suas fontes de abastecimento. Nessa época, Portugal era governado pelo Príncipe Regente Dom João, pois sua mãe, a Rainha Dona Maria I, sofria das faculdades mentais.

Pressionado por Napoleão, que exigia o fechamento dos portos portugueses ao comércio inglês, e ao mesmo tempo pretendendo manter as relações com a Inglaterra, Dom João tentou adiar o mais que pôde uma decisão definitiva sobre o assunto.

Se aderisse ao Bloqueio Continental, Portugal ficaria em condições extremamente difíceis, porque a economia portuguesa dependia basicamente da Inglaterra. Os ingleses eram os maiores fornecedores dos produtos manufaturados consumidos em Portugal e também os maiores compradores das mercadorias portuguesas e brasileiras. A Inglaterra, por sua vez, também não queria perder seu velho aliado, principalmente porque o Brasil representava um excelente mercado consumidor de seus produtos.

Para resolver a situação de acordo com os interesses de seu país, o embaixador inglês em Lisboa, Lorde Percy Clinton Smith, Visconte de Strangford, conseguiu convencer Dom João a transferir-se com sua Corte para o Brasil. Desse modo, os ingleses garantiam o acesso ao mercado consumidor brasileiro.

A transferência da Corte era uma boa solução também para a família real, pois evitava a deposição da dinastia de Bragança pelas forças napoleônicas.

O Tratado de Fontainebleau, estabelecido entre a França e a Espanha em outubro de 1807, apressou a decisão do Príncipe Regente Dom João a abandonar a metrópole. Por aquele tratado, Portugal e suas colônias, inclusive o Brasil, seriam repartidos entre a França e a Espanha. No dia 29 de novembro, Dom João e sua família, acompanhados por um séquito de 15.000 pessoas, partiram para o Brasil. No dia seguinte, as tropas francesas do general Junot invadiram Lisboa.

Quatro navios britânicos escoltaram as embarcações portuguesas até o Brasil; parte da esquadra portuguesa aportou na Bahia e parte no Rio de Janeiro.

A chegada de Dom João à Bahia, onde ficou pouco mais de um mês, ocorreu em 22 de janeiro de 1808. Teve início, então, uma nova História do Brasil, pois a colônia foi a grande beneficiada com a transferência da Corte. A presença da administração real criou, pouco a pouco, condições para a futura emancipação política da colônia. Da Bahia, Dom João seguiu para o Rio de Janeiro. Ali, o alojamento da numerosa comitiva do príncipe causou grandes problemas. As melhores residências da cidade foram requisitadas para os altos funcionários da Corte, não sendo poucas as pessoas despejadas de suas casas para hospedar os recém-chegados.

O Brasil ainda era uma colônia quando a Família Real desembarcou na Bahia, depois de quase 2 meses de exaustiva viagem. Esta chegada repentina de cerca 15.000 pessoas acostumadas com o luxo e o conforto da corte portuguesa, causou um aumento inesperado nas despesas da Colônia, agravando a já difícil situação em que se encontrava o Tesouro Real.

Nessa época circulavam livremente no Brasil, toda sorte de moedas estrangeiras, em sua grande maioria as Européias e as Hispano-Americanas de 8 reales que circulavam ao valor de 750 réis.

Quando D. João Príncipe Regente chegou ao Brasil no ano de 1808, circulavam no país, legalmente, moedas de ouro, prata e cobre. Entre as moedas de prata oficiais, circulavam os 80, 160, 320 e 640 Réis(*¹).

Também circulavam nessa época, uma grande variedade de moedas estrangeiras de prata. Essas moedas que circulavam livremente, eram originárias da Espanha e de suas colônias americanas (Bolívia, Peru, Chile, Argentina, México e Guatemala) e possuíam um diâmetro que variava de 37 a 42 mm.

Pesavam em torno de 27 gramas e o seu teor de prata era, em geral, de 896 a 917 partes por 1000. Conhecidas como Pesos Espanhóis, as moedas hispano-americanas e metropolitanas de 8 Reales circulavam valendo de 320 Réis a princípio, a 750 Réis quando foi proibida a sua circulação pelo Alvará de 01 de Setembro de 1808 Réis(*²) .

A partir desta data, a Coroa determinou que os 8 Reales fossem recolhidos e com o Aviso de 9 de novembro de 1808 ordenou que fossem enviados às 4 casas de fundição de MINAS GERAIS (Vila Rica, Sabará, Serro Frio e Rio das Mortes), 24 pares de cunhos com as Armas Reais para a carimbagem dos Pesos Espanhóis, divididos em 6 pares para cada uma das 4 casas de fundição. Foram enviados inicialmente (novembro de 1808) 70.137 pesos à Junta de Fazenda de Minas Gerais que depois de carimbados, deveriam ser empregados no resgate dos outros cuja circulação havia sido proibida.

Em junho de 1809 houve autorização para compra de 100.000 pesos, ao preço unitário de 800 réis, para serem remetidos às províncias de Goiás, Mato Grosso e São Paulo para que nestes locais fossem aplicadas as determinações do Alvará de outubro de 1808, o que indica que, provavelmete, a carimbagem não se restringiu apenas à província de Minas Gerais. O “Carimbo de Minas” tinha o carater de moeda regional, devendo circular exclusivamente na Provincia de Minas Gerais e nao se sabe, com certeza, se houve remessa de pesos ou de cunhos para outras províncias.

Surgia assim a contramarca bifacial e circular, de aproximadamente 17mm de diâmetro, e limitada por uma cercadura de traços radiais, tendo no anverso o escudo português encimado pela Coroa Real arrematada por cruz latina singela, ladeado por dois ramos frutificados de louro que se cruzam na parte inferior onde, sob o cruzamento dos ramos, lê-se o valor 960 .

Anverso e reverso da contramarca de 960 Réis, batida nos pesos hispano-americanos.

Em novembro de 1809 foi criada a moeda de “três patacas” ou “patacão” (960 réis), pondo-se fim à aplicação da contramarca nos pesos espanhóis.

Desta forma, podemos concluir que, desde a sua instituição em outubro de 1808 (partindo da remessa de cunhos em novembro do mesmo ano) até a criação da moeda de “ três patacas “, a aplicação da contramarca de 960 réis, mais conhecida como Carimbo de Minas, foi limitada ao período de novembro de 1808 a dezembro de 1809 (praticamente, um ano).

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Carimbo de Minas: Esta é a forma inicial dos 960 réis.

(*1) – Os 20 e 40 réis de prata haviam sido extintos, prevalecendo as moedas de cobre com estes valores.

(*2) – Manoel Jacinto Nogueira da Gama, escrivão deputado da Junta da Fazenda e futuro Marquês de Baependi, em princípios de 1808, em ofício que dirigiu ao Ministro Dom Rodrigo de Souza Coutinho, Conde de Linhares, sugeriu a “… aplicação de um carimbo nos pesos espanhóis “, com o valor de 960 réis. A idéia foi bem aceita, tendo sido determinada a sua execução por Alvará de 1° de setembro de 1808.

Um novo Alvará, com data de 8 de outubro do mesmo ano, determinava que em Minas Gerais não circulassem mais os pesos espanhóis sem a contra-marca e que nem mesmo fossem negociados como gênero de comércio. A partir de então, os pesos marcados com o carimbo de 960 réis passaram a circular como moeda provincial.

(*3) – Pataca: Dizem alguns autores ser esta palavra derivada do árabe “ABUTACA”. Nesse idioma ela se apresenta como  “PATAC“. Como “PATARD ou PATAR”, foi pequena moeda de cobre tendo curso em Flandres e na França, onde se empregou como sinônimo de “óbulo” para designar uma moeda sem valor. Alguns numismatas franceses dizem que  PATAR  pode ser uma corrupção de Peter, forma alemã de Pedro, porque o PATAR de Flandres tem sobre uma das faces a imagem do santo desse nome. Hoffman no seu livro das moedas reais da França até Louis XVI, descreve dois interessantes “PATARDS” de Louis XI ( 1461-1583 ).

No Brasil, a palavra PATACA foi usada para caracterizar a moeda espanhola de 8 reales que a príncipio valia 320 réis. Ficou depois, no sistema provincial, como denominação da peça desse valor. ( Ensaios de Numismática e Ourivessaria – Mário Barata ).

Pataca: Moeda brasileira de prata com o valor circulatório de 320 réis ( Glossário Numismático – Kurt Prober )

Patacão: Moeda portuguesa de cobre ( 10 réis ) de D. João II. Nome popular e mesmo oficial dado no Brasil à moeda de prata de 960 réis. Equivale a 3 patacas. ( Glossário Numismático – Kurt Prober ).

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O Carimbo

É bi-facial, circular, tendo aproximadamente 17 mm de diâmetro, limitado por uma cercadura de traço s radiais. Era aplicado de modo a que ANVERSO e REVERSO do carimbo correspondessem ao ANVERSO e REVERSO da moeda espanhola. Vinha geralmente aplicado na metade inferior desta, permitindo, na grande maioria dos casos, a leitura da data primitiva da moeda que recebia o carimbo.

Por haverem sido contramarcadas pela primeira vez nas casas de fundição de Minas Gerais, essas moedas são hoje conhecidas como  “CARIMBOS DE MINAS”.

ANVERSO DO CARIMBO: Escudo português, encimado pela coroa real arrematada por cruz latina singela, ladeado por dois ramos frutificados de louro que se cruzam na parte inferior. No exergo, sob o cruzamento dos ramos, aparece o valor 960. 

figura 3Anverso de carimbo de Minas Neste detalhe ampliado vê-se, nitidamente, a esfera armilar  com o valor 960.

REVERSO DO CARIMBO: Esfera armilar encimada por cruz latina singela e arrematada por um “pé”. Em média o diâmetro da esfera é de 11,5 mm havendo, ao seu redor, um largo campo liso. Quanto à posição, podemos dizer que o REVERSO é intencionalmente “direito”, embora seja frequente encontrá-lo com pequena inclinação. 

img06Reverso de carimbo de Minas
Ampliação que possibilita visualizar, com relativa nitidez detalhes importantes, como   o zodíaco e o equador. 

 img071 Moeda hispano-americana de 8 Reales Santiagosem contramarca de 960 Réis.

img081Moeda Hispano-americana de  8 Reales  Santiago com  contramarca de 960 Réis.

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TIPOS DE CARIMBOS

Existem dois tipos de carimbos. Esta classificação é baseada no cunho de anverso do carimbo, basicamente caracterizado por um ponto ( ou a ausência deste ) no cruzamento das hastes dos ramos que se encontram logo acima do valor 960.

figura 5

1° TIPO: Com ponto no cruzamento das hastes. Os ramos de louro têm 11 x 11 folhas e 5 x 5 frutos.
Folhas: 5 externas; 5 internas e uma ao final do ramo
Frutos: 2 externos e 3 internos

figura 6

2º TIPO: SEM PONTO no cruzamento das hastes. Os ramos de louro têm 17 x 17 folhas e 7 x 7 frutos.
Folhas: 8 externas; 8 internas e uma ao final do ramo
Frutos: 3 externos e 4 internos

A identificação do carimbo, por tipo, deve ser feita sempre pelo anverso, bastando para tanto, verificar se existe ou não o ponto no cruzamento das hastes, entre o escudo e o valor 960. É muito difícil uma falha de cunho atingir o ponto, mas se isto acontecer, resta como alternativa recorrer ao número de folhas e de frutos.

1° Tipo: 11 x 11 folhas e 5 x 5 frutos

2° Tipo: 17 x 17 folhas e 7 x 7 frutos

Ainda é possível identificar os Carimbos de Minas por variantes. Esta classificação é feita através da combinação dos cunhos de reverso com os dois tipos de cunho de anverso e confirmada com a descrição completa dos carimbos.

O primeiro estudo sobre o assunto foi realizado pelo numismata Kurt Prober, em 1947 em seu trabalho intitulado “Carimbos de Minas”, onde a numeração que atribuiu aos carimbos com a finalidade de classificá-los por variantes, revela-nos uma minuciosa atenção aos detalhes particulares dos exemplares estudados. Com isso, conseguiu demonstrar, inclusive que os cunhos foram usados depois em barras de ouro, o que possibilitou a determinação do local de aplicação de grande parte dos carimbos.

Desta forma, Kurt Prober conseguiu associar às casas de fundição, diversas variantes de cunho, perfazendo um total de 20 cunhos de anverso e 19 cunhos de reverso. Sao estes:

·         VILA RICA       – 3 cunhos de anverso e 1 cunho de reverso

·         SABARÁ           – 1 cunho de anverso e 2 cunhos de reverso

·         SERRO FRIO    – 8 cunhos de anverso e 7 cunhos de reverso

·         INDEFINIDOS – 8 cunhos de anverso e 9 cunhos de reverso

Como foram abertos 24 pares de cunhos, de acordo com o estudo realizado por Prober restavam desconhecidos 4 cunhos de anverso e 5 cunhos de reverso. Estranhamente, a conclusão nos conduz a 8 cunhos de anverso e 7 cunhos de reverso atribuídos a Serro Frio, quando na verdade a informação que temos é a de que cada casa de fundição deveria rceber 6 pares de cunho (anverso e reverso).

O numismata Nogueira da Gama publicou, em 1961, um trabalho minucioso onde catalogou as variantes  dos Carimbos de Minas, classificando-as segundo um critério ao qual chamou de “fórmulas”. Em seu minucioso trabalho encontramos explicações detalhadas de seu método para classificação dos Carimbos de Minas.

Quase 3 anos depois, publicou um aditamento a este estudo (setembro de 1963), onde revela o surgimento de novas variantes, chegando a catalogar 22 anversos e 22 reversos.  Classificando as variantes segundo o critério  “COM PONTO” e “SEM PONTO” no cruzamento das hastes, combinou estes 22 cunhos de anverso com os 22 de reverso, chegando a um total de 44 variantes. Em outras palavras :

Anverso “COM PONTO” – associado com 22 cunhos de reverso.

Anverso “SEM PONTO”  – associado com 22 cunhos de reverso.

Total: 44 variantes

Caso a classificação fosse feita seguindo o critério de combinar 24 cunhos de anverso com 24 cunhos de reverso e admitindo a hipotese de que todos poderiam combinar entre si, teriamos 576 variantes. Por isso, o critério adotado é mais lógico. Mesmo porque a possibilidade de todos se combinarem é muito remota, pois os 24 pares de cunhos não foram enviados todos ao mesmo local, impossibilitando a combinação plena. Mesmo assim, levando em conta que estes foram remetidos a quatro províncias e em mesmo número, poderíamos ter 6 anversos, cada um deles combinando com 6 reversos, o que possibilitaria 36 combinações diversas em cada província, chegando a um total de 144 variantes. Adotando-se o método de combinar 2 variações de anverso (com e sem ponto) com as variações de reverso e considerando que cada província recebeu 6 cunhos, teríamos 12 variantes , em cada província, perfazendo um total de 48 variantes, sendo 24 de anverso “COM PONTO” e 24 de anverso “SEM PONTO”.

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Reconhecendo a moeda base

Apesar do Brasil ter sido “descoberto” em 1500, sua colonização só teve início em 1530. Na época do descobrimento, Portugal nutria um maior interesse econômico no lucrativo comércio com as Índias. Porém as mercadorias trazidas desta região foram, com o tempo, se tornando tão comuns na Europa que seus preços começaram a descer a níveis muito baixos, fato que passou a se refletir em prejuízos para a Coroa Portuguesa. Na época o rei de Portugal era D. João III, que sucedera a D. Manuel no ano de 1521. O objetivo principal de D. João passou a ser, então, o de explorar sua colônia recém-descoberta na América, com o objetivo de compensar o que não obtinha mais com o comércio com o oriente.

Assim que iniciou o período colonial ( e mesmo antes deste ), o comércio nas terras descobertas era realizado por meio de trocas e as moedas que circulavam eram aquelas trazidas por colonizadores, invasores, piratas e outros bandidos que comercializavam na costa brasileira. Ao lado das moedas portuguesas, circulavam, também, moedas de diversas nacionalidades ( espanholas, inglesas, francesas, etc ) onde o valor intrínseco da moeda estabelecia a equivalência comercial. 

Os pesos hispano-americanos (cunhados nas colonias espanholas) e os metropolitanos (cunhados na Espanha) que foram contra-marcados com o “ Carimbo de Minas “, são moedas de prata de valor nominativo 8 reales (8R), possuindo um diâmetro de 42 mm em média (na verdade variavam entre 37 e 42 mm) e peso oficial igual a 7,5 oitavas, o equivalente a 26,894 gramas (aproximadamente 27 gramas). O teor de prata pura dessas moedas girava entre 896 e 917 partes por 1000 e eram cunhadas tanto na Espanha, quanto em suas colônias americanas (a chamada américa espanhola).

Um dos fatores que irá determinar o grau de raridade dos “carimbos de Minas” é justamente a base em que as contramarcas foram aplicadas. Para isso devemos levar em consideração dois aspectos:

1) As moedas que possuem o busto do soberano

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Moeda hispano americana de 8 reales, com o busto do soberano ( Carlos III, Carlos IV, Ferdinando VII, etc)

Obs: Ainda existem moedas com o nome de um soberano e o busto de outro, como e o caso, por exemplo da moeda de Carlos IV, com o busto de Carlos III, ou Ferdinando VII, com o busto de Carlos IV (casa da moeda de Popayán).

2) as que não possuem o busto do soberano, conhecidas como colunários, ou mundos e mares. Em seguida vem a identificação da origem da moeda ou seja, a casa da moeda onde foi cunhada. Sendo assim, temos: 

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Cunhadas durante o reinado de Carlos III, estas moedas possuem, no anverso, a alegoria dos dois mundos cercados pelos dois pilares de Hércules, representando o estreito de Gibraltar (considerado o fim do mundo conhecido).

Identificado o tipo de moeda (busto ou colunario), o segundo passo e determinar a casa da moeda em que a base foi cunhada. Isto se faz, identificando a letra monetaria. Na moeda do tipo busto, a letra monetaria encontra-se na legenda de reverso, entre “REX” e “8R”.

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